Ecos do 11º Encontro Nacional de Fé e Política

“Retornar às bases é uma urgência”

por Klédson Tiago Alves de Souza.

O Encontro Nacional de Fé e Política realizado em Natal/RN nos dias 12, 13 e 14 desse mês de julho de 2019 caracterizou-se como um espaço de resistência. Talvez o primeiro elemento que me faça dizer isso seja o fato do local de realização, o IFRN. O IF que foi uma conquista árdua de toda sociedade brasileira, uma riqueza de qualidade e possibilidade para os mais pobres ter acesso à educação pública com mais qualidade e investimento; o IF nesse sentido foi naqueles dias uma casa de resistência para nós que sonhamos com um outro mundo possível. Um outro elemento possível de nomear é o conjunto das falas que lá soaram aos nossos ouvidos (razão) e ao nosso coração. A coordenação do evento (equipes do SAR, Cáritas de Caicó e Movimento Nacional de Fé e Política) está de parabéns pela ousadia em armar a tenda para fazer eucaristia com os irmãos e irmãs que entendem que a nossa fé é política, que Jesus Cristo como líder ou centro do cristianismo foi alguém que morreu querendo um outro mundo possível – Reino – e não uma religião.

Dito isso, quero agora abrir diálogo com você leitor sobre a urgência do nosso retorno às bases. Ao que parece, não adianta muito para nós a pergunta sobre o que aconteceu, mas o que interessa-nos saber é como aconteceu e por que aconteceu. Ora, a base esqueceu o que era o Brasil antes do governo de Lula (PT)? Será que a base ascendeu tanto que esqueceu sua identidade de classe? Como Bolsonaro conseguiu cooptar o apoio de parte dessa mesma base, que chorava outrora (2002) com a vitória de um partido popular que há muito tempo vinha tentando mudar a vida de cada brasileiro e brasileira? Será que acertamos em tudo? Aonde erramos? O que faltou?

É fato notório as mudanças sociais ocorridas em 13 anos do Partido dos Trabalhadores no poder. Lembremos que tínhamos um alto índice de pessoas que morriam de fome. O discurso de Lula ao assumir o poder resumiu-se em uma proposição: “Se ao final do meu mandato todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar terei cumprido a missão da minha vida”. Na prática tivemos o Fome Zero. Este foi o primeiro passo para fazer com que a fome fosse extirpada do nosso país. Talvez hoje digamos que não foi o suficiente, mas é preciso entender que vínhamos de um tempo difícil de muitas mortes pela falta de comida na mesa dos pobres.

Não quero me alongar, nem detalhar o que foi o governo do PT. Quero sim que você perceba que em 13 anos não se re-significa as marcas da opressão colonizadora vivenciadas aqui no Brasil durante 500 anos. Agora, é preciso bater no peito e dizer que esquecemos, dentro desses 13 anos, de voltar às bases e atiça-las. Os movimentos sindicais, os movimentos identitários, pastorais sociais, serviços sociais da igreja acalmaram-se a tal ponto que ficaram como que anestesiados. Esquecemos que não basta estarmos no poder (potesta), é preciso ouvir sempre de onde o poder emana (potentia), para que tenhamos a sensibilidade de fazer as escolhas certas, inclusive vendo com quem estamos andando. Ora, os partidos de esquerda são forjados na luta do povo, pelo povo e para povo; carregam em si as marcas doloridas do trabalho explorado, injusto, tendo assim o dever moral e ético de ouvir o povo e a ele dever obediência (poder obediencial), como bem ensina Enrique Dussel. Partido que chega ao poder e ouve o povo constantemente erra menos.

Nesse caminho, percebemos isso tudo e muito mais, porém não podemos ficar na lamúria. Como diz Frei Betto: “Deixemos o pessimismo para dias melhores”. A esperança deve ser aquilo que nos move, e nos faz não desistir de estar na caminhada e lutar pelo Brasil e seu povo oprimido, trabalhador, excluído. Vou contar um segredo: a burguesia fedida do Brasil revestida e escondida em panos finos morre de medo da esperança que nutre a nossa luta.

Sozinho não conseguirei mudar nada, sozinho (a) não conseguirás também. Mas se nós formos convidando alguns amigos, amigas, colegas, conhecidos (as) para abrir diálogo, podemos paulatinamente e pedagogicamente fazer um trabalho de base bem feito, de forma comunitária. A esperança não pode morrer. É possível sim. Bolsonaro não é maior que o sonho que nos trouxe até aqui. Jesus nos ensina isso de forma bela quando diz que “O Reino de Deus é semelhante a um homem que lança a semente sobre a terra. Noite e dia, estando ele dormindo ou acordado, a semente germina e cresce, embora ele não saiba como. A terra por si própria produz o grão: primeiro o talo, depois a espiga e, então, o grão cheio na espiga. Logo que o grão fica maduro, o homem lhe passa a foice, porque chegou a colheita” (Mc 4, 26-29). Jesus, um militante da verdade, do amor e da justiça ensina em linguagem simples que se quisermos mudar essa realidade do Brasil, precisamos plantar a semente agora, se quisermos superar o que aí está posto!

Não percamos a esperança, dias melhores virão!
Sem perder a doçura!

Klédson Tiago Alves de Souza