A Igreja do Brasil entre ataques e frissuras

A Igreja do Brasil entre ataques e frissuras

Ás vésperas da Quaresma, fomos surpreendidos por ataques contra a Campanha da Fraternidade deste ano. Um grupo ultraconservador acusa o texto-base deste ano de ser contrário à doutrina da Igreja. Mais do que as acusações contra a fé, propõem um boicote à coleta realizada nas missas do Domingo de Ramos, destinadas às ações concretas impulsionadas por essa bela ação da Igreja do Brasil.

Propor coisas disparatadas com grande dose de intolerância não tem sido novidade na Igreja Católica no Brasil, infelizmente. E não é a primeira vez que essa gente polemiza publicamente.

Em 2019, esse mesmo grupo esteve envolvido em uma confusão dentro de uma igreja no Rio de Janeiro, por causa da realização de uma missa no dia Nacional da Consciência Negra. Houve agressões e a polícia precisou ser chamada para acalmar os ânimos.

Não é de hoje que ataques perpetrados por essas associações acontecem. Teólogos renomados, a CNBB e até o Papa Francisco as vezes são alvos do que mais parece ódio a quem é diferente do que zelo com a Igreja.

Trata-se de fato muito grave. Não pelo barulho ou pelas polêmicas que provocam. Mas pelos efeitos decorrentes de tamanha ousadia, do ponto de vista eclesial.

Após os ataques na internet contra o Texto-Base da Campanha da Fraternidade, vieram a público dois comunicados de bispos com posições próximas as dos detratores da campanha. Um dos textos foi uma carta endereçada por e-mail à CNBB, com cópia à Nunciatura Apostólica. Em meio a tanta polêmica, porque uma carta datada do começo do mês foi tornada pública apenas após os ataques?

Um arcebispo aderiu na íntegra a proposta de boicote à CF – 2021, o titular da arquidiocese militar do Brasil. No documento que circula nas redes digitais, ele afirma que o texto-base não será usado e que a coleta do Domingo de Ramos não será destinada à campanha desse ano, embora prometa destiná-la aos pobres.

Algo do gênero é inédito na história da Igreja do Brasil. Não dá nem para comparar com episódios anteriores de recusa à Campanha da Fraternidade, como o que ocorreu em 1988.

Naquele ano, o então arcebispo do Rio de Janeiro não permitiu que os materiais da CF daquele ano fossem usados nas paróquias e comunidades católicas da Cidade Maravilhosa. Dom Eugênio Sales criou uma campanha da fraternidade “alternativa” a da CNBB, que havia escolhido o lema Ouvi o clamor do meu povo.

No centenário da Abolição, a CNBB viu na CF uma bela oportunidades de discutir as mazelas do racismo na Igreja, e indicar opções pastorais que revertessem esse grave pecado social. O cardeal do Rio de Janeiro naquela época não gostou da ideia. Mandou fazer um novo texto-base e alterou o lema da CF na arquidiocese para Muitas raças, um só povo.

Apesar de tudo, a coleta do Domingo de Ramos naquela oportunidade foi direcionada a seu destino, como de praxe. Isso torna o gesto do arcebispo militar mais sério ainda.

De maneira mais atenuada, o arcebispo de Juiz de Fora emitiu uma nota declarando não concordar com o Texto-Base, assumindo em linhas gerais as críticas de fundo doutrinário dos grupos ultraconservadores. E não mencionou o que pretende fazer com a coleta do Domingo de Ramos.

Diante dos fatos, que consequências podemos ter não apenas para a Igreja Católica, mas para a caminhada ecumênica dos cristãos no Brasil? O que está acontecendo nesse ano pode significar na prática o próprio cancelamento da Campanha da Fraternidade, ou a sua total desfiguração.

Abre-se um precedente perigoso, porque todo ano pode aparecer um bispo diocesano descontente com o texto-base ou com o tema, e resolver cancelar diretamente a Campanha da Fraternidade. E em nome da “unidade”, pode-se suprimir um gesto tão bonito, verdadeiro serviço que a Igreja oferece ao Brasil.

Para o catolicismo brasileiro, trata-se de colocar em cheque a colegialidade episcopal e o próprio sentido de ser da conferência dos bispos. Não porque isso seja uma terrível novidade.  A CF é sistematicamente “empurrada com a barriga” em várias partes do país não é de hoje.

Mas, fora o episódio de 1988, havia um silenciamento informal. Nunca tivemos desaprovação formal, com cartas ou comunicados, mas ela era “deixada de lado”.

Os que negligenciam a Campanha da Fraternidade hoje são os mesmos que fazem “corpo mole” para as reformas da Igreja propostas pelo Papa Francisco? Esse esvaziamento causa estranheza para quem cresceu ouvindo que toda CF tinha seu momento forte na quaresma, mas que durava o ano todo, servindo de bússola para os trabalhos pastorais.

Podemos ver uma indicação disso levantando os valores arrecadados pelas dioceses no Domingo de Ramos, ao longo do tempo. Será que um olhar atento encontraria muitas disparidades?

Apesar das inúmeras reações de apoio a CF-2021 da parte de vários bispos brasileiros, a ótima manifestação de Dom Walmor Azevedo, presidente da CNBB, os eventos desse ano podem comprometer o futuro da Campanha da Fraternidade, pelo menos em sua forma atual.  Não é de hoje que jovens padres saem do seminário afirmando que a CF é “uma coisa meio política, lá da CNBB”, e que pouco se importam com sua realização efetiva.

A eclesialidade da Igreja no Brasil sai, no mínimo arranhada desse episódio, não por causa dos ataques em si, mas pela forma como tais injúrias ressoam nas falas de algumas autoridades eclesiásticas. O que acontecia nas entrelinhas poderá se tornar algo acintoso no futuro.

Também sofre um abalo o ecumenismo no Brasil. Muitos bispos defenderam – e bem – a Campanha da Fraternidade, mas poucos saíram em defesa de nossos irmãos e irmãs do CONIC, corresponsáveis pela campanha desse ano. Isso é muito sério e nos leva a pensar se vamos ter ou quando teremos outra Campanha da Fraternidade Ecumênica…

Esses ataques também mostram a capacidade destrutiva de segmentos do fundamentalismo católico no Brasil. E pode ser revelador do quanto ideias extremistas estão disseminadas nas comunidades e paróquias católicas. Precisamos saber o quanto essas ideias têm aceitação junto à nossa “gente de igreja”.

Se não podemos avaliar ainda a penetração dessas ideias no seio do Povo de Deus, é possível constatar que elas circulam e repercutem nos ambientes católicos. Infelizmente, cada vez mais a Igreja está enredada nas tramas perversas da necrorreligião que sangra o cristianismo no Brasil.

Como libertar a fé dessas formas necrosadas da religião que ganham cada vez mais espaço público na sociedade?  Eis o desafio mais urgente a enfrentar.

 

* Jorge Alexandre Alves é sociólogo, professor da Educação Básica e participa do Movimento Nacional Fé e Política.