Santo Pedro

Santo Pedro
Da esquerda para a direita: Pedro Pontual, Selvino Heck, Pedro, Paulo Maldos e Alexandre Fonseca, todos então da equipe da Secretaria Geral da Presidência da República, na casa do Pedro / Arquivo pessoal

Estou muito triste e choroso. Estamos todas e todos muito tristes e chorosos. Ao mesmo tempo, estou alegre, estamos alegres. O Santo Pedro transvivenciou-ressuscitou dia 8 de agosto de 2020. E vai continuar nos acompanhando na luta da libertação, no amor pelos mais pobres, no sonho de uma América Latina livre e soberana, na utopia. Revisito com saudade a viagem a São Felix do Araguaia em 2014, para ver a primeira exibição do profético filme Descalço sobre a Terra Vermelha. Memória, eterna, Santo Pedro, com lágrimas, e vida, vida, muita vida!

 

Na exibição do filme, da esquerda para a direita: Padre Ernani Pinheiro, Dom Adriano, atual bispo, Pedro e um ajudante dele / Arquivo pessoal

 

“SANTO PEDRO. Não sei se terei palavras suficientes nem capacidade de traduzir o que vivi/vivemos e o que senti/sentimos nos dias 2 e 3 de dezembro de 2014 em São Félix do Araguaia, Mato Grosso. Foi a primeira exibição do filme Descalço sobre a Terra Vermelha no Centro Comunitário da Prelazia, sobre a vida, a luta, o compromisso evangélico de Dom Pedro Casaldáliga, com a presença de centenas de pessoas e a presença do próprio Pedro.

O filme começa com a visita ‘ad limina’ de Pedro, bispo, ao Vaticano em 8 de junho de 1988, onde é recebido pelo então cardeal Ratzinger, depois papa Bento XVI. Na entrada do imponente prédio de imensos corredores, pedem-lhe que se vista adequadamente, isto é, batina preta, tire as sandálias e ponha sapatos. Ratzinger comenta os belos sapatos usados por Pedro. Pedro responde: ‘São presentes de Fidel.’ E seguem os questionamentos sobre sua atuação em São Félix, a defesa dos pobres e oprimidos, no caso os peões das fazendas, os índios e as prostitutas, jovens, mulheres, a Teologia da Libertação, seus textos, livros e poemas.

O filme vai contando a história de Pedro, desde sua chegada ao Brasil em 30 de julho de 1968, com 40 anos. Diz o barqueiro Josué, que leva Pedro e seu parceiro Daniel pelo rio Araguaia até sua futura casa: ‘Aqui é o fim do mundo. Vocês não têm ideia de onde estão se metendo’. E pergunta a Pedro, que tem caneta e caderno na mão: ‘Como está escrevendo aqui?’ Pedro diz: ‘É fácil ser poeta numa lindeza dessas, como esse rio’.

Pedro vai conhecendo a realidade dura de São Félix e região: os peões escravos, a morte rondando todos e todas e acontecendo por qualquer banalidade, a injustiça, a violência contra a mulher, o medo do povo ante o poder estabelecido, a aliança da ditadura com o latifúndio e os políticos, o desprezo com a vida, a pobreza, as vacilações da Igreja Católica.

Pedro, na convivência com os pobres, com as e os eterna e historicamente rejeitados e excluídos, as e os sem vez e sem voz, com as e os que ocupam a terra para poderem plantar e viver, descobre a resistência popular, enfrenta os poderosos, começa a ser perseguido, é ameaçado de morte, assim como quem trabalha com ele. Alguns são assassinados, como os padres Jentel, João Bosco e lideranças de posseiros, outros são presos e torturados.

Falou D. Adriano, atual bispo, antes da exibição do filme: ‘Um povo sem história e sem memória não pode escrever o futuro. É preciso saber quais foram as lutas, os caminhos trilhados, as esperanças. É uma saga a ser conhecida, celebrada por todos os que moram em São Félix e no Vale do Araguaia.’

Escrevi mensagem para os membros do Movimento Nacional Fé e Política: ‘Foi lindo, compas, foi lindo: primeira exibição do filme da história de Pedro no Centro Comunitário da Prelazia de São Félix. Ele, que ficaria só uma hora, resistiu a quase três horas de exibição e cumprimentou todo mundo no final. E uma coincidência incrível. O Moura, do qual tanto falamos no Seminário do Movimento no final de semana, aparece no filme como um guri jovem e cheio de ideais. Perguntei ao Paco, o roteirista catalão do filme, no jantar após a exibição, se o Moura do filme era o Moura que eu conhecera como deputado estadual constituinte goiano, fundador do Movimento Fé e Política e de quem eu falara com saudade sábado e domingo. Era.’

