Esperançar não é receita de autoajuda

Esperançar não é receita de autoajuda

Partilho com as leitoras e leitores deste site quatro textos de grande atualidade que recebi por fazer parte de um grupo de estudos. Eles partem de uma reflexão amarga sobre a estupidez de nosso tempo e terminam com a reafirmação da Esperança. Com a autorização dos autores – Roberto Malvezzi e Mauricio Abdalla, nossos companheiros no Movimento Fé e Política – publicamos seus escritos convidando quem nos lê a saboreá-los como alimento para a nossa espiritualidade político-libertadora.

Pedro Ribeiro de Oliveira – Membro da Coordenação Executiva do Movimento Nacional Fé e Política 

 

O Brasil não tem salvação: é muita estupidez e pouca inteligência

Roberto Malvezzi (Gogó)

O que era uma piada do Papa Francisco, agora virou profecia. Não pela cachaça, nem pela pouca oração, mas pelo tamanho da estupidez que tomou conta do Brasil.

O relatório do IPCC nos diz que já estamos mergulhados nas mudanças climáticas: secas, enchentes, ondas de calor, ondas de frio, furacões, tempestades, com o consequente impacto nas comunidades e países mais pobres e vulneráveis, com aumento de doenças, fome, sede e miséria. O que antes era esperado para o fim do século, depois para a metade do século, agora já se confirma e deve chegar ao ápice já em 2030.

O `Pantanal já perdeu 75% de suas águas desde 1985. Uma grande vitória do agronegócio brasileiro, com sua soja, seu milho, seu gado e todas as suas monoculturas.

No geral o Brasil perdeu 15% de suas águas doces em 30 anos. Vitória complementar dos devastadores da Amazônia e do Cerrado. A Mata Atlântica já tinha sido destruída. E Caatinga vai sendo destruída a conta gotas, assim como cada gota de chuva que cai sobre nós.

O desmatamento da Amazônia cresceu 51% em relação ao mesmo período anterior. Portanto, a política de devastação de Bolsonaro/Sales vai atingindo plenamente a sua meta, mas o processo já vinha desde a década de 70 do século passado com a ocupação da Amazônia nos padrões de desenvolvimento do Regime Civil-Militar.

Um deserto do tamanho da Inglaterra avança sobre o Semiárido Brasileiro. Resultado do desmatamento para a agricultura e pecuária extensivas. Cerca de 13% do território do Semiárido já estaria desertificado e a perspectiva é de ampliação desse processo de extinção da vida, segundo o mesmo IPCC (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-58263344).

A maior seca dos últimos 91 anos se abate sobre a região Sudeste e os sulistas e sudestinos insistem em levar seu modelo de desenvolvimento para a Amazônia, para o Pantanal, para o Cerrado e para o Oeste Baiano.

Um Senhor de cabeça branca, vice-governador da Bahia, em um vídeo exalta uma empresa no Oeste Baiano por “suprimir a vegetação de 25 mil hectares” e implantar um projeto de irrigação no município de Barra, onde estão os Brejos, verdadeiros “oásis” em território brasileiro.

Hoje se fala em múltiplas inteligências, inclusive a emocional. Olhe para o presidente da República e dê uma nota de zero a dez para sua inteligência emocional, sem falar na capacidade de raciocínio.

Para completar, cinco ex-presidentes vão perguntar aos generais se eles estão querendo dar um golpe ditatorial no Brasil. É o avesso do avesso, do avesso, do avesso.

Parafraseando o Papa Francisco, o Brasil não tem salvação, é muita estupidez e pouca inteligência.

 

Resposta de Maurício Abdalla

Gogó, está mesmo difícil ver alguma luz para o Brasil. Só indo além da razão. O que tenho a apresentar como resposta é um artigo meu que saiu no IHU em setembro do ano passado. Copio aqui.

“Esperar” é aguardar algo de que se tem certeza ou forte crença que virá.

“Esperança” é a atitude subjetiva de crer além do que está dado pela configuração do presente. É esperar além das certezas e teimar em superar as inclinações mais pessimistas.

Esperar em tempos favoráveis não é ter esperança. A esperança só floresce e se mostra em tempos de adversidade.

É ela que nos torna humanos. Foi por causa da atitude humana da esperança que o mundo e sua materialidade jamais eternizaram seus decretos de impossibilidade. Tudo que apareceu como impossível foi superado pela esperança.

A esperança cria a utopia e nenhum projeto humano que transformou o mundo foi possível sem utopia. Dos primórdios da epopeia do Homo sapiens aos nossos dias, tudo foi obra da teimosia do ser humano em não se contentar apenas em esperar o que já estava disposto, mas ter a postura ativa da esperança no ainda-não.

A esperança é a única atitude que distingue, na essência, o(a) verdadeiro(a) revolucionário(a). Não é a indignação, não é a vontade imediata de lutar, não é a atitude de denúncia e a revolta. Embora importantes, tais posturas podem ser compartilhadas também por quem não é revolucionário. A esperança, não.

Só cultiva a esperança em tempos sombrios os(as) que estão realmente dispostos a transformar o mundo de forma radical. Ter esperança é ter a arma mais poderosa na luta contra a tirania e a opressão.

