RÁPIDA OLHADA NA CONJUNTURA

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Por Roberto Malvezzi (Gogó)*

“Cada ponto de vista é a vista de um ponto”, já diziam os teólogos da libertação. Então, olhar o Brasil a partir do sol do Nordeste é ver um Brasil diferente, resistente, resiliente, rebelde, que não faz nenhuma concessão ao fascismo brasileiro. É um privilégio, reconheço, mas talvez nos ajude nesse outubro de 2022 que promete ser tenso e decisivo para o Brasil.

Por aqui, PT fez três governadores (PI, CE e RN) e disputa mais dois estados no segundo turno (BA e SE). Ainda há São Paulo e Santa Catarina. É o partido que mais elegeu governadores nessa eleição e pode eleger outros. A média de votos em Lula foi de 65% no Nordeste, mas pode chegar a 70% no segundo turno. Estados como o Piauí costumam chegar a 80%. Quem não é do PT, é próximo, ainda que informalmente, como Marília Arraes em Pernambuco. Ainda elegeu 68 (?) deputado(a)s federais, inúmeros estaduais e vários senadores pelo Brasil.

Lula avançou em todos os estados brasileiros e teve 25,6 milhões a mais que Haddad na eleição passada (G1). Seus 57 milhões de votos representam a maior votação que um candidato já teve em primeiro turno. O adversário ficou praticamente estagnado, com a votação que teve na eleição passada.

As pesquisas oscilaram, mas no conjunto não erraram. A votação de Lula foi dentro da margem de erro e o adversário cresceu sobretudo no Sudeste, particularmente São Paulo. Aqui na Bahia um instituto baiano já previa que Jerônimo poderia vencer no primeiro turno e ele teve 49,5% dos votos. Vai pro segundo turno. Em todo caso, acertaram muito mais que certo candidato que dizia confiar no “datapovo” e que teria 60% dos votos. Fica provado que motociata não é pesquisa para conferir possibilidades eleitorais. Se as pesquisas erraram, o “datapovo” errou muito mais.

A direita extrema cresceu no Congresso. Mas, o PT também cresceu, juntamente com seus aliados. Elegeram-se índios, negros, LGBTs, Sem Terra, Sem Teto, e uma constelação de candidatos proibidos de existirem na Terra de Santa Cruz.

Quem se assusta com o avanço da extrema-direita tem suas razões. Afinal, a ideologia difundida cada vez mais no meio do povo vem pela tubulação religiosa, neopentecostal, tanto evangélica como católica, vem dos templos. Os currais eclesiais funcionam e não adianta estudiosos acadêmicos pretenderem passar o pano para essa realidade. Esse avanço neopentecostal vai esgarçar cada vez mais o tecido social brasileiro, nos tornando sempre mais reacionários, moralistas, hipócritas, desumanos, preconceituosos, em nome de Deus, da Pátria e da Família. Os processos históricos indicam que um dia isso cansa, também se esgota, mas ainda terá muito fôlego por aqui. Porém, vamos lembrar que a maioria do povo brasileiro, sobretudo os mais pobres, disseram não a essa matilha de lobos. É uma vitória da direita? Pode ser, mas também é uma derrota, afinal, nem com dinheiro do orçamento secreto injetado na veia conseguiram reverter a derrota no primeiro turno

Lula presidente pode ajudar com suas políticas públicas, com a justiça aos mais empobrecidos, com o respeito a toda população brasileira, sobretudo àquelas que “vivem nas bordas do planeta”, como diz Ailton Krenak. Assim, pode reconquistar o imenso apoio popular que um dia já foi mais forte, mesmo com toda a adversidade do Congresso.

Não façamos política com o fígado. Alguém que esteve preso por mais de um ano nos ensinou essa lição. Hoje o sol brilha no Nordeste com muita intensidade e a temperatura ambiente está em 25º segundo o Climatempo.

*Roberto Malvezzi (Gogó) é graduado em Estudos Sociais e em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, em São Paulo. Também é graduado em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo e atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.