O Movimento Nacional Fé e Política

por Pedro A. Ribeiro de Oliveira 1
e Teresinha Toledo2

Introdução

Este texto tem por finalidade apresentar de modo acessível o Movimento Nacional Fé e Política (MF&P). Trata-se de um olhar de dentro por ser elaborado por dois membros da sua equipe de coordenação, mas fiel à realidade por abordar a história e realizações do Movimento, e não suas intenções. Uma ênfase especial é dada sobre o tema da formação política, por ser este um dos maiores desafios do momento atual.

Gênese e primeira fase do Movimento Nacional Fé e Política

A Conferência Episcopal de Medellín, em 1968, favoreceu a criação de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e de Pastorais Sociais que, ao longo da década de 1970 deram decidido apoio ao movimento sindical, à luta pela terra, a associações de moradores, à luta dos povos indígenas e a tantos outros movimentos populares, mas raramente se envolveram na política partidária, vista sob suspeita. A razão é que o regime empresarial-militar deformou a atividade político-partidária, que deixou de ser a disputa entre representantes de diferentes interesses sociais para tornar-se negociata de cargos e vantagens. Eram exceções os agentes políticos que não se deixavam corromper pelo governo militar em busca de apoio político. Isso provocou nos ambientes cristãos muita rejeição contra a política partidária, mas a abertura política do início dos anos 1980 mudou o panorama, ao possibilitar a criação de novos partidos.

Em busca de meios novos de ação, os movimentos populares fizeram importantes experiências no campo da política partidária, como as prefeituras conquistadas em 1982 pela Corrente popular do PMDB em Mato Grosso, a participação em campanhas eleitorais e a criação do Partido dos Trabalhadores (PT). Pouco depois, a eleição de parlamentares e a conquista de prefeituras pelo PT, com decisiva participação das CEBs e Pastorais Sociais, trouxeram à tona o problema do lugar dos cristãos na política partidária.

Desde as crises políticas da 1ª República, a Igreja católica no Brasil firmou a posição de não patrocinar um partido como próprio, mas incentivar a participação política de seus membros em partidos que se alinhassem com seus princípios morais e seu Ensino Social. O problema é que essa posição trazia o problema prático da dispersão dos cristãos em diferentes partidos e, consequentemente, pequena influência nos seus rumos. Formavam uma “massa de manobra” muito útil à obtenção de votos, mas sem força suficiente para participar da direção partidária.

Nesse contexto, Fr. Clodovis Boff elaborou um texto que, divulgado no 6º Encontro Intereclesial de CEBs (Trindade – GO, 1986) trazia uma contribuição original ao tema: legitimava a participação política dos cristãos, atribuindo à Igreja a função de orientar essa participação. O texto provocou muito debate3 – entre outros motivos, por desconsiderar o risco de instrumentalização da Fé cristã como ideologia – e apontou a necessidade de melhor reflexão que levasse a um encaminhamento prático.

Pe. Ernanne Pinheiro, responsável pela assessoria política de CNBB, promoveu um encontro de políticos católicos tendo em vista aprofundar a reflexão e estabelecer algum consenso. A diversidade de posições ideológicas, porém, era tanta que o encontro propiciou um diálogo respeitoso entre os participantes, mas não fez avançar encaminhamentos práticos4. Ficou claro, ali, que a identidade católica por si mesma não oferece base suficiente para a criação de um instrumento de ação política.

Outro encaminhamento ao debate foi dado em junho de 1989, por iniciativa do Centro de Direitos Humanos de Petrópolis, quando cerca de 30 pessoas se reuniram no Rio de Janeiro para aprofundar a reflexão e buscar um consenso sobre o assunto. Eram todas pessoas que, motivadas pela Fé cristã, estavam engajadas em lutas populares – movimentos sociais, sindicais, de vizinhança, de Direitos Humanos etc. Embora nem todas participassem de atividades partidárias, todas votavam no Partido dos Trabalhadores. Mais importante: essa afinidade política se aliava à sintonia no campo da ética e era reforçada por laços de amizade. Essa base comum facilitava a busca de um consenso, mesmo porque ficou claro desde o início que o grupo não se tornaria mais uma tendência do PT. Outro ponto de consenso é que a Política não se reduz aos Partidos, mas se dá igualmente nos movimentos sociais.

