Aliança cósmica: a primeira e maior aliança bíblica – Meditações sobre Gênesis 9, 8- 15

Aliança cósmica: a primeira e maior aliança bíblica – Meditações sobre Gênesis 9, 8- 15

(Ao querido irmão e amigo Roberto Malvezzi, o Gogó, profeta cósmico da aliança de Deus com todos os seres vivos e com os quais aprendo a ser discípulo da Terra e das Águas).

 

Aliança é um termo essencial para se compreender a Bíblia O termo ocorre mais de 300 vezes só no primeiro testamento e se pode dizer que é a principal chave de leitura para compreender a história do povo bíblico. A Aliança está na origem da organização do povo de Deus. A partir da aliança se pode compreender a sua lei, sua moral, sua vida[i].

Apesar de ser um conceito tão central na Bíblia, como veio de contextos históricos muito diversos, a aliança bíblica vai ganhando no decorrer dos séculos bíblicos, significados diferentes e, por isso, não é fácil perceber sua atualidade e poder aplicá-lo à nossa cultura e nossa realidade.

Na origem, era um termo vindo do mundo cultural do antigo Oriente Médio, no qual um proprietário de terra mais forte ou com mais condições fazia aliança (berit) de proteção a pequenos proprietários que lhe eram vizinhos e estavam ameaçados por algum inimigo. Evidentemente, o grande protegia o pequeno mediante pagamento de tributos ou de serviços estipulados no contrato da aliança. Havia naquela região um El Berith (Deus da Aliança) que muitas vezes servia de fiador da aliança entre dois ou mais parceiros. A aliança era feita entre cidades ou reis e era concluída em nome de Deus. Deus era o fiador. A aliança era em Deus.

Provavelmente, mesmo tendo sido narrada séculos depois e sem que possamos ter nenhuma segurança de fato histórico, conforme a tradição bíblica, no livro de Josué 24, se conta dessa forma a aliança das tribos e clãs de hebreus para conquistar a terra. A aliança era entre eles e Deus foi o fiador. Por isso, trair a aliança era acarretar um conflito com o próprio Deus. Na época, eles viam Deus mais ou menos como o Candomblé fala de Orixá. Assim como Xangô é o Orixá da Justiça e Exu, da comunicação, El Berith era o deus da aliança. Quem queria fazer um desses pactos militares fazia na relação com esse deus e isso era feito ritualmente.

Com o decorrer da revelação bíblica que é progressiva, pouco a pouco, o povo bíblico foi purificando sua forma de adorar a Deus e algumas formas mais antigas foram sendo substituídas e outras foram confirmadas. Por exemplo, El Shabbaot (Deus dos exércitos ou da guerra sagrada) deixou de ser nome ou figura aceitável de Deus. Já El Berith, o deus da aliança, ficou e se tornou um dos nomes possíveis de IHWH.

A partir do século VI antes de Cristo quando o povo bíblico vive a experiência do cativeiro da Babilônia e muitos judeus são exilados como escravos, então sim, o povo descobre que não somente pode ter Deus como fiador da aliança entre povos ou grupos ou pessoas, mas Deus mesmo toma a iniciativa de fazer aliança com o seu povo.

 

I – Pressupostos teológicos e espirituais da aliança

Crer que o próprio Deus toma a iniciativa de fazer aliança com o ser humano supõe em primeiro lugar que Deus esteja interessado na vida das pessoas e mais ainda que precisa delas. Como aliança é um acordo, todo acordo é de alguma forma bilateral, não se pode fazer se uma das partes não aceita e não se compromete.

Aí se cria um problema já como ponto de partida: se Deus é Deus e portanto é todo-poderoso, como supor que ele pode precisar do ser humano e pode mesmo depender dele já que vem fazer uma aliança com a humanidade?

