Esperançar

Esperançar
foto:midianinja

Há um ano, 3 de março de 2020, saí de Porto Alegre para uma temporada de descanso em Florianópolis. Na volta, dia 12, passei por Passo Fundo para um Encontro da Educação Popular em Saúde, dia 14 rápida chegada na Capital para a Assembleia geral do CAMP, Centro de Assessoria Multiprofissional. No mesmo dia 14, me desloquei para o baile anual do meu bloco de carnaval ‘IMMA KNILL, Sempre Bêbado’, em Santa Emília, interior de Venâncio Aires, RS, minha terra natal. Tudo sem máscara, muita gente brincando com minhas preocupações, supostamente infundadas.

Não saí mais de Santa Emília, a não ser em curtas temporadas durante o processo eleitoral municipal, entre outras poucas situações que exigiam presença física. Militância e responsabilidades políticas assumidas ao longo do tempo aconteceram via redes sociais, lives, como, aliás, todo mundo vem fazendo, também na vida pessoal. A máscara passou a fazer parte do cotidiano.

Estas duas últimas semanas, no entanto, foram as mais difíceis de todo este já longo período de hibernação. A pandemia tomou conta de tudo: notícias todos os dias de quem foi internado no hospital e luta pela sobrevivência, crescente falta de leitos de UTI e de respiradores, mortes em número acelerado de gente próxima ou conhecida. Tristeza, muita tristeza, quase só tristeza e dor.

E como diz um ditado popular que ‘a desgraça nunca vem sozinha’, o filho da cuidadora de mamãe sofreu grave acidente. Em consequência, ela não está vindo trabalhar há mais de duas semanas. Fui obrigado a assumir novas tarefas em casa de mamãe, onde estou acampado: fazer companhia à mamãe que fica quase o dia inteiro na cama, falar bastante alemão com ela, ajudar no que for preciso no seu cuidado, enquanto os irmãos mais novos trabalham na roça e fazem a Feira do Produtor, quartas e sábados.

Lícia Wagner Hickmann Heck, 94 anos

Esperançar como, neste contexto, no ano do centenário de Paulo Freire?

Em primeiro lugar, ver e admirar a resistência de mamãe, que, aos 94 anos, embora muito fragilizada, quer viver, toma os remédios necessários sem reclamar, quer saber dos filhos e netos, toma seu chimarrão de noite, e dá um alento de vida e sabedoria.

Em segundo, ver tanta gente lutando bravamente pela vida, com mil dificuldades, esperando em fila na frente de postos de saúde e hospitais, cuidando dos seus amores, resistindo.

Em terceiro, saber de médicas, médicos, enfermeiras, enfermeiros, atendentes de enfermagem, tantas e tantos diretamente envolvidos na atenção à saúde, ouvir mil histórias de generosidade e doação de trabalhadoras-es nos hospitais, motoristas de ambulâncias, todas e todos ajudando o tempo todo, o dia inteiro, doando suas vidas para que muitas e muitos, milhares, milhões tenham mais vida, e vida em abundância, dando alento a quem muito precisa na hora da fragilidade e do sofrimento, muitas vezes apesar da inação, incompetência e ausência dos governos.

Nas ‘PRIMEIRAS PALAVRAS’ do seu Pedagogia da Esperança (Ed. Paz e Terra, 2020), Paulo Freire conta que um professor universitário amigo seu indagou, espantado: “Mas como, Paulo, uma Pedagogia da Esperança no bojo de uma tal sem-vergonhice como a que nos asfixia hoje, no Brasil?”

Responde Paulo Freire: “A esperança é necessidade ontológica; a desesperança, esperança que, perdendo o endereço, se torna distorção da necessidade ontológica. Como programa, a desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir no fatalismo em que não é possível juntar as forças indispensáveis ao embate recriador do mundo. Não sou esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico. Minha esperança é necessária, mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueza e titubeia. Precisamos da esperança crítica, como o peixe necessita da água despoluída. Enquanto necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã.”

Paulo Freire escreve o livro Pedagogia da Esperança em setembro de 1992, mas parece estar escrevendo em março de 2021, ano do seu centenário de nascimento. Diz: “Nas situações-limite, mais além das quais se acha o ‘inédito viável’, às vezes perceptível, às vezes não, se encontram razões de ser para ambas as posições: a esperançosa e a desesperançosa. Uma das tarefas do educador ou educadora progressista, através da análise política, séria e correta, é desvelar as possibilidades, não importam os obstáculos, para a esperança, sem a qual pouco podemos fazer porque dificilmente lutamos, e quando lutamos, enquanto desesperançados ou desesperados, a nossa é uma luta suicida, é um corpo a corpo puramente vingativo.”

Não é fácil, mas é o desafio histórico nestes tempos quase desesperadores: ESPERANÇAR.

O Papa Francisco, na Encíclica ‘FRATELLI TUTTI – Todas Irmãs e todos Irmãos’, escreve profeticamente: “Convido à esperança que nos fala duma realidade que está enraizada no mais fundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive. A esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna. Caminhemos na esperança!”

Mais que nunca, em 2021, gritar, exigir, na mobilização social e na boa luta: Vacina já para todas e todos! Auxílio emergencial e emprego já! Fora Bolsonaro Já! Lockdown já! E desobediência civil, quando possível e necessário.

Todo mundo convidado, senão convocado: dia 24 de março, quarta-feira, Dia Nacional de Paralisação. Dia 28 de março, domingo, junto com a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021, Dia Nacional da Coleta da Solidariedade.

Não esperar acontecer. Fazer acontecer o inédito viável. ESPERANÇAR. Freireanamente.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko