Páscoa: Martírio e Ressurreição

Páscoa: Martírio e Ressurreição

Viver como ressuscitados é o fundamento da espiritualidade cristã, ensina o apóstolo Paulo. Por isso a celebração da Páscoa é tão importante para a espiritualidade político-libertadora: ela alimenta a luta não-violenta para transformar o mundo, luta que acarreta sofrimentos pessoais e riscos à vida. Crer na ressurreição é assumir o caminho do testemunho e, quando necessário, o martírio na confiança de que a ressurreição é força de resistência e de transformação que vem pela doação da vida.

No entanto, ao celebrar a Páscoa as Igrejas cristãs raramente apontam a participação efetiva nas lutas populares de libertação como caminho de ressurreição. A Semana Santa é cheia de rituais – procissões, adorações, missa para benzer os óleos, encenação da Paixão, e até a reza do terço na madrugada – que falam do Filho de Deus que dá sua vida para obter o perdão dos pecados, mas deixam em silêncio a dimensão política do seu martírio.

Para recuperar essa dimensão política e martirial, é preciso ter em mente que a morte de Jesus é o desfecho de um processo de contestação da desordem estabelecida. Jesus sobe a Jerusalém acompanhado por muita gente que quer vê-lo assumir o lugar do rei-messias e expulsar do Templo os sacerdotes que se submeteram ao império romano em troca da liberdade de culto.

Basta a leitura atenta dos relatos escolhidos pela liturgia católica para evidenciar o caráter político do processo judicial de Jesus: Marcos acusa os “chefes dos sacerdotes, doutores da lei e anciãos do povo” (14, 43) enquanto João aponta o conluio dos chefes judeus e Pilatos para eliminar o “Rei dos Judeus”, como dizia a tabuleta em hebraico, latim e grego (19, 19-20). Apesar disso, a forma atual de celebrar a Páscoa despolitizou a morte de Jesus, que ficou reduzida a um sacrifício para a remissão dos pecados.

Recuperar o sentido da Páscoa como martírio é um passo importante para alimentar a espiritualidade político-libertadora. A tradição cristã propõe o tempo que vai do Domingo da Ressurreição até Pentecostes como momento de interiorização do mistério da Páscoa. Para ajudar a reflexão, trago a mensagem do bispo Pedro Casaldáliga, porque Esperança é seu grande tema.

Certa vez, ele me disse: “Tudo começa com a ressurreição. Sem ela, não há Esperança”. De fato, respondi, sem ressurreição Jesus seria apenas um grande mestre espiritual, mas a ressurreição faz de Jesus vida nova, vida em plenitude. Pedro completou então seu pensamento com uma frase que dá o que pensar: “Missão é transmitir ressurreição”.

Mais que anunciar a ressurreição, missão é levar vida nova aonde ela está ameaçada de morte. É levar Esperança e Fé, porque “Fé é confiar num Deus que é vida, que é amor e que não falta. Misteriosamente, ele age e se faz presente. Quando menos esperamos, ali está Ele”, concluiu o mártir vivo do Araguaia e de Nossa América.

Esperança, Missão, Fé: tudo começa com a Ressurreição.

Que a celebração desta Páscoa em meio de tanto sofrimento infligido aos pobres, a mulheres, aos povos negros e originários, aos migrantes e tantos sofredores e sofredoras, confirme nossa Esperança na Ressurreição e mantenha firme a espiritualidade político-libertadora que anima o Movimento Nacional Fé e Política em sua luta por um mundo de Justiça e de Paz!

Pedro A. Ribeiro de Oliveira
Pedro A. Ribeiro de Oliveira – Juiz de Fora, 29/ março. 2018
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