Pôr os dedos nas chagas dos Crucificados do mundo

por Marcelo Barros.

Nesse 2º Domingo da Páscoa, o evangelho lido hoje nas Igrejas (João 20, 19- 31) revela que todas as vezes que nos reunimos no nome de Jesus refazemos e atualizamos aquele encontro dos discípulos com o Ressuscitado. Hoje vivemos ainda em salas fechadas e temos motivos de ter medo. O mundo atual parece mais inóspito e menos humano do que aquele no qual nasci há mais de 70 anos.

O Brasil dá ao mundo a imagem da arbitrariedade e da violência institucionalizada que, nessa semana, vimos no julgamento do presidente Lula pelo STJ. Mesmo pessoas que se posicionam à direita afirmam claramente que essa prisão é ilegal, portanto injusta. Como de muita gente pobre e marginalizada que não tem como se defender.

Este segundo domingo da Páscoa tinha antigamente o nome de “Domingo in albis”, por causa de um costume do tempo em que a Igreja batizava mais adultos do que crianças. Durante a semana pascal, em todos os atos da comunidade, as pessoas batizadas na noite da Páscoa vestiam as roupas brancas com que tinham se batizado. Nesse domingo depunham essas vestes. E assumiam a condição de cristãos, inseridos na comunidade.

Lembro esse costume antigo porque esse costume antigo que me parece ligado ao que o evangelho conta com Tomé. Ele vivia como “vestido de branco”. Queria crer no Jesus glorificado, mas sabia que para o Ressuscitado ser mesmo o Cristo, tinha de ter chagas. O ressuscitado sem chagas não seria o Cristo verdadeiro. Os outros tinham medo, por isso ficavam em uma sala com portas fechadas…. Mas, ficavam juntos. Ele, não. A fé dele ainda era individualista, era eu e Deus… E não sabia como ligar cruz e ressurreição. (Só se eu tocar nas chagas, vou crer que é real).

O evangelho conta que Jesus se deixa ver e tocar pelos discípulos e discípulas… Ao se mostrar a eles, mesmo com portas fechadas, não mostra nenhuma luz especial. Não fala de vitória nenhuma, não voa, nada parece ter de especial… Só mostra as chagas. É quando a gente tem coragem de mostrar as feridas (interiores e sociais) que temos, só então parece que a vida pode se recompor ou melhor ressuscitar – se torna nova…

O que Jesus mostra em primeiro lugar a seu grupo de amigos e amigas são suas chagas. Jesus é o curador ferido. O que o Ressuscitado traz não é um corpo glorioso e etéreo, mas as chagas da cruz. Assume suas chagas e deixa que sejam vistas. É quando assumimos nossas chagas que podemos receber o perdão do Ressuscitado e nos tornamos anunciadores/as do perdão divino para os outros. E assim essas chagas, do Ressuscitado e as nossas, se tornam como que luminosas. E ao reconhecer Jesus vivo nas pessoas feridas e que resistem, os discípulos se enchem de uma imensa alegria, como a alegria que Jesus havia prometido na ceia quando disse: “Hei de ver vocês outra vez e vocês se encherão de uma alegria tal que ninguém poderá tirar de vocês essa alegria” (Jo 16, 20).

Hoje é o oitavo dia, o dia novo, o primeiro de uma nova história. Como Tomé, assim também nós, eu e vocês, não estávamos no primeiro dia, mas a ressurreição de Jesus se renova para nós hoje. Como Tomé, nós não vimos com nossos olhos, mas podemos tocar nas chagas do Ressuscitado nas pessoas feridas pelas injustiças da vida com as quais nos solidarizamos e com as quais estamos em comunhão.

Tanto na época em que o evangelho foi escrito, como hoje, muitas pessoas creem em um Cristo aéreo, celestial e pouco humano. Há cristãos e mesmo padres que querem Quaresma sem Campanha da Fraternidade. Celebrar a ressurreição sem ter de tocar nas chagas da humanidade de hoje. Como Tomé naquela época, também nós deixamos claro que só cremos em um Jesus histórico, real, com corpo e com chagas. Tocar as chagas de Jesus é aceitar sujar as mãos e ser capaz de reconhecer a presença do Espírito nas vítimas da justiça e da sociedade. É se solidarizar à luta dos trabalhadores que, nessa semana, celebrarão o 1º de maio como dia mundial de luta da classe trabalhadora. Aí sim, o testemunho do Ressuscitado ferido mas vivo, Paz e Alegria, força nas dores e nas lutas.

Jesus ressuscitado ressuscita os discípulos e discípulas e faz eles e elas passarem do medo à liberdade, à paz e à alegria… ao perdão. Ele nos convida, hoje, para essa ação de misericórdia: reconstruir as nossas vidas através do perdão a nós mesmos e do perdão aos outros.

Nessa semana, encontrei uma pessoa que sofria porque não conseguia perdoar a si mesma, deixar o que passou para trás e olhar para frente com amor e alegria interior. Só Jesus ressuscitado pode realizar essa reconstrução de nossa vida… É verdade que, pela nossa ação de misericórdia (solidariedade afetuosa ou seja vivida com o coração – como dizia Santo Agostinho: misericórdia vem do latim: miser cor dare: dar o coração a quem precisa). Não se trata de uma atitude de comiseração ou de pena. É de comunhão que nos impulsiona para frente e é vivida a partir de uma visão de vida nova e inserida. Assumir as feridas uns dos outros e caminhar juntos. Aí vamos ressuscitando…. no dia a dia….

Invoquemos o Espírito Santo – sopremos uns sobre os outros e outras, como Jesus fez sobre os discípulos – ao soprar, refez o gesto que Deus fez com a primeira humanidade terrena ou terráquea (Adão) e assim nos dá não mais apenas essa vida orgânica que integra a dimensão vegetal e animal (e precisa integrar), mas também a vida nova do Espírito dele ressuscitado que recebemos para viver…