Bloco de poder poderoso: preparemo-nos!

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Ando perdido. Fim de semana de chuva e nuvens, frio, domingo, finalmente um pouco de sol, vou no Parque da Redenção, monumento do Expedicionário, Porto Alegre, onde está a Banca Lula Livre. Pergunto para a Kátia, Milton, Roberto, que encontro conversando com as pessoas e recolhendo assinaturas, pergunto, depois de dias de intermináveis torpedos de JN, Globonews e quetais, sobre os hackers que invadiram os celulares e os segredos de todo mundo da República: O que está acontecendo? Como explicar as montanhas de informações e contra-informações, barbaridades mil do senhor presidente, e nada acontece? Se eu não entendo, imagina o povão!

O bloco de poder dominante é poderoso e não veio para brincar: grande capital nacional e internacional, especialmente financeiro, Trump e suas forças, grande mídia, lá e cá, redes sociais controlando a vida, a vontade e os valores das multidões, Forças Armadas, intelectualidade e classe média conservadora e de direita, igrejas neopentecostais, parcelas majoritárias do Poder Judiciário e Sistema de Justiça, latifúndio e agronegócio, e amplos setores do Congresso nacional.

Um Estado policial todo poderoso se instalou. O fascismo está na porta de casa e dentro das casas. Reina o ultraneoliberalismo, que privatiza tudo sem dó nem piedade, pratica o Estado mínimo e o Mercado livre e absoluto, o que nem os governos mais neoliberais dos anos 1990 tiveram coragem de fazer, chegando ao ponto de dizer que não se precisa mais de pardais nas estradas e auto-escolas para aprender a dirigir, sem esquecer a entrega do pré-sal e da Amazônia, em curso e tantas outras barbaridades. O lucro obsceno do Itaú (e Bradesco e Santander), no segundo trimestre de 2019, anunciado esta semana, que chegou a R$ 6,8 bilhões, um aumento de 9,1% sobre o mesmo trimestre de 2018, e de 1,6% sobre o primeiro trimestre de 2019, é uma amostra indesmentível dos tempos de lucro e aumento absurdo da riqueza para poucos, em tempos de dezenas de milhões de desempregados e da fome voltando às ruas.

Uma grande conspiração está em curso, uma Guerra de Quarta Geração, comandando o mundo, as ideias, a política. A vida das pessoas está sendo devassada, com controle sobre tudo. Glenn Greenwald, The Intercept e parceiros são um feliz contraponto e contribuem para que a verdade, ou parte dela, ainda possa aparecer. Para que eu e muitos que não conseguimos entender as loucuras dos acontecimentos que se sucedem, possamos compreender. E agir.

Não são tempos de normalidade. Não estamos mais no campo da racionalidade. Estão aí as declarações absurdas do Presidente da República, como se fossem triviais: assassinatos na ditadura, como o de um jovem de 26 anos, Fernando Santa Cruz, ou presos mortos em Altamira, Pará, em 2019, chamando, depreciativamente, todos os nordestinos de ‘paraíbas’, ‘Mais Médicos’ formadores de núcleos de guerrilha. Crescem geometricamente o ódio e a intolerância. Os dias amanhecem e terminam como se quase nada de novo e diferente tivesse acontecido.

Aí mora o perigo. Quando o vale-tudo começa a imperar, o (quase) caos passa a se instalar. Nem na ditadura, de algum modo, viu-se algo igual. Tudo ou quase tudo acaba se justificando, o impensável em outros tempos torna-se normal, as pessoas e a sociedade se anestesiam como se tomassem morfina ou não tivessem como reagir a tanta loucura e mentiras espalhadas por todos os lados.

A morte da democracia acontece todos os dias de todas as formas. Não é apenas a extinção de Conselhos e o fim da participação social, ou a absurda liberação diária de agrotóxicos, a mudança na lei de trabalho escravo, o fim da Previdência pública. É a fé na democracia que está morrendo, como se participar, ter direitos não fosse importante e necessário no século XXI ou num país continente como o Brasil. Basta perguntar a muitos que estão ao redor de cada um no cotidiano, muitos e muitas da família de cada um, que acham que o caminho é esse mesmo e não há outro.

O bloco de poder instalado é poderoso. Pode durar muito. Sem ilusões, portanto. O que fazer? Ir para a desobediência civil, como aconteceu na ditadura? Palavras como ‘interdição’ e ‘impeachment’ começam a aparecer em diferentes espaços e diferentes vozes, até proferidas por cabeças conservadoras ou apoiadoras do golpe.

Sem dúvida, uma ampla Frente Democrática, como a que se construiu na reta final da ditadura em torno das Diretas-Já, com unidade de todos os democratas, é fundamental neste momento histórico. Mobilização nas ruas e em todos os espaços, como a que está prevista dia 13 de agosto próximo, é decisivo. Para que todas as vozes e todas as forças políticas se unam em torno da democracia, da liberdade e da soberania. Apesar de tudo não é tempo de desesperança. É tempo de construção. Ninguém solta a mão de ninguém! Quem sabe, agosto, dito popularmente como o mês do cachorro louco, seja o mês do início da virada e da esperança!

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Selvino Heck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
Em dezoito de julho de dois mil e dezenove