Matéria da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), coprodutora do filme através da TV Brasil, conta: ‘Olhos atentos. Ninguém queria perder nenhuma das cenas. Na plateia, pessoas de todas as idades acompanhavam a narrativa. A estudante Nágila Oliveira falou emocionada sobre o filme que tinha acabado de assistir e a importância do registro para as futuras gerações: ‘Guardei um monte de lágrimas em muitas horas. Deu para conhecer muito bem a luta dele, que vai continuar por meio desse filme, porque ela não acabou.’ Dom Pedro Casaldáliga ficou no centro comunitário até o fim da exibição. Em conversa com a equipe da EBC, o bispo, que tem dificuldade pra falar devido ao mal de Parkison, disse que tinha receio de ser retratado como protagonista da luta de São Félix e ressaltou que as conquistas foram resultado da luta e da caminhada de muitos.’

Dia seguinte à exibição, a comitiva – Secretaria Geral da Presidência, produtores do filme, equipe da EBC, Pe. Ernani Pinheiro, da CNBB, todos lamentando a ausência do ministro Gilberto Carvalho -, reunimo-nos cheios de emoção na casa de Pedro, casa comum numa rua de terra de São Félix. E, celebrando a vida e o encontro, rezamos a Oração de São Francisco, a mensagem evangélica da multiplicação de pães e peixes, um salmo.

No final, Pedro, o bispo emérito, D. Adriano, bispo atual, nos abençoaram. Termino, emocionado, esta minha (quase) oração com o poema Nossa Senhora do Araguaia, de Pedro:

‘Senhora do Araguaia,

comadre do dia a dia,

senhora libertadora,

mui servidora Maria.

Passarinha da ternura

nas muitas águas da vida,

enche de Reino a História,

e o rio, de poesia’.

Escultura na casa de Dom Pedro Casaldáliga – Arquivo pessoal

Não erro nem exagero quando escrevo Santo Pedro. E faço a saudação final com as últimas palavras da Oração dos Mártires da Caminhada Latino-americana, de Pedro: Amém, Axé, Awere, Aleluia!”

Em homenagem ao santo, profeta e poeta Pedro, transcrevo um poema escrito e declamado por mim no Curso Oscar Romero, Santa Maria, janeiro de 2018:

NU SEM O ANEL DE TUCUM

Saio de casa,

algo incomoda.

Falta alguma coisa,

há um vácuo.

Será o calçado fora de hora,

ou duas meias de cor diferente?

Ou o pouco cabelo despenteado?

Ou o fecho da calça de um velho estará aberto?

Ou, quem sabe,

a ausência de um botão na camisa?

Ah, esqueci o anel de tucum

em algum lugar recôndito,

nalguma gaveta.

Estou nu sem o anel de tucum.

Dou meia volta,

caminho pensativo.

Circulo em casa de mamãe, último porto,

última noite.

Terá rodopiado para baixo

de uma das duas camas do meu quarto?

Larguei em cima de qual pia?

Ou o tirei quando fui esvaziar e lavar

a bomba e a cuia de chimarrão?

Meu anel de tucum me faz irmão

das e dos esquecidos e humilhados da história.

Faz-me companheiro de quem não conheço ainda,

ou encontrei pela primeira vez.

Faz-me caminhar jornadas e marchas

com quem acredita nos meus sonhos,

quem constrói as lutas

por um outro mundo possível,

quem faz da igualdade o sentido da vida,

e da justiça e solidariedade

o cuidado de ser e viver na Casa Comum,

quem anuncia a fraternidade da utopia e do Reino.

Sem o anel de tucum,

estou no frio do inverno do Sul,

desagasalhado,

ou no calorão de dezembro,

sem abrigo ao sol.

Estou perdido no asfalto,

ou no meio da floresta,

sem rumo.

Estou caminhando na estrada,

desorientado.

Estou sozinho, sem roupa,

perdido no espaço e no mundo.

Estou nu.

Com o anel de tucum

no dedo anular esquerdo,

sou povo,

sou Pedro,

 sou guarani,

sou Sepé Tiaraju.