Uma longa jornada noite adentro

Uma longa jornada noite adentro
Foto: Reprodução | Brasil de Fato

Não posso me queixar deste início de ano. Comecei 2020 tri bem. Está terminando janeiro, apenas 1 mês, e já participei do Curso Oscar Romero em Santa Maria, com mais dezenas de participantes. Estive quase semana inteira na Ampliada Nacional da Pastoral da Juventude em Erexim, 100 jovens, renovando a fé e a esperança. Estive envolvido no Fórum Social das Resistências em Porto Alegre, milhares de participantes, ouvindo experiências, discutindo propostas para um outro mundo possível, urgente e necessário, compartilhando ideias, histórias, vida. Estive em reuniões sobre a Romaria da Terra, 25 de fevereiro, terça de carnaval, em Mormaço, Rio Grande do Sul: BEM VIVER NO CAMPO E NA CIDADE.

Como serão os outros 11 meses de 2020? O mundo e o Brasil estão em transe: coronavírus, multidões nas ruas em diferentes países e continentes, chuvas torrenciais não vistas no Brasil há mais de 100 anos, mortes e assassinatos em crescimento.

Segundo a ONG OXFAM, “o 1% mais rico do mundo detém mais que o dobro da riqueza de 6,9 bilhões de pessoas. A desigualdade global está em níveis recordes e o número de bilionários dobrou na última década. Os homens detêm 50% mais de riqueza que as mulheres. Se você juntar os 22 homens mais ricos do mundo, eles têm a mesma riqueza que todas as mulheres que vivem na África, que são em torno de 650 milhões”.

Uma guerra de consequências imprevisíveis está à porta e pode estourar a qualquer momento. Quem segura Trump e seu poder militar?

As mudanças climáticas em curso podem dar sobrevida ao Planeta, à humanidade e a todos os seres vivos por algumas – quantas? – décadas. Os transgênicos, os agrotóxicos (mais de 500 liberados no Brasil em 2019) envenenam alimentos e saúde.

A uberização e o controle de tudo (os tempos são de ‘1984’, de George Orwell e seu Big Brother/Grande Irmão), a começar pela informação, através das mídias digitais, apontam uma mudança de época, os poderes estabelecidos ainda mais estabelecidos e dominantes.

Os direitos e a democracia estão ameaçados: Bolsonaro, no nível federal, o governador Eduardo Leite no Rio Grande do Sul, o prefeito Marchezan Jr. em Porto Alegre (para citar apenas três governantes) e seu sólido bloco de poder rasgam a Constituição, destroem conquistas históricas, acabam com políticas públicas consolidadas, enquanto a população em situação de rua cresce geometricamente, junto com a miséria e o desemprego. Notícia da semana: “População em situação de rua cresce 60% em 4 anos na cidade de São Paulo, segundo Censo da População em Situação de Rua, da Prefeitura de São Paulo.”

O que fazer?

É preciso resistir. O Fórum Social das Resistências, anunciando o Fórum Social Mundial em janeiro de 2021 no México, foi um exemplo. Juntou todas as tribos – movimentos sociais urbanos e rurais, povos e comunidades tradicionais, a juventude da cultura e do hip-hop, diferentes igrejas e pastorais, o povo da Economia Solidária e da educação popular, os movimentos ambientalistas. As mulheres, as juventudes – num grande e necessário movimento de resistência, de pensar e sonhar junto, de construir coletiva e solidariamente ‘um outro mundo possível’, urgente e necessário (Ver artigo de Mauri Cruz, ‘Fórum Social das Resistências – um breve resumo’, em www.sul21.com.br).

A unidade do campo popular e democrático é fundamental nesta quadra da história, assim como mostrou e praticou o Fórum Social das Resistências. E deve estender-se inclusive às eleições municipais de outubro, com programas comuns, discutidos amplamente com a população, para evitar o avanço e a consolidação da avalanche ultraneoliberal.

É preciso discutir, nesta conjuntura e neste contexto histórico, um projeto de sociedade que envolva as mudanças em curso e abrace todas as vozes e todos os coloridos. Avançar no debate e pensamento estratégicos é decisivo no próximo período.

Quem quiser aprofundar a reflexão estratégica, recomendo, entre muitos textos e reflexões que estão circulando em diferentes redes sociais: análise de Márcio Pochmann: “Sociedade que deu origem ao PT não existe mais. Estamos com uma retórica envelhecida” e “Por uma esquerda do nosso tempo”; entrevista de Aldo Fornazieri: “País gira em círculos, sem lideranças e sem projeto”; os artigos contundentes de Eliane Brum; os ‘Xadrezes’ de Luís Nassif; os artigos, especialmente o último, de José de Souza Martins, no Caderno Eu & Fim de Semana: “A fé do Brasil dividido. O embate político principal já não é entre direita e esquerda. É busca do poder como meio de impor à sociedade os valores de grupos minoritários e conservadores”; a análise de Ladislau Dowbor: “Não há razão para haver miséria no planeta. Capitalismo não funciona”. E é fundamental acompanhar de perto, ler tudo sobre os Encontros convocados pelo Papa Francisco, A Economia de Francisco, em final de março, em Assis, Itália, e o de construção de Um Pacto Global da Educação, em maio, em Roma.

2020 não será nem um pouco fácil. Não será o passeio alegre de janeiro. ‘É preciso estar atento e forte’, como diz a canção.

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Selvino Heck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990) Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política Em trinta e um de janeiro de dois mil e vinte