PASTORAIS SOCIAIS: pelos caminhos de Canudos, horizontes de um nordeste de resistências

Deixe-me viver
Deixe-me falar
Deixe-me crescer
Deixe-me organizar

Refrão muito cantado nos dias em Canudos

Nos dias 19 a 22 de outubro deste ano de 2017, na cidade de Canudos/BA, aconteceu o Encontro das Pastorais Sociais do Nordeste – “Nordestão das Pastorais Sociais”. O Encontro contou com a participação de representantes de todos os estados nordestinos, dos cinco regionais da CNBB no Nordeste, formando assim o rosto da diversidade de nossas Pastorais e Organismos de ação social. Também contamos com representantes de movimentos populares, a exemplo da Frente Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular, ONGs, do Movimento Nacional Fé e Política e com o apoio e participação da Universidade do Estado da Bahia e do Instituto Popular Memorial de Canudos – IPMC e da Paróquia Santo Antônio de Canudos, bem como do Fundo Nacional de Solidariedade da CNBB, com o destaque para a acolhida e articulação do Regional NE 3 (Cáritas Regional e Pastorais Sociais). Contamos ainda com ótimas assessorias e com um representante da Comissão Nacional das Pastorais Sociais da CNBB.

Canudos, cidade do interior da Bahia; palco da Revolução liderada por Antônio Conselheiro estava em festa, celebrando a sua 30ª Romaria de Canudos e lembrando os 12O anos do massacre do povo liderado pela figura de Antônio Conselheiro em 1897, uma guerra contra um povo organizado que sonhava com vida digna e sociedade justa e sem exploração. Aquela foi uma experiência de uma vida comunitária! Pequenos agricultores, ex-escravos, migrantes das secas e pobres de toda sorte, esquecidos pelo Poder Central viram na Comunidade de Belo Monte e em Antônio Conselheiro uma esperança de vida melhor. “A experiência de Antônio Conselheiro e de seus seguidores, comprovaram que a construção de uma alternativa de sociedade construída com a participação popular, os resultados sempre apontam para uma comunidade feliz, sem exclusão. Assim, a Comunidade de Belo Monte fundada em 1893, viveu pouco mais de 4 anos essa experiência e teve sinais positivos, pois entre outros existiam: a criação de pequenos animais, agricultura de subsistência, beneficiamento de peles para a exportação, a boa convivência dos conselherist com os povos vizinhos, o respeito pelo comércio externo, à preocupação com o meio ambiente, a educação, abertura para a religiosidade e a valorização da pessoa humana” Extraído do texto do Folder dos 12O anos do massacre de Canudos e da 30ª Romaria. Não havia sentido pagar imposto e não ter nenhum retorno, populações excluídas de tudo, Canudos representou a vivência de um ideal de vida baseado na comunidade, na partilha, no respeito e na autogestão.

O Encontro

Foi neste cenário de memória e resistência que aconteceu o Encontro das Pastorais Sociais do Nordeste, o objetivo central – Pastorais Sociais do Nordeste informadas e mobilizadas enfrentam ao modelo de desenvolvimento, seus impactos sobre os biomas do Nordeste e seus povos e comunidades, tendo como foco a construção do projeto popular para o Brasil.

Os dois primeiros dias foram encontro e reencontro de agentes de pastoral, militantes com as suas histórias, angustias e esperanças. Momentos de oração e acolhida em torno do monumento do Conselheiro, animaram o inicio do primeiro dia e deu o tom durante os demais dias. A música, a animação foi outro fio condutor que deu muita vida ao encontro. As apresentações de cada regional foram facilitando na memória os diversos rostos de tantos lugares desta grande região. As mesas de debates, o olhar sobre a conjuntura, a reflexão sobre a pedagogia de Paulo Freire e como ela pode nos ajudar no nosso HOJE. As diversas experiências mostradas já apontam para o caminho da sociedade do “Bem viver”. (se apresenta como uma oportunidade para construir coletivamente outra forma de vida. O Bem Viver, essencialmente, um processo proveniente da matriz comunitária de povos que vivem em harmonia com a natureza. Ver Alberto Acosta no seu livro O Bem Viver)

Dialogamos sobre as recentes experiências de articulação dos movimentos sociais, a exemplo das Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, bebemos na memória da caminhada das Pastorais Sociais e da Igreja na sua caminhada libertadora dos últimos 6O anos, das Semanas Sociais Brasileira da CNBB e de tantas outras mobilizações e lutas, a exemplo dos plebiscitos populares, tribunais populares do judiciário, grito dos/as excluídos/as, as diversas romarias… As discussões sobre o Nordeste que temos e o Nordeste que queremos feitas na última década, as assembleias populares, a recente greve geral, a luta por direitos… Enfim, muitas mobilizações das quais as Pastorais Sociais estavam e estão mergulhadas.

Outro momento importante foi o diálogo com o Movimento Nacional de Fé e Política, na perspectiva de construção de parceria, reflexão sobre a sociedade do “Bem viver” na colaboração para a construção do 11º Encontro Nacional de Fé e Política no Nordeste.