Esses dois pontos de consenso, porém, não resolviam o problema prático de criar uma organização capaz de evitar a dispersão dos cristãos e assim aumentar sua influência nos rumos dos movimentos sociais e no próprio PT. De fato, era evidente a disparidade entre o grande número de cristãos nas suas bases e sua pequena representação nas cúpulas. Desqualificados como “igrejeiros”, eram em geral descartados no momento da eleição de dirigentes sindicais, do PT e da coordenação de movimentos sociais. A solução do problema deveria ser buscada numa forma de assumir a identidade cristã como elemento de aglutinação de forças dispersas nas CEBs e Pastorais Sociais, sem, contudo criar uma tendência cristã no PT, que equivaleria a criar um partido.

O desafio prático era, então, consolidar essa identidade e multiplicar ações que articulassem os muitos grupos informais para dar-lhes consistência. Para isso foram propostos encontros de estudo, dias de espiritualidade e oração, e uma publicação sobre temas próprios a cristãos politicamente atuantes. Restava, porém, uma questão em aberto: a identificação desse Movimento, que não queria ter uma afiliação formal – “de carteirinha” – mas a adesão pessoal aos mesmos princípios para a ação. Foi então elaborada a Carta de Princípios do Movimento Fé e Política. Seria membro do MF&P quem se identificasse com esses princípios e os pusesse em prática. Dada sua importância, convém reproduzir a Carta de Princípios, que foi revista em 19995.

Existem no Brasil inúmeros grupos de pessoas que, inspiradas na mensagem evangélica, atuam em movimentos populares, sindicatos, partidos políticos e outros espaços de organização social. Algumas se reúnem em grupos informais de reflexão, celebração e aprofundamento. A maioria, porém, se sente isolada e necessita de meios de reflexão para a sua prática. É nesse contexto que atua o Movimento Fé e Política.

Este Movimento é ecumênico, não confessional e não partidário. Está aberto a todas as pessoas que consideram a política uma dimensão fundamental da vivência de sua fé, e que consideram a fé o horizonte de sua utopia política.

Voltado para a construção de uma sociedade alternativa ao capitalismo neoliberal, o Movimento tem o objetivo de fomentar a reflexão política, a vida espiritual e a subjetividade daqueles que estão comprometidos com uma prática política e social.

Os participantes do Movimento Fé e Política atuam em movimentos sociais, organizações populares ou partidos políticos; assumem a causa dos pobres, dos oprimidos e dos excluídos; conferem prioridade à conscientização e organização popular; recusam a manipulação das bases; afirmam as classes populares como principal sujeito da própria história; rejeitam todos os valores calcados no individualismo e na absolutização do mercado e reafirmam como valores fundamentais para o ser humano, a solidariedade, a cooperação e o direito de todos à vida em plenitude. Comprometem-se com o exercício da cidadania ativa e a construção de uma sociedade socialista, democrática, plural e planetária.

O Movimento Fé e Política pretende ser um serviço de formação e informação sobre questões de política, cultura, ecologia, ética e espiritualidade. Ele pretende reforçar e estimular a experiência dos grupos de reflexão, celebração e aprofundamento.

Depreende-se desse documento que o MF&P queria ser um organismo de serviço aos grupos de Fé e Política existentes e que viessem a surgir no Brasil. O quanto possível, esses grupos, com suas particularidades, se articulariam em forma de rede. Para alimentar essa rede o núcleo central do Movimento se propôs a publicar textos para reflexão – os Cadernos de Fé e Política – promover seminários de estudo e encontros em forma de retiro espiritual. Com muito esforço, foram publicados quinze cadernos6, realizados pelo menos um encontro anual de reflexão sobre temas específicos – ética análise de conjuntura, partido, ecologia e outros. Isso motivou grupos locais ou estaduais a também realizarem encontros de espiritualidade e de estudo. Um deles foi o seminário sobre Mística e Espiritualidade com Frei Betto e Leonardo Boff, promovido pelo Centro de Educação Popular do Instituto Sedes Sapienciae (Cepis), de São Paulo, em maio de 1993, com a participação de 400 pessoas de vários estados7.

A conjuntura dos anos 1990, porém, era outra. A vitória do capitalismo neoliberal foi um desastre para as classes populares, porque rompeu unilateralmente o pacto social construído na elaboração da Constituição cidadã de 1988 e deu ao mercado, agora globalizado, enorme liberdade. Também a realidade religiosa havia mudado: o projeto de restauração identitária, vitorioso na cúpula da Igreja católica, ameaçava todo trabalho de base, enquanto o avanço neopentecostal minava o movimento ecumênico também no campo evangélico. As posições políticas conservadoras ganharam força alegando defender a vida intrauterina e a família, enquanto projetos políticos de mudança estrutural na economia eram desqualificados como “ideologia”.