Um Deus totalmente transcendente não faz aliança com ninguém. Nas culturas afro, Olorum ou Dzambi não faz aliança nem mesmo recebe culto. O culto e as alianças são feitas com seus Orixás ou manifestações que sejam forças da natureza (em uma cultura) ou sejam antepassados humanos que se tornaram encantados (em outras culturas). Na Bíblia, sob este ponto de vista há uma ambiguidade. Vários textos afirmam:  “O Senhor falou a Abraão ou a Moisés” e no versículo seguinte o chamam: “O Anjo do Senhor”, ou seja uma manifestação de Deus já que Ele mesmo não poderia.

Por causa desta ambiguidade, na Bíblia, o termo aliança toma duas dimensões: essa de um contrato ou acordo e a outra (o termo grego facilita diateke facilita isso): testamento. No testamento, quem faz o testamento pode até colocar condições para a pessoa que vai herdar ou receber, mas o testamento é feito por um e não depende de acordo. No entanto, o termo aliança sob este ponto de vista é mais rico e mais revolucionário no sentido de uma divinização do ser humano. Imaginem: a gente poder fazer uma aliança com Deus. A Bíblia cuida de sempre mostrar que foi Deus que tomou a iniciativa e as condições são desiguais. As responsabilidades de cada parceiro na aliança são desproporcionais, mas cada um dá o que tem e o que pode. Não é uma aliança entre dois parceiros em condições iguais.

Ao comentar isso, em um de seus escritos, no século IV, Santo Agostinho explica assim: “Deus é fiel à sua aliança porque cumpre a sua promessa. O ser humano é fiel porque crê na promessa e aceita viver a partir da promessa de Deus”.

No decorrer do texto bíblico, em suas diversas redações, as imagens da aliança evoluem. Deixam de ser militares ou jurídicas como ainda eram no caso de Abraão e passam a ser de amizade no caso de Moisés (ele falava com Deus como um homem fala com seu amigo – Ex 33). Mais tarde, evoluem no sentido de ser imagem de casamento como nos profetas Jeremias, Oséias e Isaías II e III. Deus é o esposo de Israel e a comunidade é a sua esposa. A relação é de intimidade e de amor (ou ao menos, deveria ser).

Na Bíblia estão descritos vários momentos ou várias dimensões ou várias instâncias de aliança. Historicamente, o mais provável é que o povo bíblico tenha evoluído de uma visão mais tribal e restrita para uma visão mais ampla até chegar ao universal. Neste caso, a ordem das alianças seriam da mais restrita e fechada até a mais aberta. No entanto,  coloco aqui na ordem que está na Bíblia.

1 – a aliança de Deus com a criação e o cosmos – através de Noé – Gn 9 – tem como sinal o arco-íris no céu. (certamente a última a ser formulada no primeiro testamento).

2 – A aliança de Deus com Abraão e os seus descendentes –

(hoje, se fôssemos ver em termos religiosos, seriam os judeus, cristãos e muçulmanos) – tem como sinal a circuncisão dos meninos machos.

3 – A aliança de Deus com Moisés e os hebreus (tem como sinal a Lei – a Torá).

4 – há quem valorize a aliança de Deus com Davi – o sinal é o Messias como filho de Davi.

5 – uma nova aliança anunciada em Jeremias 31 que os cristãos aplicam ao Novo Testamento e a Jesus.

Tem autores que veem sete alianças bíblicas.  Prefiro pensar que a aliança é uma só e é eterna.  E o que mudam são os contextos nos quais essa aliança única é retomada e atualizada e compreendida para cada momento e situação.

 

II – A aliança com o cosmos na relação com Noé

No Brasil, quem mais aprofundou o estudo sobre os onze primeiros capítulo do Gênesis foi o saudoso Milton Schwantes[ii].

Neste livro, Milton propõe uma revisão da importância dada ao bloco de Gênesis 1-11, vendo nessas narrativas um papel decisivo e fornecendo o horizonte para a Teologia de todo o Primeiro Testamento.