Algo marcante e fruto dos debates foram a percepção do caminho que deve ser feito no sentido de descolonizar as nossas vidas, nossas praticas e nossas organizações, vencermos o machismo, o patriarcado, racismos e toda forma de preconceito ainda tão presente, mesmo que inconscientemente. Respeito à identidade do/a outro/a. O clima foi de um ambiente muito fraterno e de construção coletiva e exortações para o novo.

Outro ponto muito lembrado e celebrado foi o ministério do Papa Francisco, os Encontros Mundiais com os Movimentos Populares que ele esteve presente, os 3Ts: Terra, Teto e Trabalho, na palavra do Papa Francisco, a luta por estes 3Ts é uma luta sagrada, é uma luta pela dignidade humana, dignidade dos filhos e filhas de Deus.

Tempo de crises

Podemos extrair como reflexão dos debates e da caminhada das Pastorais Sociais, a denúncia que este modelo de desenvolvimento atual, baseado na sociedade industrial dos últimos 2OO anos, a exploração do trabalho e dos recursos naturais se esgotou, as mudanças climáticas e a brutal desigualdade no mundo são as consequências mais visíveis deste esgotamento. Por isso a urgência do debate sobre uma alternativa, ou seja, sobre outra forma de organização societária, baseada no cuidado com a terra e todos os seus seres vivos e não baseado no lucro, na produção e consumo. Urge sairmos do atual modelo e construirmos uma sociedade diferente desta que está aí.

O Evangelho, a vida e a proposta de Jesus de Nazaré, nos convidam a redescobrir o sabor de uma vida comunitária simples, solidária e participativa. Nisso os Povos Indígenas tem muito a nos ensinar, voltando o olhar e o coração para o modo de vida destes Povos. São Quilombolas, ribeirinhos, indígenas que nos ensinam outro jeito de cuidar da Terra e construir uma outra sociedade fundamentada na partilha.

Canudos

Momentos emocionantes e animadores foram as visitas ao Parque onde ocorreu a Guerra, palco preservado pela Universidade do Estado da Bahia. As celebrações nas noites na Igrejinha do IPMC e a Própria Romaria no último dia, caminhar com o povo da região e de tantos outros lugares que corre para Canudos, foi celebrar e afirmar que o sonho de Canudos não morreu e está mais vivo do que nunca.

Alguns encaminhamentos

O Encontro aprovou vários encaminhamentos, cito alguns deles:

  • Fortalecer a Articulação Nordeste das Pastorais Sociais e Organismos;

  • Continuar o debate sobre o Projeto Popular para o Brasil;

  • Aprofundar a reflexão sobre o Bem Viver;

  • Dar prioridade ao trabalho de base na perspectiva da pedagogia de Paulo Freire;

  • Retomar, fortalecer e criar onde já existe a formação política, escolas de fé e política;

  • Ampliar o diálogo e articulação junto aos movimentos sociais e as Frentes;

  • Participar do Fórum Social Mundial em Salvador e ver a possibilidade de um evento autogestionado das Pastorais no Fórum ({13 a 17 de março};

  • Reunião da Articulação Nordeste durante o Fórum Social Mundial;

  • Acompanhamento do Fórum Mundial Alternativo das Águas;

  • Realização de seminário em parceria com o Movimento Nacional Fé e Política para maio de 2O18 em Fortaleza;

  • Engajamento no processo de construção do 11ª Encontro Nacional de Fé e Política;

  • Participação dos Regionais em todo o processo de construção e realização da 6º Semana Social Brasileira;

  • Diálogo com os bispos;

  • Vivência do Ano do Laicato.

Este texto trata apenas de um relato de forma breve sobre o que aconteceu em Canudos. Sem dúvida muita coisa ficou de fora e não deu para falar e aprofundar nestas linhas todo o ardor que os debates do Encontro proporcionaram. Foi um Encontro muito rico e dinâmico que marcou a caminhada. Pode-se afirmar que o espírito de Canudos deu novo impulso na vida e missão das Pastorais Sociais e Organismos em vista de um Nordeste, onde a seca e a migração deem lugar a convivência com o semiárido, onde na alegria do encontro possa-se confirmar a importância e riqueza da diversidade como construtora da justiça e igualdade que somos e sonhamos. Que o Espírito de Deus nos dê força, coragem e profecia nesta caminhada.

Viva Canudos! Viva as Pastorais Sociais! Viva ao Povo Resistente e lutador! Viva ao Papa Francisco! Viva ao Padre Ibiapina! Viva ao Pe. Cícero e Dom Helder Câmara! Viva ao Conselheiro! Viva às Marias!

Roberto Jefferson Normando

Coordenador da Escola Diocesana de Fé e Política Dom Manuel Pereira de Campina Grande-PB, Membro da Coordenação Regional do Setor de Pastoral Social da CNBB NE 2, Coordenador Executivo do Observatório Social do Nordeste

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