Naquele contexto, o esforço do núcleo central não dava os resultados esperados: pouca gente participava dos encontros e os Cadernos – que tanto custavam para ser produzidos – tinham pouca saída. Tudo isso provocou certo desalento entre os membros daquele núcleo inicial, sendo poucas as pessoas que ainda teimavam em participar das atividades do MF&P e assim contribuir para a animação de militantes. Nove anos após sua fundação o MF&P parecia não ser mais necessário. O impulso inicial estava dado: já existiam no Brasil muitos grupos de “Fé e Política” (com ou sem esse nome), o Movimento Evangélico Progressista era atuante, muitas dioceses incentivavam a Pastoral política e começaram a ser criadas Escolas de Fé e Política8. De fato, muitos grupos nasceram e desenvolveram excelentes trabalhos de conscientização e articulação política, embora nem sempre ligados ao MF&P.

Na virada do século, a segunda fase do MF&P.

Em janeiro de 1998 Fr. Betto tomou a iniciativa de convocar uma reunião do Movimento em São Paulo. Na pauta, apenas um tema: avaliar o MF&P e decidir se ele ainda cumpria a função para a qual fora criado. Se a realidade não pedisse mais sua existência, o grupo daria por encerrado o MF&P e buscaria outra forma de animação dos e das militantes na política. A avaliação apontou que ele ainda tinha uma missão a cumprir e era preciso pensar uma nova forma de atuação. O trabalho em pequenos grupos fora bem feito, mas o momento exigia uma atuação massiva. Foi decidido, então, convidar o núcleo coordenador e outras pessoas que despontavam na militância para uma reunião com a finalidade de redirecionar o Movimento.

Essa reunião aconteceu em outubro de 1998, quando foi reformulada a Carta de Princípios e o Movimento decidiu promover um grande encontro aberto a todas as pessoas que sentissem necessidade de animar sua prática política. Realizado em Santo André-SP, o encontro teve por tema “a mística da militância” e foi um momento mágico de encontros pessoas, testemunhos e celebração das lutas. A coordenação havia se preparado para receber até 400 pessoas e vieram quase 2.000. Tal êxito incentivou outros eventos do mesmo tipo, e a partir de então o MF&P passou a ter como principal atividade promover Encontros Nacionais abertos a todas as pessoas identificadas com sua Carta de Princípios.

Foi estabelecida uma metodologia de construção coletiva, que se adapta à realidade e às possibilidades de cada cidade que recebe o Encontro Nacional, sempre em forma de mutirão com vinte a trinta equipes de trabalho e centenas de famílias que oferecem hospedagem solidária. A equipe local – com representantes de Pastorais Sociais, movimentos sociais, entidades e organizações populares, incluindo pessoas de outras igrejas ou tradições religiosas – recebe o acompanhamento da coordenação nacional e juntamente decidem o tema, as assessorias, o cronograma e dinâmica, encaminham projetos de financiamento, e compõem a coordenação executiva. Os participantes contribuem financeiramente por meio da taxa de inscrição. A participação do poder público – ao ceder espaço e infraestrutura – e da Diocese ou Paróquias locais – que abrigam as equipes de preparação do evento – tem sido muito valiosas. Note-se, enfim, o apoio das Universidades que nos encontros de Brasília-DF e Campina Grande-PB acolheram o evento em seu respectivo campus.

Esses Encontros Nacionais aumentaram muito o alcance do MF&P, que se tornou uma referência nacional para cristãos comprometidos com as causas populares. Momento importante dos Encontros é a apresentação de quem exerce cargo ou mandato político, porque muitas dessas pessoas são malvistas por sua Igreja, como se a função política fosse pecaminosa. Outro ponto importante é a prática do ecumenismo tanto na valorização da diversidade de Igrejas cristãs e de outras Tradições, quanta nas celebrações que incluem a todos na partilha da Palavra, na Ação de Graças e na Ceia do Senhor. Enfim, esses Encontros tem sido um canal eficaz de formação, colocando em debate – em plenário e em oficinas específicas – os grandes temas da conjuntura. Foram um dos principais difusores, no Brasil, do Bem-Viver como proposta de sociedade, economia e forma de convivência planetária alternativa ao modo de produção e consumo capitalista.

