Campanha da Fraternidade: desafio às Igrejas

Campanha da Fraternidade: desafio às Igrejas

Nesta semana iniciou-se o tempo da quaresma. Por séculos este era o tempo das penitências que nos preparavam para celebrar a Páscoa da Ressurreição. Desde 1964, porém, motivada pelo sopro renovador do Concílio Ecumênico do Vaticano II, a Igreja Católica inaugurou uma nova forma de celebrar a quaresma: a Campanha da Fraternidade (CF). Em vez de penitência, solidariedade com quem sofre, como insistiu Jesus no evangelho de Mateus: “quero misericórdia, e não sacrifícios” (9, 13; 12, 7). Na virada do milênio a CF foi assumida por outras Igrejas cristãs, e a cada cinco anos ela é preparada sob a responsabilidade do Conselho de Igrejas Cristãs do Brasil. Neste ano ela nos convida a vivenciar mais fortemente o Ecumenismo.

O Ecumenismo como movimento organizado nasceu há pouco mais de um século, reunindo Igrejas oriundas da Reforma. A Igreja romana só aderiu a ele em 1960, sob o impulso do Papa João XXIII, que entendeu que a missão evangelizadora é tão grande e complexa que não cabe em nenhuma Igreja isolada, por maior que ela seja. Desde então os católicos somos desafiados a superar a afirmação medieval que dizia “fora da Igreja não há Salvação”, e entender que cada Igreja cristã é chamada a desempenhar seu papel em favor da Paz que Cristo veio trazer para toda a Humanidade. Por isso, afirma o Papa Francisco: “É, pois, motivo de esperança, o fato de que este ano, pela quinta vez, a Campanha da Fraternidade seja realizada com as Igrejas que fazem parte do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil.”

A CF ecumênica deste ano tem por tema “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade”. Seu texto-base segue o método ver – julgar – agir e tem como eixo o tema da Paz. Para motivar o leitor ou leitora a ler o texto-base (Edições CNBB, 2020), reproduzimos aqui a ideia central do “julgar”, baseado na Epístola de Paulo à comunidade de Éfeso, de onde foi extraído o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (2,14 a).

A paz de Cristo nada tinha a ver com a paz do império romano. Para César, importante é que não houvesse revoltas nem contestação a seu domínio, de modo que a tranquilidade favorecesse o comércio e a economia prosperasse, pouco importando a escravidão, a dominação dos povos subjugados, nem a opressão sofrida pelas mulheres. Para César até mesmo a religião era de menor importância: desde que fosse oferecido o sacrifício ao imperador, cada povo podia praticar sua própria religião.

Bem outra era – e é! – a paz oferecida por Jesus Cristo. Ela é incompatível com a injustiça social e a desigualdade entre as pessoas. Quem aceita Jesus como Senhor é chamado a formar uma comunidade de iguais onde cada pessoa deve ser respeitada em sua individualidade própria, sem sofrer discriminação. Unidade, para o Apóstolo dos gentios, não é o mesmo que uniformidade, mas uma única comunidade onde convivem pessoas diferentes.

Evidentemente, a aplicação dessa mensagem fundante do Evangelho na atualidade do Brasil é um enorme desafio para as Igrejas fiéis a Cristo. Elas têm que enfrentar os Césares de hoje, para quem mais vale a tranquilidade dos negócios e o funcionamento da economia do que a vida humana. Mas esta é nossa missão. Que este tempo de Quaresma e a celebração da Páscoa, iluminados pela CF Ecumênica, reforcem nosso compromisso em favor da vida humana e da vida da Terra pela certeza da vitória de Jesus crucificado e ressuscitado. Que seja um tempo de tecer laços com nossos irmãos e irmãs de outras Igrejas, em favor da Paz do Cristo que derruba os muros da intolerância, da discriminação e da opressão.

Juiz de Fora, 17/ fev. 21