Perdemos a independência. Ficamos com a Morte

Perdemos a independência. Ficamos com a Morte
Foto: Mauro Pimentel - AF

Dias de sol e calor tem marcado esse final de semana, com um monte de gente aglomerada nas praias e pontos turísticos em várias cidades brasileiras. Isso já havia acontecido em outros momentos nessa pandemia, sobretudo no Nordeste e na Região Norte, apesar do alto risco de contágio e dos milhares de infectados pela COVID-19. Só que agora vemos uma prévia do que poderá ser o verão de 2021.

Na medida em que bares, restaurantes e afins foram reabertos, também presenciamos aglomerações, pessoas sem máscaras e gente que se acha acima do bem e do mal. Quem não se lembra do cidadão… Digo, engenheiro civil que era melhor que o fiscal que o abordara, poucos meses atrás?

Das festas vips clandestinas às cerimônias religiosas, do Baixo Leblon e da Vila Madalena ao Complexo da Maré e à periferia de São Paulo, passando pelo shopping de Blumenau com solo de trombone e carreatas pela volta do comércio, o fato é que a quarentena foi solenemente ignorada, sabotada e mal-ajambrada há bastante tempo. E com o apoio, ora cínico, ora descarado, de muitas autoridades.

Evidentemente, essa desobediência “anticivil” atravessa profundamente todos os segmentos da sociedade brasileira. Ricos, pobres, homens, mulheres, heteros e lgbtqia+’s, do centro e da periferia… Em todos os estratos sociais encontramos aqueles que ignoraram, negaram, escamotearam os protocolos de distanciamento social. Será que todos o fizeram pela mesma razão?

As causas provavelmente são muitas. Atribuir a um aspecto o comportamento de parcela significativa e ao mesmo tempo plural da população a uma só explicação é fazer uma análise míope.

 

Para entendermos o que está acontecendo no Brasil, talvez fosse necessária uma grande investigação multidisciplinar, que reunisse antropólogos, assistentes sociais, psicólogos e outros especialistas do comportamento. Infectologistas e médicos têm sido constantemente acionados pela grande mídia, mas parece que não são ouvidos.

Como explicar que, por mais que os especialistas façam advertências, grandes parcelas da população fazem “ouvidos de mercador” e se portam cada vem mais como se a pandemia já tivesse acabado? Somos um bando de irresponsáveis, incapazes de olhar um pouco além dos nossos próprios umbigos?

Mesmo pessoas que estão com máscaras não as usam corretamente. Estão fora de onde deveria estar: no queixo, na testa, abaixo do nariz, com uma alça solta… Tudo parece desculpa e justificativa para a máscara estar onde não deveria.

Contudo, não podemos cair na tentação de fazer uma reflexão baseada somente no comportamento individual, e atribuir tudo isso apenas a uma falta de empatia generalizada no tecido social brasileiro. É preciso pensar um pouco mais além.

Primeiro, uma parcela dos brasileiros foi impedida de viver em quarentena. As condições insalubres onde vivem, a situação de extrema pobreza e a crise econômica jogaram milhões de pessoas para as ruas.

Dá para imaginar um monte de criança confinadas em cubículos de 5 m², sem contar os adultos? A maior parte sequer tem condições de ir à praia ou a um parque, a menos que tenham ido lutar de manhã para ter o que comer em casa à noite.

Há os que foram obrigados a se meter nas aglomerações por uma questão de sobrevivência. Os desempregados ou que tiveram sua fonte de renda drasticamente reduzida pela pandemia, que todo mês se espremem em filas insalubres na porta da Caixa Econômica Federal, atrás do miserável auxílio emergencial.

A menos que morem perto das praias, eram a maioria dentre os que estão lotando as praias no Rio? Teriam condições de descer a serra para o litoral paulista? Ousariam sair das periferias para as melhores praias nordestinas? Deixariam de comprar o absurdamente caro saco de arroz para seus filhos em troca de algumas horas debaixo do sol de Ipanema?