A tabela seguinte traz o panorama geral dos Encontros Nacionais já realizados:

Ano

Local

Tema

Presentes

2000 Santo André SP Mística da Militância

Quase 2.000

2002 Poços de Caldas MG As razões de nossa Esperança

4.000

2003 Goiânia GO Conquistar a terra prometida

6.000

2004 Londrina PR Utopias da fé e realidade da política

5.000

2006 Vitória ES Profetismo no exercício do poder

4.000

2007 Nova Iguaçu RJ Pelos caminhos da América Latina, uma Nova Terra

4.500

2009 Ipatinga MG Cuidar da vida: espiritualidade, ecologia e economia

3.600

2011 Embu das Artes SP Em busca da Sociedade do Bem-Viver: sabedoria, protagonismo e política

3.800

2013 Brasília DF Cultura do Bem Viver: Partilha e Poder

+ de 3.000

2016 Campina Grande PB Bem-viver: águas da solidariedade e sementes de esperança

Quase 1.000

Convém sublinhar que toda essa mobilização é realizada a partir de um pequeno núcleo: a coordenação nacional do MF&P, cuja organização é baseada no trabalho voluntário. Com exceção da secretária de administração e do serviço de manutenção do site, todos os membros da coordenação são voluntários que arcam até mesmo com seus gastos de viagem para as reuniões. São seis membros escolhidos entre os antigos militantes, mais um ou dois representantes dos grupos que acolheram encontros nacionais. O espaço onde tudo acontece de fato é nos grupos de base, tendo ou não o nome de “Fé e Política”. O Movimento resume-se em lhes oferecer o ânimo, a metodologia de trabalho, a oportunidade de encontros e subsídios de espiritualidade político-libertadora.

As mudanças na conjuntura, porém, sinalizam que hoje o MF&P não pode mais limitar suas atividades à promoção de Encontros Nacionais. Isso é confirmado pela análise comparativa dos temas e das presenças elencadas na tabela acima. O número de participantes teve seu o auge no Encontro de 2003, ao começar o governo Lula e anunciar-se um período de mudanças sociais e políticas. Nos Encontros seguintes diminui o número de participantes, enquanto os temas apontam a preocupação com o rumo daquele governo. A temática do Bem-viver Sumak Kawsay dos povos andinos – aparece em 2011, como a indicar a busca de um projeto de transformação vindo da periferia do mundo capitalista. O 10º Encontro, em 2016, logo após o golpe do impeachment deixou evidente que hoje o MF&P tem uma nova missão: não apenas animar a prática e a espiritualidade político-libertadora, mas também discernir pistas para a ação política no contexto de crise mundial iniciada com a crise financeira de 2008 e que hoje se desdobra num clima de guerra das grandes corporações contra as massas empobrecidas e a Terra.

Após o golpe de 2016, a terceira fase?

A proposta do Bem-viver abre caminho para outra forma de ação política: seu ponto de partida continua sendo a contradição entre capitalismo e socialismo, mas a ela acrescenta-se outra, também própria do mundo moderno: a contradição entre colonização ocidental e culturas ameríndias. Sua enorme difusão entre os movimentos populares na América Latina está ligada à crise financeira de 2008, que, ao abalar o sistema financeiro global, revelou a fragilidade estrutural do modo de produção e consumo capitalista. Ficou claro que ao priorizar as relações de concorrência sobre as relações de cooperação, o capitalismo rompe os laços de solidariedade humana, corrói as relações internacionais, mina o poder dos Estados, provoca a crise ambiental e promove a 6ª extinção em massa de espécies. Para salvar o sistema financeiro, os Estados adotam a política de ajustes fiscais e liberam a exploração de recursos naturais, agravando mais ainda o desequilíbrio climático, energético e ecológico da Terra, como denuncia o Papa Francisco na encíclica Laudato si´. Nesse contexto, os povos oprimidos buscam outra saída e essa busca leva à descoberta do Bem-viver.

O MF&P quer responder a esses desafios oriundos da crise global de 2008. Dois fatos novos incidem diretamente sobre o Movimento: a tendência das Igrejas ao seu enclausuramento e a reduzida capacidade dos Partidos políticos como agentes de ação transformadora. Vejamos brevemente o que eles representam como desafios ao MF&P nesta nova etapa de sua existência.