Sem dúvida, estes capítulos (Gn 1- 11) representam uma “porta de entrada” da Bíblia e oferecem relatos como se fossem “histórias do princípio” para falar da proposta divina para a sociedade no futuro. Os fatos ali narrados nada têm de “históricos” em termos de ciência. O mundo não foi criado em seis dias. Adão e Eva não foram os primeiros a pisarem a terra. Não é verdade que, no começo do mundo, os povos falassem uma só língua. Tudo isso é como parábola que nos aponta para a importância do modo como o povo bíblico lê a história.

Atualmente, é quase consenso que esses onze primeiros capítulos da Bíblia vêm da Assíria e da Babilônia (onde hoje em dia é o Iraque). Só que o grupo de sacerdotes e profetas que assumiram estes mitos religiosos da Babilônia os transformaram para a perspectiva bíblica. É claro que relatos de dilúvio não viriam de uma região seca como era e é a Judeia. São relatos da Babilônia. Só que ali os relatos mostravam uma luta de deuses pelo domínio do mundo.

Na Bíblia, o relato do dilúvio tem outro sentido. Representa uma espécie de contraconto em relação aos relatos babilônicos do mesmo mito. Na Bíblia, o povo escravo se apossa do relato dos senhores e reinverte o seu sentido. O dilúvio acontece porque a humanidade praticava a violência tanto entre seres humanos, como com a natureza. Quase podemos pensar na realidade de hoje em que de novo a humanidade provoca uma ameaça de destruição do mundo inteiro.  Na Bíblia, o dilúvio é contado não para falar do fim do mundo e sim, ao contrário, para advertir a humanidade em cuidar da terra e uns dos outros e para concluir que Deus se compromete a nunca mais destruir o mundo e acabar com a humanidade.

É nessa perspectiva que o capítulo 9 fala da aliança de Deus com o cosmos. A primeira vez que a Bíblia fala de aliança foi prometida quando Deus anuncia o dilúvio (Gn 6, 18) e agora no capítulo 9 se concretiza. Esta é a primeira e também a mais ampla de todas as formulações de aliança do primeiro Testamento, porque foi estabelecida entre Deus e toda a sua Criação. Esta Aliança, com caráter eterno (9,16), continua em vigor porque em nenhum lugar da Bíblia se diz que a mesma foi revogada. Ultimamente,  esta dimensão cósmica da aliança tem sido objeto de muitas reflexões, devido à sua importância como categoria teológica e, principalmente, porque,  hoje, adquire uma dimensão ecológica e espiritual (holística).

O texto reflete várias redações às vezes divergentes e feitas em contextos históricos diferenciados. Por exemplo, a ordem de Deus no começo do Gênesis tinha sido do ser humano comer vegetais e não comer animais. Agora, depois da destruição do mundo todo, é quase natural que permita comer animais porque não haveria naquele contexto vegetais para alimentar as famílias humanas. Só que permanece o respeito à vida que é sagrada. Por isso, fica proibido comer sangue.

Pouco importa aqui o estudo exegético dos contextos culturais. O importante para nós é perceber que o objetivo da aliança é a preservação e renovação da vida. O texto do capítulo 9 é organizado em três partes:

 

1 – O compromisso de Deus que toma a iniciativa e dá a sua bênção, isso é, diz o seu SIM a toda a criação renovada – Gn 9, 1- 7.

Ainda antes de firmar a Aliança, Deus assume um compromisso, pois o capítulo 9 inicia com a bênção indicando que Deus está se comprometendo a abençoar, como já havia feito no início da criação (1,22.28; 2,3), assim não retirará seu beneplácito sobre sua Criação.

 

2 – A promessa divina em relação à vida. – v 8 – 11.

De certa forma, a aliança cósmica é perspectiva. Ela é feita no presente mas em relação a um projeto. Para os profetas como Isaías, a própria natureza tem se reconciliar entre si. Os animais ferozes, os domésticos e o humano serem capazes de conviver em harmonia (Isaías 11). É isso que dizia quando Milton intitula o livro dele sobre esses capítulos do Gênesis: Projetos de esperança. Nos anos 70, Carlos Mesters publica um livro sobre os primeiros capítulos do Gênesis e o título do livro é: “Paraíso terrestre: saudade e esperança”[iii]

 

3 – O símbolo ou instrumento da aliança – o arco-íris – v. 12 – 17.

