Fraternidade e Educação

Fraternidade e Educação

*Por Pedro A. Ribeiro de Oliveira

“O importante é entender que somos todos educadores e educadoras, seja qual for nosso espaço de atuação (…)”

Estamos em plena quaresma, e, nesse tempo de conversão, a Igreja católica, em sintonia com outras Igrejas cristãs do Brasil, promove a já tradicional Campanha da Fraternidade. Como diz o texto base deste ano, “converter-se é também sair do individualismo para viver a solidariedade”. Só assim “os exercícios espirituais próprios ao tempo da quaresma têm incidência concreta no cotidiano”. Para atingir e mudar para melhor essa realidade, a cada ano é escolhido um tema.

Neste ano, o tema relaciona Fraternidade e Educação. Não é possível resumir, no espaço de uma coluna, os 281 parágrafos da publicação da CNBB. Podemos, porém, despertar o interesse de nossos leitores e leitoras, fazendo um breve apanhado dos pontos mais inovadores desse livreto que é referência para todas as dioceses brasileiras.

O ponto de partida de um bom processo educativo é a escuta. Escutar é mais que ouvir. Escutar está na linha da comunicação, enquanto ouvir está na linha de informação. “Escutar é condição para falar com sabedoria e ensinar com amor”, como diz o lema da campanha, inspirado do livro dos Provérbios (31, 26). Foi a atual pandemia de Covid-19, com seus nefastos desdobramentos, o clamor que a Igreja nos convoca a escutar. Sem se deixar levar pelo excesso de informações – onde as falsas se misturam às verdadeiras – e sem confundir certezas e opiniões, devemos escutar o que nos diz a realidade de hoje. Retoma-se então o ensinamento do Papa, que diz ser o individualismo radical o vírus mais difícil de vencer. Porque ele ilude, colocando o sucesso pessoal acima do bem comum, o bem de todos, que é muito maior do que o somatório das partes.

A partir desse momento de escuta do real, o texto base busca as grandes linhas de ação no exemplo de Jesus que cura e perdoa, anuncia e ensina. É Ele o mestre por excelência, que sabe escutar cada pessoa que vem a Ele, mesmo quando o diálogo vem misturado a interpelações, como faz a mulher cananeia ao reclamar que também os cachorrinhos comem da mesa dos filhos de Deus (Mt 15, 22-28). Por isso a missão de seus discípulos e discípulas também é a de anunciar o Reino de Deus (evangelização) e ensinar (iniciação à vida cristã, pela catequese e a liturgia).

Enfim, seguindo o clássico método ver, julgar e agir, o texto base aponta pistas práticas para a ação. Não cabe num folheto apontar todos os caminhos educativos que podemos seguir, pois devemos discernir nosso caminho no espaço em que vivemos. O importante é entender que somos todos educadores e educadoras, seja qual for nosso espaço de atuação: família, escola, universidade, igreja, mídia, administração pública ou privada, para citar só alguns exemplos. Em todos esses espaços é nosso dever levar com credibilidade a mensagem libertadora do Evangelho, porque, como conclui o texto da CNBB, “educar é um ato de esperança no ser humano”.

A pandemia não nos pode roubar a esperança: o ser humano e toda a Terra fomos criados para a vida, e a morte não terá a última palavra. Isso é preparar a Páscoa da Ressurreição.

* Leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-Graduação em Ciência/s da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.