Não foi por acaso que Dante, na descrição da entrada do Inferno, imaginou uma placa na porta com os dizeres “Deixai toda esperança, vós que entrais”.

Os inimigos querem tirá-la de nós. Pois assim nos tiram a vida e toda força que temos para derrotá-los. Deixar de ter esperança é deixar-se vencer pelo inimigo, entregar os pontos, aceitar a derrota sem nenhuma perspectiva de resistência.

Mesmo que não possamos mudar as coisas de forma imediata, mesmo que nos tirem tudo que nos resta, mesmo que vençam diversas batalhas, a esperança é algo cuja existência só depende de nós. Só a levam se a entregarmos – mesmo quando tentamos culpá-los por isso. Ter esperança é fruto de nossa liberdade, de nosso arbítrio, não do deles.

Por isso, manter a esperança é a mais sublime atitude revolucionária. É o último bastião de luta que impede que a guerra seja vencida por completo. Se abrirmos mão dela, mesmo que vejamos motivos para tanto, renunciamos à própria vida.

E, assim, Virgílio disse a Dante: “Não tenhas medo, mas não sejas fraco! Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei, onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam seu livre poder de arbítrio. Não temas, pois tu não és uma delas, tu ainda vives.”

E nós, ainda vivemos?

 

Réplica do Gogó

Maurício,

Grato pela reação. Li seu texto. Então, é esse esforço de compreender que chamo de “amadurecer” o que entendemos por esperança. Muitas vezes o pessoal nos pede uma palavra de esperança, mas passa a impressão que querem um “evangelho de autoajuda”, uma fantasia que ajude levantar os ânimos de quem está oprimido pelo peso da realidade.

Uma vez eu falava com Casaldáliga sobre essas questões das Mudanças Climáticas. Foi uma assembleia da CPT lá pelos anos 2000. Tínhamos falado na plenária e ele quis compreender melhor pelos corredores. Ele ouviu um tempão, depois reagiu: “não, não é assim. A humanidade tem o DNA de Deus e não é suicida”. Fiquei marcado por essa frase dele.

Entretanto, os números atuais do Pantanal, com a perda de 75% de suas águas, da perda de 15% das águas do Brasil (o Brasil está secando, diz a mídia), do desmatamento, da desertificação etc., nos obrigam a olhar essa realidade “sem dourar a pílula”. Como não sou bolsonarista, confio na ciência, a não ser que outros cientistas consigam desdizer esses números e apresentar outra realidade. Mas, não são apenas números, são fatos diante dos olhos também.

A desertificação aqui no Semiárido é debatida há muito tempo. Segundo os biólogos, ela se comprova pela eliminação de toda a microbiótica do solo. Se chover em cima e não brotar mais nada, a vida foi extinta. Um deles afirmou que mediram a temperatura do solo de uma área dessas em Alagoas e ela estavam em 48º. O calor extingue a vida. Nós aqui temos experiências de recaatingamento, recuperação de áreas degradadas, mas quando desertifica, nem os biólogos sabem o que fazer.

Enfim, para mim a verdadeira esperança histórica não é só subjetiva, ela tem que apresentar dados objetivos, como a reversão do desmatamento, a mudança no modelo econômico, outro tipo de energia, de transporte público etc. Sem qualquer dado nessa direção, não há como “esperançar”, porque todos os fatos indicam na direção contrária. A “esperança teológica”, “os pobres possuirão a Terra”, dessa não duvido, porque Deus também está além de todo fracasso histórico do ser humano. Só não sei como a esperança histórica se coaduna com a teológica.

Não acho que o capitalismo seja capaz de extinguir a vida. A humanidade morre antes. Mas aquela perspectiva de um planeta mais pobre, mais hostil, com menos gente, parece ser o futuro.

No Brasil, já sabemos, sem Amazônia e Cerrado grande parte do território brasileiro será impossível de se viver.

Mas, como diz Francisco na Fratelli Tutti, precisamos trabalhar como “artesãos e como arquitetos”. O que for possível ir fazendo no cotidiano, vamos fazendo. O que for possível ir fazendo no nível intermediário e macro, vamos fazendo.

Hoje acompanho a luta descomunal dos povos indígenas.

Grande abraço

Grato mais uma vez.

Gogó

 

Réplica do Maurício

O que o cansaço me permite hoje comentar, de forma breve, embora Gogó sempre mereça maior empenho em nossa argumentação, é que eu penso que os dados objetivos são resultados da ação subjetiva de esperançar (com aquela esperança profunda, verdadeiramente revolucionária) mesmo quando a objetividade nos força ao contrário. Já o vislumbre de alternativa possível, ou de realização do que se espera é que precisa dos sinais objetivos.

Simeão tinha esperança na restauração do Reino de Israel, mesmo sob o domínio cruel de Roma e da ausência de alternativas na organização local da Judeia. Sua esperança não começou quando viu o menino Jesus, mas sim o vislumbre de que a esperança apontava para algo possível.

Escrevi hoje para uma pessoa dizendo que estou sem esperança no micro e no imediato, mas ainda com esperança no macro e no histórico.

Abraços esgotados, mas com esperança, apesar de tudo.

Mauricio