As outras vezes nas quais a Bíblia falará de aliança será sempre com um personagem como mediador da aliança. Foi assim com Abraão (Gn 15) e com Moisés (Ex 19) e assim será com Davi (2 Sm 7). Neste relato da aliança cósmica não é assim. Noé não fala. Noé não é mediador. Quando Deus se dirige a Noé, usa sempre o plural: “Eis que estabeleço minha aliança convosco...” (9,9.11), ou “entre mim e vós e todos os seres vivos” (9,12) ou mais “entre mim e a terra” (9,13)… Não é como outras (que historicamente teriam sido anteriores, mais tribais e religiosas). Essa Deus tem como parceiro da aliança a terra e o cosmos. O ser humano está integrado no conjunto dos seres vivos. Não é antropocêntrica. A aliança divina abrange toda a Criação e as gerações futuras (9,12).

Para os antigos adoradores de Javé ou El Shabbaot, o arco do céu era um arco de guerra. O termo hebraico é qedesh e a Bíblia traduz como arco-íris, porém no AT em geral o termo significa o arco da guerra. Era o arco do guerreiro sempre pronto a desferir flechas do céu. O salmo 18 fala de Deus montado nas nuvens e os seus relâmpagos como flechas atiradas no mundo. Quem mora em regiões semi-áridas e de muitas pedras como a Judeia sabe que é preciso temer os relâmpagos e raios atirados como flechas por Deus. Quem mora em regiões de pântanos e rios como a Amazônia e como era a Babilônia de onde vêm o mito do dilúvio sabe o que significa o reaparecimento do sol depois de dias e dias de chuva. Por isso é quando chuva e sol se encontram que aparece o arco-íris e enquanto ele está pendurado no céu, de um a outro lado do horizonte, significa que Deus não o está usando contra o mundo. Neste relato, Deus assegura que pendurou para sempre o seu arco no céu e nunca mais o usará contra a terra:

Eis o sinal da aliança que instituo entre mim e todos os seres vivos, para todas as gerações futuras: porei o meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra” (9,12-13).

Além de ser um belo sinal, para os antigos, o arco-íris consistia em algo enigmático e inexplicável.

Por ser um fenômeno que ocorre em todas as partes do mundo e admirado por todas as culturas, tornou-se o símbolo universal desta Aliança. Mesmo sem relacioná-lo diretamente com a Aliança, o autor do Eclesiástico se encanta diante dele: “Contempla o arco-íris e bendize o seu Autor, ele é magnífico em seu esplendor. forma no céu um círculo de glória, as mãos do Altíssimo o estendem” (Eclo 43,11-12).

O surgimento do arco-íris era para recordar a Aliança estabelecida. Porém, mais que a Criação ou os humanos, era Deus mesmo que se recordava: “Quando eu reunir as nuvens sobre a terra e o arco aparecer na nuvem, eu me lembrarei da aliança que há entre mim e vós e todos os seres vivos…” (Gn 9,14-15). Portanto, o sinal é para Deus. Esta expressão vem repetida novamente no versículo seguinte “eu verei e me lembrarei da Aliança” (Gn 9,16). No entanto, também o povo de Deus, historicamente, ao ver o arco-íris recordava a Aliança e contemplava seu Deus.

O arco-íris é sinal do pluralismo abençoado por Deus na natureza e na realidade humana. A variedade das cores significa isso. Podia surgir depois das chuvas (tempestades) e fazia esta inexplicável e bonita ligação como uma ponte entre o céu e a terra, como um sinal de religamento, de harmonia cósmica e de Shalom. Raimon Panikkar, teólogo catalão e de pertença cristã e ao mesmo tempo hinduísta chamava essa visão espiritual de “cosmoteândrica” (junta o cosmo, Deus e o ser humano). E ele dizia: “esta aliança é a minha fé”.

