Movimento Fé e Política é tema de tese doutoral

A Profª Camila Faria Pançardes teve aprovada sua tese “A LUTA POR HEGEMONIA DO PT ENTRE OS MOVIMENTOS SOCIAIS. Uma análise crítica do Movimento Nacional de Fé e Política no período dos governos Lula e Dilma Rousseff”, no PPG em Política Social da Escola de Serviço Social da UFF.

por Coordenação.

A autora estudou o trabalho de intelectuais cristãos engajados nas lutas sociais desde a década de 1950 e o regime militar, destacando as CEBs como forma de resistência e luta, que capacitaram as massas populares para serem ‘’sujeitos da sua própria história’’.

A criação de um partido de trabalhadores e para os trabalhadores, em 1980, busca a ‘’utopia do fim da opressão’’ pela via partidária, sendo o PT a novidade daquele período. Dez anos depois, o Movimento Fé e Política surge como resposta política à criminalização das lutas sociais, à crise do PT e ao conservadorismo dentro da Igreja. Intelectuais cristãos vão para as prefeituras e governos estaduais, contribuindo para ampliação das experiências participativas do Partido dos Trabalhadores.

Em 2002 a eleição de um trabalhador metalúrgico sindicalista, Luiz Inácio Lula da Silva, deu novo alento aos interesses da classe trabalhadora. Os anos de governos de esquerda, porém, demonstraram que a conquista do Estado não significou a formação de um bloco histórico dirigido pelos trabalhadores, como ficou demonstrado pela barbárie social nas eleições gerais de 2018, com a vitória de candidatos de ultra-direita.

A experiência dos governos de esquerda e os limites das mudanças realizadas reforçaram as convicções de fé nos projetos populares, nas lutas e na resistência contra a classe burguesa no campo e, suas armas genocidas, de militarização dos conflitos, assassinatos constantes de camponeses e naturalização dos pesticidas como instrumento de trabalho e produção de alimentos, apesar de suas comprovadas ameaças à saude pública. O terror promovido pelo capital no meio rural brasileiro, reforçou a fé e renovou a consciência política dos agentes pastorais e a religiosidade dos camponeses, como instrumento de resistência.

A tese mostra haver uma fragmentação do ideário socialista nas esquerdas e que o MF&P seria uma de suas expressões. Ele representa um novo movimento marcado por características que aprofundam os valores cristãos, pautando-se nas lutas sociais. Sua abertura ao partido representa uma articulação desde as bases, no espaço das experiências municipais de gestão participativa, seja participando no interior de governos locais, seja articulando os movimentos populares para reivindicar direitos e exercer o controle democrático na municipalidade. Portanto, o MF&P não significa uma ruptura com os valores das esquerdas, mas uma sustentação e atualização deles, de forma articulada às lutas sociais e exercendo pressão.

Contudo, o compromisso com os interesses populares afasta o MF&P do Partido dos Trabalhadores, ao defender e articular-se com os valores político-religiosos da teologia da libertação e oferecer uma interpretação atual com base nos interesses dos movimentos sociais não tradicionais, aos quais o partido não tem dado respostas satisfatórias – caso de movimentos indígenas, camponeses, urbanos/Sem Teto, de atingidos por barragens, ecológicos pela defesa da floresta e diversidade ambiental, pequena agricultura e assentamentos rurais, sem terras, mulher, LGBTI+, negros, favelados, etc.