Sabemos que uma espiritualidade militante e uma sólida formação política são, hoje, tão necessárias quanto antes, mas as propostas devem ser repensadas tendo em vista o quadro atual. A Teologia da Libertação, que fundamenta as razões de uma Fé que se concretiza nas práticas político-libertadoras, tem sido excluída nos ambientes institucionais da Igreja Católica, hoje tomados pelo clericalismo. Em consequência, leigas e leigas que anseiam por participação eclesial adulta sem renunciar a sua Fé politicamente engajada, raramente encontram espaço para isso. Também nas Igrejas Evangélicas são pequenos os espaços para militantes que se colocam a serviço das causas populares, mais do que dos interesses institucionais de sua Igreja. Esses apelos por uma Espiritualidade político-libertadora se fazem mais e mais sentir, desafiando o MF&P a encontrar novas formas de formação e de apoio mútuo entre os cristais e cristãs militantes desde as bases eclesiais locais.

No campo político, é evidente a frustração com a política partidária. Ela é clara no caso do Partido dos Trabalhadores, que não conseguiu realizar seu propósito de ser o principal veículo político das classes populares, mas existe também noutros partidos de esquerda que se distanciaram dos movimentos populares, provocando o crescente descrédito popular na própria política. Mais que antes, o MF&P precisa retomar a “prioridade à conscientização e organização popular”, a “recusa à manipulação das bases” e a afirmação das “classes populares como principal sujeito da própria história” – que estão na sua carta de princípios – como fundamentos para a construção de novos condutos de ação política em nosso País.

Um processo de formação para os novos tempos

O Movimento Nacional Fé e Política adota o método pedagógico da formação na ação para que a pessoa progressivamente tome consciência da realidade onde vive e se motive para transformá-la ao mesmo tempo em que se transforma a si mesma. Isso implica, é claro, o método ver, julgar e agir. Mesmo nos seus primeiros anos, quando realizou minicursos sobre temas específicos, o ponto de partida era sempre a análise da conjuntura. Também ao promover os grandes Encontros Nacionais, o MF&P sempre teve como objetivo favorecer a formação dos participantes a partir do exame de suas práticas. O modelo adotado desde o 4º Encontro, com toda a tarde de sábado dedicada a trabalhos em grupos, bem expressa esse método pedagógico: o assessor ou assessora convidada deve provocar os participantes a falarem sobre suas práticas naquele campo, apontar as principais dificuldades e favorecer a reflexão conjunta sobre os encaminhamentos mais adequados. A assessoria implica, evidentemente, a transmissão de conhecimentos especializados sobre o tema em questão, mas isso só ocorre na medida em que as questões são levantadas no próprio trabalho em grupo.

Não está em questão a validade desse método pedagógico, respaldado por toda uma tradição de movimentos sociais e teorizado por Paulo Freire: o MF&P continua a afirmar que o conhecimento da realidade vem da reflexão – de preferência em grupo – sobre as práticas que visam transformar essa realidade. O desafio que hoje se coloca tem a ver com a extensão do campo a ser conhecido. A realidade atual, resultante do processo de globalização neoliberal que interligou o mundo de tal forma que é impossível entender uma realidade particular fora do seu contexto, obriga quem quer conhecê-la a dominar conceitos teóricos capazes de abranger essa nova configuração do mundo. Basta lembrar expressões como sistema mundial de mercado, guerra de 4ª geração, financeirização, planetarização, aquecimento global, antropoceno e tantas outras que até pouco tempo eram de uso restrito a estudiosos e que hoje precisam entrar nas análises de conjuntura para dar conta da realidade vivida. A própria ideia de Bem-Viver hoje incorporada pelo MF&P para dar conta de sua proposta de mundo, só ganhou seu significado atual nos primeiros anos do século 21.

Esse problema requer soluções criativas para que seja preservado o método pedagógico da formação na ação – e portanto o método ver, julgar e agir – sem por isso restringir a ação aos âmbitos local, regional ou nacional. Ao intuir essa necessidade, o MF&P realizou em 2014 e em 2018 seminários de estudo sobre temas específicos, destinados a pessoas que tenham função multiplicadora junto às bases. Também a revitalização do site9 para difundir textos que sirvam de subsídio a estudos em profundidade é um caminho que se abre agora. O Movimento percebe, contudo, que o desafio da formação política no mundo atual é grande demais para ser enfrentado por uma única organização – por maior e mais poderosa que fosse. Cabe então a organismos representativos de Movimentos Sociais, a Partidos políticos comprometidos com as causas populares, a Igrejas cristãs que estejam em saída para se colocar a serviço da vida dos pobres e da vida da Terra, e também a entidades de Ensino e Pesquisa engajar-se nesse grande trabalho de formação que provoque a sensibilização, a conscientização e a organização da sociedade para a construção de uma nova civilização planetária, regida pela Justiça, a Paz e a Integridade da Criação.