Na Aliança com Noé nos encontramos todos, não importa a que religião pertencemos. O diferente não é contrário, nem deve ser eliminado. Somos todos filhos do Deus da Aliança que nos fez diferentes e diversos. Na Aliança com Noé estamos todos os povos, todas as culturas, todas as religiões… E o cosmos é sacramento desta aliança. A natureza deve ter para toda a humanidade o mesmo significado que tinham as tábuas da lei na aliança feita com Moisés e o povo dos hebreus (não o Israel de hoje) e que tem a ceia de Jesus para as Igrejas cristãs: a Terra, as águas e a natureza são sacramentos e inclusive são mais importantes porque são sacramentos universais e estas “alianças mais particulares” deveriam se situar dentro dessa aliança maior e original. Deveriam ter como objetivo nos ajudar a vivermos essa primeira e eterna aliança.

Atualmente, as culturas e religiões que parecem mais fieis a essa aliança cósmica são as culturas e religiões indígenas e afrodescendentes.

Não sabemos desde quantos séculos, na cordilheira dos Andes, os povos Aymara e Quetchua ou Quitcha da Bolívia, Peru e Equador têm como sagrada a Wiphala, a bandeira indígena feita com as sete cores do arco-íris e que significa a identidade indígena. Ela é considerada símbolo do pensamento filosófico e religioso andino. Simboliza a Pacha-mama e Pacha-Kama, a união do céu e a terra. É símbolo da organização e harmonia, da irmandade e reciprocidade nos Andes. A Wipala é feita de 48 quadrados e da combinação das cores do arco-íris onde cada cor tem um significado próprio e representa as comunidades (ayllus).

Sem Bíblia e sem esta história do Gênesis, os povos andinos vivem a fé na atualidade dessa aliança cósmica.

No Cristianismo, nas últimas décadas, o Conselho Mundial de Igrejas publicou para as Igrejas-membros vários documentos sobre ecologia e espiritualidade. O patriarca ortodoxo Bartolomeu I instituiu uma festa litúrgica na qual se celebra a Criação. O papa Francisco escreveu a Laudato si. Apesar disso tudo, a maioria dos padres, bispos, pastores, religiosos/ e mesmo teólogos/as ainda continuam vendo a Ecologia como algo ligado à fé mas como um penduricalho, como um anexo. Assim como na Igreja Católica a maioria dos padres e bispos veem a Campanha da Fraternidade. É consequência da fé, mas não é o seu núcleo. Não é sua essência. A fé é dogma e culto. E esses mesmos restritos ao aparato colonial do Cristianismo vindo do Império.

 

III – Algumas conclusões provisórias

Uma primeira conclusão é a de que embora a promessa de Deus seja para sempre e esta aliança cósmica, em princípio, continua em vigor, é certo que o perigo da destruição da criação e do planeta Terra hoje continua real. Do mesmo jeito que, conforme o Gênesis, a destruição nunca foi a vontade de Deus, também agora a destruição seria por culpa do ser humano. Nunca a natureza foi tão agredida e destruída como nos últimos anos (sobretudo com a visão utilitarista das reservas naturais).

A retomada da corrida armamentista e sobretudo a ameaça nuclear ameaçam a existência do Planeta. Somos nós, os humanos, que poderemos desencadear o um novo “dilúvio” mais devastador do que o primeiro. Hoje torna-se urgente um pacto, uma Aliança ecológica, no sentido de preservar o Planeta e toda a Criação. A Terra não suportará por muitos anos esta agressão. Corremos o sério risco de sermos vomitados (cf. Lv 18,24-30; 20,22). Portanto, é necessária a retomada da Aliança com Deus ou sem Deus. Mesmo para os que têm alguma tradição religiosa, a aliança cósmica deveria ser novamente em Deus e não apenas com Deus. Isso significa que a aliança é entre nós e com a Terra e Deus é o fiador desta Aliança.

