Lula Livre?

Lula Livre?

O Ministro Edson Facchin declarou nulos os processos contra o ex-presidente Lula. Isso tornaria o líder de esquerda elegível novamente. Nas condições normais de temperatura e pressão, teríamos uma reviravolta política enorme no país.

Entretanto, é preciso atentar para duas coisas. Uma delas, a decisão é monocrática. Ou seja, cabe recurso ao pleno do STF. Seria um dia de parar o país… Imaginem só um outro twitter de um oficial-general às vésperas do julgamento em Agosto de 2022?

O outro aspecto é que Moro sai ileso dessa história toda, uma vez que o Ministro do STF não julgou o mérito das decisões tomadas pelo “marreco de Curitiba”…Fachin não reconhece as mutretas do ex-ministro de Bolsonaro com os procuradores da Lava-Jato (Dallagnol & Cia…) Ou seja, abriu uma saída honrosa para essa canalha toda.

O Ministro do STF “descobriu” só agora (sic!) uma falha processual: A 13ª Vara de Curitiba não teria competência para julgar esses casos envolvendo Lula, uma vez que as denúncias contra ele nada teriam a ver com as questões da Petrobrás, objeto do referido tribunal.

Facchin age para salvar os destroços da Lava-Jato que sobraram após os vazamentos das conversas dos procuradores com o ex-juiz Sérgio Moro. Moro escapa de ser declarado suspeito nos processos pelo Plenário do STF, ficando ileso até para disputar a presidência.

O mérito das sentenças não foi julgado… Facchin manda os processos serem remetidos para a primeira instância do TRF do Distrito Federal. Aqui reside o ovo da serpente. Ou seja, voltando para a primeira instância no DF, se cair com um juiz bolsonarista, ele pode aproveitar boa parte das coisas feitas em Curitiba porque a suspeição de Moro caiu com a anulação das sentenças por causa de uma questão técnica.

Por hora, Lula volta ao páreo político. E pode se apresentar em 2022 como o anti-bolsonaro. É legítimo que o campo popular e democrático comemore de início. Afinal, alguma justiça finalmente está sendo feita, apesar dos cinco anos de atraso.

Ao mesmo tempo, o xadrez político brasileiro fica mais complicado. É preciso saber como os vários segmentos da sociedade brasileira irão se comportar a partir do mais importante fato político deste começo do ano. Os mercados irão se comportar de que forma agora?

Certamente teremos alta do dólar e queda das bolsas. Isso ilustraria muito o receio do grande capital com um possível retorno do PT ao poder. Mas o que é bom para os especuladores da bolsa é bom para o povo brasileiro? Pela história do capitalismo, sabemos a resposta.

Também a cúpula das forças armadas poderão se pronunciar publicamente a respeito. Se há um “interdito não dito” a Lula ou às esquerdas em relação a um possível retorno ao Planalto, os generais não poderão partir para o movimento mais explícito sobre?

Há que se observar qual será o comportamento da grande mídia a respeito. A decisão do Ministro Facchin caiu como uma bomba no noticiário do Grupo Globo. As expressões de surpresa misturada com contrariedade das apresentadoras do maior conglomerado empresarial de comunicação do Brasil expressa o sentimento de grande parcela da chamada Grande Imprensa.

A primeira reação dos comedian… Digo, dos analistas de plantão nos noticiosos foi tentar defender a lava-jato. Não é novidade, pois nesse campo e nas pautas econômicas, o jornalismo das empresas de comunicação sempre se comportou como um panfleto ideológico.

Além disso, com os desatinos do governo Bolsonaro com a pandemia, e sua queda de popularidade, a Mídia Corporativa sempre se empenhou em cancelar o campo popular e os movimentos sociais no jogo político. No momento histórico que vivemos, é preciso acabar ao máximo com direitos dos trabalhadores e com quaisquer concepções de educação que empoderem os filhos das famílias mais pobres do país. Para manter a destruição do Estado brasileiro, precisa-se de uma população servil, acreditando em fantasias como o tal empreendedorismo.

Por isso que, há algum tempo, eles estão fazendo um esforço enorme para imprimir nas esquerdas o rótulo de “bolsonarismo de sinal trocado”… Ou seja, já está em construção uma narrativa segundo a qual a direita neoliberal seria a única alternativa democrática e civilizada possível contra o bolsonarismo.

É preciso saber como vão se comportar os segmentos da necropolítica e da necrorreligião que dão suporte ao bolsonarismo. O próprio presidente, em um ato desesperado, não poderia antecipar um movimento autoritário, usando suas bases nas (forças policiais-militares dos estados, a capangagem do agronegócio, do garimpo e das madeireiras, caminhoneiros, milícias urbanas, ultraconservadores cristãos) para tentar uma solução de força ou alguma bravata?

A possível volta de Lula como protagonista político mediante um ato técnico de justiça não revela uma virada ético-política na sociedade brasileira. A sociedade continuará polarizada, e muita gente tentará explorar isso como algo nocivo. A mídia já ensaiava esse movimento.

A decisão de Facchin antecipa muito a corrida eleitoral. Isso precipita muitos debates em meio a uma pandemia que cada vez mais bate recordes de mortes. E pode causar o tumulto necessário para que os as elites brasileiras consigam emplacar aquele “sapatênis” em forma de gente capaz de seduzir as classes populares e os setores médios. Certamente os ataques a Lula voltarão com toda a intensidade pela grande mídia.

Portanto, hoje a esquerda pode comemorar. Mas é necessário ter cautela. A democracia ainda está solapada no Brasil e a destruição do país continua a seguir o seu curso.

Contudo, será que começamos a fazer aquela curva longa nesse túnel totalmente escuro em que se meteu o país, e começaremos a enxergar lá longe a luz da saída? Por ora, não consigo ser tão otimista, mas quem sabe? As cenas dos próximos capítulos dirão.

 

*Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor. Atua no Movimento Nacional Fé e Política.

*Atualizada 09/03/2021 às 05:55 horas