A triste realidade da fome apresentada pela Rede PENSSAN

A triste realidade da fome apresentada pela Rede PENSSAN

Por Terezinha Baldassini Cravo*

No dia 8 de junho de 2022, acordamos com os jornais divulgando a triste realidade da Fome no Brasil e seu assustador crescimento. O que já era visível para muitos foi revelado com detalhes pelo 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, apresentado à sociedade, pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN).

Cabe aqui falar da seriedade desse grupo que congrega pesquisadores, estudantes e profissionais de todo o país na forma de uma rede de pesquisa e intercâmbio independente e autônoma em relação a governos, partidos políticos e interesses privados. Entre seus objetivos, destaca-se o exercício de uma pesquisa cidadã, comprometida com a superação da Fome e a promoção da soberania e segurança alimentar e nutricional.

A pesquisa parte do dado geral que 33,1 milhões de pessoas no Brasil não tem o que comer. Em um ano, a fome atingiu 14 milhões de novas pessoas, em relação ao primeiro relatório da Rede Penssan, realizado em 2020. Fazendo um paralelo da evolução desse crescimento a partir dos dados do PNAD, em 2004 eram 9,5% da população com insegurança alimentar grave (fome), em 2009 6,6%, em 2013 4,2%, 2018 5,8%, 2020 9%, 2021/22 15,5%. Levamos cerca de mais de duas décadas para que o Brasil quase superasse essa triste situação e, em apenas cinco anos, voltamos drasticamente para o mapa da fome.

Vale lembrar que quando falamos em 20 anos de luta contra a fome (décadas de 80 e 90), período em que os números da Fome e Sede já eram alarmantes, os primeiros esforços para alterar essa realidade vieram de setores da sociedade civil organizada, seja pelo reconhecido trabalho da igreja por meio da pastoral da criança, enfrentando a grave situação da desnutrição, seja pelo grande movimento em prol da cidadania puxado pelo Betinho e pelos movimentos alertando para a escassez da Água e depredação da natureza. Somente a partir de 2000, começamos a ver políticas de governo mais concretas para enfrentar o problema da fome e da seca no Brasil. Em 2013, chegamos a sair do mapa da fome pelas políticas públicas integradas implementadas no governo Lula.

Precisamos, à luz dessa pesquisa, nos perguntar o que levou o país a esse retrocesso imenso? A continuidade do desmonte das políticas públicas, a piora na crise econômica gerando desemprego, o aumento das desigualdades sociais e o segundo ano de pandemia são fortes fatores que mantiveram mais da metade, 58% da população brasileira, em insegurança alimentar, nos mais variados níveis de gravidade (insegurança alimentar moderada, leve e grave), ou seja, 125,2 milhões de brasileiros já passaram por algum grau de insegurança alimentar. Um aumento de 7,2% desde 2020. Apenas 4 entre 10 famílias conseguem acesso pleno a alimentação. De 2004 a 2013 eram 4,2% que ainda passavam fome e agora chegamos a 15,5%.

A sociedade já vem respondendo pelas mais diversas ações de solidariedade em nosso país, principalmente nas regiões em que o problema é mais grave como nas periferias das grandes cidades e na região norte e nordeste. Aqui a pesquisa constata 71,6% e 68% respectivamente, índices bem maiores do que a média nacional 58,7%. A fome e a Sede fazem parte do dia a dia de 25,7% das famílias na região Norte e de 21% no Nordeste.

Recentemente foi criada a Frente Nacional de Combate à Fome e Sede constituída por mais de 20 instituições e movimentos, do qual o Movimento Nacional Fé e Política- MNFP é parceiro para contribuir com a mudança dessa realidade. A Frente tem como objetivo enfrentar a fome em suas perspectivas estrutural e emergencial a partir da educação, da formação, mobilização e organização popular para uma agenda de convergência coletiva de ações diretas e de incidência política, frente à insegurança alimentar.

É constituída por um comitê gestor de papel dirigente formado por representantes das organizações membro, por plenária nacional e grupos de trabalho (de comunicação, de formação, de articulação territorial e de incidência política). Como ação mais concreta lançará a campanha #VOTOCONTRAAFOME e, assim, incidirá no centro do debate eleitoral com a pauta da Fome e orientando na formação dos comitês populares contra a fome em todo o país.

Para isso é preciso construir uma forte unidade da sociedade civil organizada, para se integrar a essas ações nos territórios, participando das campanhas imediatas, mas também provocando a formação de comitês Contra a Fome e a Sede, dialogando com os futuros candidatos a se comprometerem com a agenda do enfrentamento real à fome e organizando esse segmento da sociedade para serem protagonistas da sua cidadania plena.

O caminho para o fim da fome já começa quando vemos boa parte da sociedade envolvida com as ações de solidariedade para que de imediato seja garantido o alimento; mas essa ajuda é apenas o começo de um compromisso que precisa ser mais duradouro com a vida dos pobres. Por isso, a importância de comprometer a sociedade discutindo alternativas que resgatem a dignidade dessas pessoas que encontram-se sem trabalho e renda, muitas ainda sem moradia. São pessoas humildes e gratas pelo alimento que recebem, mas que continuam vivendo em condições indignas, numa sociedade que poderia garantir melhores condições de vida para essas pessoas.

Se a pobreza é fruto de uma construção social injusta, que precisa ser enfrentada por toda a sociedade organizada, nós do Movimento Nacional Fé e Política – MNFP participando da Frente Nacional Contra a Fome e Sede nos propomos a ajudar nessa construção social, com a firme determinação de acabar com a fome, num tempo histórico que considerarmos possível e sem interrupção. Neste sentido, a pesquisa da rede Penssan será de grande relevância para o enfrentamento dessa realidade, que tornou-se ainda mais grave neste ano.

Conheça a os dados da pesquisa! Acesse o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil em: https://olheparaafome.com.br/

*Mestra em Educação, Pedagoga aposentada, integrante da Executiva do MNFP, da coordenação da Campanha Contra a Fome e pela Inclusão Social Paz e Pão da Arquidiocese de Vitória e representante do MNFP no Comitê Gestor da Frente Nacional Contra a Fome e Sede.

Foto: Brasil de Fato