Esta Aliança pela vida exige uma outra economia, contrária a essa da qual o papa já advertiu: esse sistema mata!

Conforme a aliança cósmica do Gênesis, já vimos que a vida humana tem valor e é sagrada. Na vida do outro, mesmo sendo adversário, está o sangue, o nefesh e ninguém tem o direito de tirar a vida do outro, pois esta pertence unicamente a Deus. Como lidar com este fato de que mesmo Igrejas e religiões ainda não ligam a fé e o cuidado com a vida? (Basta ouvir falar em traficantes evangélicos e em pastores ligados à milícias. Ou ouvir áudio no qual um padre que aparece sempre na TV como grande pregador espiritual no Santuário de Trindade vai ameaçar um adversário que lhe está extorquindo dinheiro e vai com dois pistoleiros armados).

Outro aspecto do mesmo cuidado com a vida é o respeito aos animais e à natureza: Embora ultimamente tenha evoluído uma certa consciência ecológica, é nestes últimos anos que vemos mais desrespeitados os direitos dos animais e das espécies vivas. Estamos assistindo o desaparecer de muitas espécies vivas. Vemos também a formação dos imensos “desertos verdes” onde as empresas transnacionais plantam uma única espécie (pinus ou eucalipto) que impedem o desenvolvimento de outras espécies de fauna e flora.

Na dimensão mais profunda da espiritualidade, essa perspectiva de aliança tem hoje um problema: é que compreendemos a relação com Deus como presença divina em nós e não queremos mais imagens de um Deus que é “de fora”  de nós. Como integrar nessa visão essa perspectiva de aliança com Deus como se fosse um casamento de intimidade? É preciso uma nova releitura dos textos bíblicos e talvez possamos aprender com as espiritualidades originárias que têm essa perspectiva da aliança na qual se integram Deus, o ser humano e o cosmos (como dizia Panikkar: cosmoteândrica) e, ao mesmo tempo vivemos esse ser tomado pelo Espírito dentro de nós e não como poder externo.

Se fosse falar da minha experiência, tenho aprendido a viver isso no culto dos Encantados (com os índios do Nordeste) e na minha relação com o Candomblé de tradição Iorubá.

Como dizia o profeta Jeremias, a perspectiva de renovar esta aliança é sempre atual: “Hei de fazer uma nova aliança. Colocarei a minha lei no seu coração. É dentro de vocês que vou gravar a aliança. Então, serei o seu Deus e eles serão o meu povo. (…) Ninguém mais vai precisar de dizer ao seu irmão: conhece o Senhor, porque todos/as, do menor ao maior, me conhecerão (linguagem que conota relação amorosa íntima)” (Jr 31, 31- 34).

 

Bibliografia

ARANA, A. I. Para compreender o Livro do Gênesis. São Paulo: Paulinas, 2003.

MACKENZIE, J. L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 72002.

DE PURY, A.(Org.) O Pentateuco em Questão. Petrópolis: Vozes, 2002.

SCHWANTES, M. Projetos de Esperança. Meditações sobre Gn 1-11. Petrópolis: Vozes-CEDI- Sinodal, 1989.

SKA, J.-L., Introdução à leitura do Pentateuco. Chaves para a interpretação dos cinco primeiros c. livros da Bíblia. São Paulo: Loyola, 2003.

 

[i] – MESTERS, Carlos, Bíblia, Livro da Aliança, São Paulo, Ed. Paulus, 2017, p. 7.

[ii] – Cf. SCHWANTES, Milton, Projetos de Esperança, Meditações sobre Gênesis 1 a 11, São Paulo, Ed. Paulinas, 2008.

[iii] – Ver BARROS, Marcelo, A profecia da Terra, a Espiritualidade e os Desafios para a fé, Brasília, CNBB, Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, 2016.