Bênçãos ou votos?

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Por Eduardo Crochet*

O Estado brasileiro é laico e por isso não existe uma religião que seja oficial do Estado! E a Constituição Federal, em seu artigo 5º inciso VI, assegura o “livre exercício dos cultos religiosos” e garante “a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. Jesus talvez tenha sido o primeiro a defender laicidade como princípio, quando disse “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!”

No entanto, a dimensão da fé não está cingida da dimensão política da vida das pessoas. Sendo a política a administração do que é de todos na busca do bem comum, toda fé que busque realizar historicamente a paz na Terra é essencialmente política.

Infelizmente, o que temos assistido no País é uma instrumentalização da fé com fins eleitorais e não o da boa política, a serviço do bem comum. Soma-se a isso a perversão das liberdades individuais pelo discurso e a prática do ódio e da intolerância. Sempre disfarçados atrás da defesa da “moral”, “dos bons costumes” e “da verdadeira religião”, até da defesa de Deus se arvoram!

Em seu twiter, o Papa Francisco afirmou que “Deus não precisa ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas” e pediu “a todos que parem de instrumentalizar as religiões para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego.”

As religiões de matriz africana sempre sofreram perseguição do racismo religioso e nunca tiveram de fato seus “locais de culto e liturgias” defendidos. Isso já deveria ser ultrajante o bastante para os brasileiros, que em sua maioria são cristãos mas não fundamentalistas. Também deveria ser ultrajante o altar de igrejas evangélicas se tornarem palanques com perseguição aos fiéis dissidentes e a demonização de um campo político por meio de mentiras escabrosas.

Porém, chocou-nos mais a profanação das duas maiores celebrações católicas do país nos últimos dias: o Círio de Nazaré e a Celebração de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil!

Não foi a presença em si do atual chefe de Estado, que também é candidato, mas o modo desrespeitoso e ofensivo como isso se deu, motivando notas de repúdio de diversos setores da sociedade, como órgãos representativos da imprensa atacada, além de diversos religiosos e pessoas públicas. Nunca algo parecido tinha acontecido.

Pessoas que para a Aparecida se dirigiram, incitados em transformar as celebrações em atos de campanha, além de cometerem atos de violência e tumulto, com expressões de ódio e intolerância, chegaram a vaiar o celebrante quando ele falou da volta da fome no país, ou seja, desordeiros e regressistas continuam a perverter próprio lema da bandeira que usurparam do país. Felizes o que ali estavam para pedir bênçãos e não disputar votos!

Cada vez está mais claro que está em disputa não apenas a eleição para o cargo de mandatário e seu projeto político para o país, mas também o tipo pessoa e de povo somos e queremos ser!

O cristão deve se pautar pela mensagem de Amor, de Paz e Justiça que Jesus anunciou e pela qual foi morto. Pedro negou Jesus por três vezes antes do cantar do galo. A pergunta que se deve fazer é: antes que termine esse período eleitoral, quantas vezes os cristãos terão negado que conhecem Jesus?

*Movimento de Trabalhadores Cristãos Juiz de Fora.

Foto: Site Jornal Brasil de Fato