Conclusão

Face a esses desafios e dificuldades, o MF&P tem a convicção de que só terá futuro se continuar fiel a seus princípios fundantes: a espiritualidade político-libertadora que se concretiza de forma macro ecumênica e a opção radical pelos excluídos e excluídas do banquete do mercado. Aqui o desafio que a realidade atual coloca ao Movimento Nacional de Fé e Política nesta fase em que se esboça o 11º Encontro Nacional, a realizar-se em 2019.

Ao inspirar-se na sabedoria do Bem-Viver como referência de sua proposta para o século 21, o Movimento Nacional Fé e Política valoriza a sabedoria dos marginalizados pelos poderes coloniais e recupera as palavras do Apóstolo Paulo: “Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte”. (1Cor, 1, 27). Nesses saberes ignorados pelos sábios da política e desprezados pelo mercado, o Movimento Nacional Fé e Política busca fundar os alicerces de uma “sociedade socialista, democrática, plural e planetária”, da qual fala sua Carta de Princípios.

Questões para reflexão

1. Como a Espiritualidade político-libertadora anima cristãos e cristãs em sua luta junto aos movimentos populares e na política partidária?

2. Cite alguma forma criativa de trabalho político de base a partir da vivência da fé cristã nos tempos atuais.

Textos para aprofundamento

A coleção de textos do Movimento Fé e Política foi digitalizada e está disponível em www.fepolitica.org.br

BOFF, Clodovis (e outros): Cristãos: como fazer Política. Vozes, Petrópolis, 1989 (2ª ed.)

BOFF, Leonardo e Fr. Betto: Mística e Espiritualidade. Rocco, Rio de Janeiro, 1994.

OLIVEIRA, Pedro A. R. (org.): Fé e Política: fundamentos. Ideias e Letras, São Paulo, 2005.

Notas

1 Leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-Graduação em Ciência/s da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC-Minas. E membro de Iser-Assessoria.

2 Leiga católica, nascida em 1942, pedagoga, foi professora de Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo – UFES, trabalhou Centro de Educação Popular do Instituto Sedes Sapienciae e na Prefeitura de Diadema-SP coordenando a Participação Popular / Orçamento Participativo.

3 O texto e sua discussão foram publicados, originalmente, como suplemento de Tempo e Presença, do Centro Ecumênico de Documentação e Informação. Em 1987, acrescido de novos textos, veio a público como livro pela Editora Vozes, de Petrópolis, com o título Cristãos: como fazer política.

4 O encontro realizou-se no Rio de Janeiro em 1988 ou 1989. As discussões realmente acaloradas aconteciam nos intervalos entre militantes ligados a diferentes tendências do PT.

5 O texto original encontra-se no Caderno Fé & Política, nº 1, p. 5-6, com um detalhado registro da reunião de fundação e sua preparação em reuniões anteriores. As mudanças substantivas – e não apenas de forma – foram: a fé como horizonte (em lugar de fundamento último) da utopia; a referência à construção de uma sociedade alternativa ao capitalismo neoliberal; o acréscimo de plural e planetária na qualificação da sociedade a se construir; a rejeição dos valores calcados no individualismo e na absolutização do mercado e a reafirmação, como valores fundamentais para o ser humano, a solidariedade, a cooperação e o direito de todos à vida em plenitude. No parágrafo final, foi acrescentada a ecologia aos serviços de formação.

6 A coletânea dos principais artigos foi publicada em 2005 por Ideias e Letras, com o título Fé e Política: fundamentos. O livro e os Cadernos podem ser acessados em http://fepolitica.org.br/secao/publicacoes/

Dele resultou a publicação de Fr. Betto e Leonardo Boff: Mística e Espiritualidade agora em 6ª edição revista e ampliada.

8 Muito importante foi a criação em 2004 do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara, com a finalidade de incentivar a formação no campo da Fé e Política e articular nacionalmente as escolas locais. Desde sua criação, o CEFEP tem feito boa parceria com o MF&P em vistas à formação de novas lideranças.

O texto foi publicado no  livro 31° Curso de Verão: ÉTICA E PARTICIPAÇÃO POPULAR NA POLÍTICA A SERVIÇO DO BEM COMUM

PDF – Curso de Verão CESEEP 2018 – 0.6MB

 

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