Fiasco bolsonarista em Aparecida

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Por Pedro A. Ribeiro de Oliveira*

A ida de Bolsonaro a Aparecida foi o momento central de sua estratégia para aumentar a votação entre eleitores católicos ainda eleitoralmente indefinidos. Refiro-me àquelas pessoas que não se deixaram convencer pela narrativa bolsonarista, mas tampouco se alinham entre os eleitores de Lula: pessoas cujo voto depende menos de convicções políticas do que de simpatia pessoal. Para esse segmento do eleitorado brasileiro, a imagem pública do candidato conta mais do que suas propostas e suas realizações. Levando em conta que para o eleitorado católico a imagem de Bolsonaro como evangélico é um fator negativo, pode-se medir a importância estratégica de sua ida a Aparecida como se fosse romeiro ou devoto de Nossa Senhora.

Um ensaio exitoso foi realizado ano passado. Embora na missa da manhã o Arcebispo de Aparecida tivesse dito que Pátria amada não pode ser Pátria armada, Bolsonaro fez uma das leituras da missa da tarde e depois proferiu a tradicional consagração a Nossa Senhora em transmissão nacional pela TV Aparecida. Esse êxito deve ter inspirado o avanço projetado para 2022.

Ao longo deste ano a campanha bolsonarista veio preparando o terreno para conquistar os votos de católicos indefinidos. Tendo consolidado sua base eleitoral no campo evangélico, o grupo bolsonarista voltou-se para o campo católico. Tendo o apoio de grupos que até hoje rejeitam as diretrizes do Concílio Ecumênico do Vaticano II – como o Centro Dom Bosco, do Rio de Janeiro – foi-se criando um clima de medo: igrejas atacadas e imagens destruídas em países vizinhos, ameaça de Lula liberar o aborto e as drogas e acenos ao antigo fantasma do comunismo. A ofensiva final foi a divulgação de vídeos onde padres e bispos explicitam o apoio a quem pode nos livrar daquelas ameaças. Assim foi criado o clima de medo para que muitos fiéis católicos “dobrassem os joelhos” e pedissem a Deus a vitória de Bolsonaro. Mas estes já eram bolsonarista por rejeição a Lula. Era preciso buscar os votos dos outros católicos.

O alvo era Aparecida. Ali seria compensado o fracasso da participação de Bolsonaro no Círio de Nazaré, onde a firme atitude do Arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira, impediu que ele tocasse a imagem de Nossa Senhora.
Usando a metáfora militar, Aparecida seria o campo de batalha onde Bolsonaro conquistaria muitos eleitores católicos ao rezar o terço pela salvação do Brasil. Para essa estratégia eleitoral, o Santuário de N. Sra. Aparecida oferecia o cenário ideal: a multidão de romeiros vindos em grupos familiares, a grande cobertura midiática, especialmente da TV Aparecida, e o fato inusitado de um Presidente da República rezar o Terço em praça pública. Completava essa estratégia a iniciativa de padres de diferentes regiões chamarem os fiéis para rezar o terço no mesmo horário do evento em Aparecida, conferindo assim dimensão nacional àquele evento político-religioso. Agora o candidato tinha tudo para sair da bolha e atingir a multidão de católicos que suas redes virtuais não alcançam.

Inesperadamente, veio a público a Nota de Esclarecimento assinada por Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida, afirmando que Bolsonaro seria acolhido com Presidente da República mas não lhe seria atribuído qualquer papel nas celebrações. Mais importante: dizia que o Terço programado pelo grupo não consta da programação do Santuário Nacional e “tampouco tem anuência do Arcebispo de Aparecida”. Ao esclarecer que a proposta do Terço das 15 horas era uma iniciativa sem aprovação da autoridade eclesiástica, alheio à tradição da Festa, D. Orlando deixou-o no limite da ilegalidade.

O resultado foi o fiasco da estratégia eleitoral bolsonarista. Quase cortado das lentes da TV e alvo de vaias quando os apoiadores o saudaram no interior do Santuário, Bolsonaro foi uma figura apagada durante a celebração da missa. Saiu então para a reza do Terço na praça em frente ao antigo Santuário, desconsiderando que ali também havia uma celebração religiosa que, para seu azar, levava o apoio da Igreja ao movimento contra o trabalho infantil tolerado pelo atual governo. Ao terminar essa celebração, também transmitida pela TV Aparecida para todo o Brasil, o celebrante elogiou os participantes dizendo que são eles os verdadeiros devotos de N. Sra. Aparecida, e não os que estavam do lado de fora em busca de votos.

Resultado: a menos que aconteça algo muito inusitado, os votos de eleitores católicos em Bolsonaro tendem a diminuir depois desse dia de fiasco. Será o presente que a Mãe Aparecida, Padroeira do Brasil, dá a seus filhos e filhas.

*Leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-graduação em Ciência/s da Religião da UFJF e PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.