Uma carta de Natal para o Natal da classe trabalhadora

Uma carta de Natal para o Natal da classe trabalhadora
Charge do potiguar Ivan Cabral

Por Cesar Sanson*

Joab é o seu nome. Jovem. Não muito mais do que 27 anos. Carregava nas costas um fogão enferrujado. Subindo uma ladeira, não muito íngreme, mas relativamente longa. Ao seu lado, empurrando uma bicicleta, a esposa, Joyce.

Me ofereci para ajudar a carregar o fogão. Joab aceitou. Ajudei até o trecho em que cheguei a minha casa, dali para frente, um longo percurso o aguardava até onde moram, na Vila de Ponta Negra. No momento da despedida, enquanto descansávamos, fico sabendo dos nomes. Pergunto onde encontrou o fogão.

– Largado numa calçada, disse ele.

– Está muito velho, todo enferrujado, creio que não funciona mais, disse eu.

– Se não funcionar vendo como ferro velho, disse Joab.

Me contou que cozinham com lenha e o fogão seria uma benção. Disse a ele que o gás está muito caro.

– Dá-se um jeito, disse.

Puxei um pouco mais a conversa. Joab veio do interior do Rio Grande do Norte, fugindo do desemprego e da fome. Em Natal, encontrou Joyce e juntos tiveram uma filha, Jeice. Joab e Joyce estão desempregados, vivem de bicos e da ajuda de uma ou outra pessoa.

Passados alguns dias, retornando de uma caminhada, encontro Joab, Joyce e Jeice. A família 03 ‘J’ como Joab diz. Levam a filha, 4 anos, para brincar numa praça. Perguntei do fogão.

– Duas bocas estão funcionando, afirmou com alegria de quem deu sorte no achado.

Me despedi e, desde então, coisa de uma duas semanas, não mais o vi.

Joab, Joyce e Jeice são um pouco do Brasil. Na verdade, são muito do Brasil: jovens, trabalhadores, desempregados, migrantes, morando em condições precárias e alimentando-se mal.

Assim é o Brasil: 13,5 milhões de desempregados, 5 milhões de desalentados, 38 milhões de informais, 60% vivendo em severas condições de vulnerabilidade. Ainda pior, 117 milhões não se alimentando como deveriam, 20 milhões passando fome. Metade deles no Nordeste.

Assim vivem milhares de brasileiros: sem renda regular, sem trabalho e direitos trabalhistas, sem quantidade mínima de comida, morando precariamente, com saneamento inexistente, educação insuficiente e até recentemente, sem vacinas para prevenir um vírus mortal.

Agora, aproximando-se do Natal, lembro da família de Joab e me vem à cabeça outra família: José, Maria e Jesus. À época, a família de Jesus fugia do fascista Herodes. Hoje, Joab, Joyce e Jeice, são, também, em grande parte, vítimas de outro fascista: bolsonaro – assim com ‘b’ minúsculo mesmo, porque o maiúsculo dever servir a nomes próprios que merecem respeito.

bolsonaro despreza o povo brasileiro. Não gosta de pobres, de mulheres, de negros, de nordestinos, de indígenas… Não faz muito tempo disse que os brasileiros teriam que escolher entre trabalho ou direitos. Negou a vacina. Semeou e continua semeando a morte. Tempos sombrios.

Mas a vida sempre vence a morte. O menino que nasceu em tempos sombrios é o mesmo que anunciou a boa nova (Lucas 4,16-21).

Joab, Joyce e Jeice vivem em Natal, mas hoje representam o Natal. Apesar da dureza da vida, em momento algum vi amargura em seus comentários. Ao contrário, vi muito sorriso e muita esperança de que a vida vai melhorar.

*Professor da UFRN. Assessor das escolas de Fé e Política Pe. Sabino Gentili e Regional NE/2 Pe. Humberto Plummen.

Imagem: charge do potiguar Ivan Cabral