Eu vi Pedro Casaldáliga no céu

Eu vi Pedro Casaldáliga no céu
Foto rio-Araguaia- foto Da Agência Brasil

No dia oito de agosto eu tive um sonho. Estava na fronteira do céu e havia um imenso painel mostrando tudo o que lá estava acontecendo. Eu vi o céu todo enfeitado com centenas de flores silvestres. Os anjos corriam pelo campo e brincavam com diversos animais e acariciavam as cobras que espreitavam os acontecimentos enroladas nos galhos das árvores. Parecia-me a Cidade Santa do Apocalipse.

Do centro da Praça Celestial corria o Rio da Vida e o Espírito de Deus surfava sobre as águas. Eu vi Jesus Cristo ao lado de Maria. Ela representava todas as mulheres do mundo em todos os tempos. Estava vestida de azul celeste. Jesus vestia um manto cor de rosa aberto no peito onde podiam ser vistas as marcas da tortura. Com as mãos estendidas ele mostrava os sinais dos cravos.

Eu vi no Rio que Deus transformara em altar se formando um arco-íris com todas as cores. Eu vi que no céu não havia bandeira nem hino nacional. Eu vi o Apóstolo Pedro convidando todos os apóstolos e anunciando que a festa ia começar. Com eles estavam as mulheres apóstolas que foram testemunhas da ressurreição. Estavam todos paramentados com vestes litúrgicas simples feitas com pano de estopa e usavam estolas vermelhas para uma grande celebração em memória de todas as pessoas que sofreram o martírio. Foram lembradas as pessoas mártires do Corona vírus. Nesse momento Deus chorou. Eu vi os padres Josimo, Henrique, João Bosco Penido Burnier, Frei Tito de Alencar, Margarida Maria Alves, Irmã Dorothy Mae Stang, Dandara e Zumbi dos Palmares, Dom Oscar Romero e todas as pessoas que perderam a vida pela causa da justiça e estão lembradas nas bem-aventuranças de Jesus.

Eu vi que estavam também presentes Dom Hélder Câmara, Dom Adriano Hipólito, Dom Tomás Balduíno, Dom Valdir Calheiros Novaes e muitos outros padres e leigos. Como no céu não tem religião eu vi entre os presentes os pastores luteranos Dietrich Bonhoeffer e Breno Schumann, o pastor batista Martin Luther King e o artífice da não violência ativa Mahatma Gandhi ao lado de Dom Desmond Tutu.

Eu vi todos os humanistas, mesmo os que disseram não acreditar em Deus, mas dedicaram todos os seus talentos em defesa de um mundo mais humano e mais justo, sem exploradores e sem explorados.

Eu vi e ouvi a voz do silêncio durante um minuto.

A grande celebração teve início com Beethoven acompanhando um grande coral que tocava a Nona Sinfonia. Eu vi um interlúdio com Johann Sebastian Bach tocando Jesus Alegria dos Desejos Humanos, depois que Deus impetrou a bênção para todos os seres humanos e todos os animais, Hendel regeu um coral que cantou em todas as línguas o seu Aleluia.

Eu vi a concretização do vaticínio do Profeta Isaías: “O lobo e o cordeiro pastarão juntos. Eu vi logo depois uma grande confraternização com uma roda de samba. Eu vi Pixinguinha, Noé Rosa, Cartola e Beth Carvalho. Eu vi cantando Lupicínio Rodrigues. Eu vi Adoniran Barbosa entoando Iracema ao lado de Elis Regina. Eu vi Luiz Gonzaga tocando um xaxado com a sua sanfona branca, abraçado com Dominguinhos.

Eu vi Deus chamar Dom Pedro Casaldáliga para subir em um púlpito rubro em forma de cruz para fazer uma análise da atual conjuntura brasileira. Enquanto Dom Pedro falava, com o seu chapéu de palha, e por Deus foi reconhecido Santo, eu vi mulheres indígenas que distribuíam anéis de tucum.

Dom Pedro Casaldáliga, quando fores orar ao lado de Nosso Senhor Jesus Cristo, não esqueças deste teu admirador que acaba de despertar do seu sonho para continuar vivo no “vale da sombra da morte.” Eu não quero te dizer adeus, mas à Deus!

Mozart Noronha, pastor da IECLB, morro do Cantagalo, Zona Sul do Rio de Janeiro