Temos também os trabalhadores e trabalhadoras de baixa qualificação dos serviços de limpeza, manutenção ou do comércio. Muitos subempregados ou condenados à informalidade. Com baixa escolaridade, tem dificuldades em processar conteúdos simples e se informam por correntes de mensagens de aplicativo.

Essa gente explorada e injustiçada por toda a vida já está exposta no cotidiano pelo transporte público ineficiente. No Rio de Janeiro, os ônibus “sumiram”, trens e metrôs estão lotados o dia inteiro.

Em seus postos de trabalhos não receberam sequer máscaras em quantidade suficiente para suas longas jornadas. Percebem o comportamento esnobe de certa classe média e da elite que crê que sua condição econômica os torna imunes.

Foram obrigados a servir aquele chopinho gelado nos bares superlotados ou circular por cidades semidesertas nas primeiras semanas da pandemia. Se já estão expostos por causa do trabalho, por que, para os que ainda tem condições, não se expor por uns poucos e raros momentos de lazer? Afinal, os shoppings e bairros de comércio popular já estão cheios a tempos e ninguém fez nada mesmo…

Todos estes grupos estão expostos toda a semana. Veem seus bairros abandonados, sofrem com o descaso do poder público desde sempre. Para eles, a pandemia é apenas mais um trágico episódio. Provavelmente não o último de suas vidas marcadas pela desigualdade e pelo racismo. Por que pensariam no coletivo agora, já que o coletivo sempre os tratou como desdém?

Por outro lado, temos também os que se sentem acima do bem e do mal. Portanto não se sujeitam as regras de civilidade quando não as convém. Estes não podem ter suas vidas atrapalhadas pela pandemia. Em todos os episódios de desrespeito às regras de isolamento social visualizamos gente dessa laia. Irresponsáveis, inconsequentes.

Houve também aquelas parcelas do empresariado que usaram de seu poder econômico junto aos políticos para fazer valer seus interesses e reabrir a economia. Os que fizeram carreatas meses atrás pela abertura do comércio, pela volta dos templos religiosos, que viram na cloroquina a panaceia para o tratamento da Covid.

Boa parte destes ou seus filhos – a nata da juventude branca da Zona Sul – estão nas praias há tempos. Parte talvez tenha preferido lugares mais exclusivos, muito mais para não se misturar do que para fazer valer as pouco respeitadas normas sociais.

Mas certamente estão achando tudo ótimo nesse momento. Pouco perderam com a pandemia. Mortes? Para morrer basta estar vivo, dizem. E devem estar doidos para ver aquele exército de estudantes e professores de volta as escolas. Chega de criança em casa, não é mesmo?

E tivemos os que por ideologia política ou por causa de algum líder religioso, negaram os perigos do coronavírus durante todo esse tempo. Fizeram de tudo para sabotar a quarentena. Afinal, a saúde não poderia parar a economia. Esses pouco se importam com os mais de 4 milhões de pessoas oficialmente infectadas e com os mais de 125 mil que morreram por causa da doença.

Vários governantes foram os primeiros a sabotar a quarentena, a fingir descaradamente que tomavam providências. Especialistas em doenças foram silenciados por gestores públicos.

O presidente fez o que pode para evitar que medidas sérias fossem tomadas contra a propagação do vírus. O que esperar da população quando os mandatários que deveriam ser exemplos são os primeiros a negar os perigos de uma doença mortal?

Como não pensar que, se tivéssemos feito “lockdown” com a máxima restrição de circulação de pessoas (como se fez na Europa) durante os meses de Março e Abril, não poderíamos ter poupado vidas ceifadas e preciosos recursos desperdiçados? Talvez já tivéssemos retomado boa parte da atividade econômica, mas não dessa forma atabalhoada e com esse custo em vidas.

Enfim… No dia em que recordamos o famoso “Grito do Ipiranga”, talvez não tenhamos muito o que comemorar. Infelizmente o Brasil largou sua independência de lado e parece que preferiu abraçar sua própria morte.

 

*Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor. Faz parte do Movimento Nacional Fé e Política.