Editorial – Dezembro de 2017

Natal nos dias de hoje

Pedro A. Ribeiro de Oliveira

… deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem. (Lc 2,7)

Ao adotar o dia 25 de dezembro para festejar o nascimento de Jesus, as comunidades cristãs do século IV associaram a imagem do Ressuscitado ao Sol invencível, divindade de grande prestígio no império romano. Após dois séculos de perseguição, isso provavelmente dava sensação de vitória aos seguidores e seguidoras de um condenado à morte pelo mesmo império. Com o passar dos séculos, desapareceu a lembrança do Sol invencível e ficou só a imagem de Jesus como poderoso salvador que vence todas as trevas e traz a única luz verdadeira. Essa imagem é fascinante e alimenta a esperança de quem sofre opressões e anseia por libertar-se, mas devemos reconhecer que para muitos cristãos ela perdeu a plausibilidade: quando a experiência vivida mostra a força esmagadora do capital, não é mais razoável dizer que Jesus é vencedor do mundo.

O império romano desapareceu, mas outra forma de dominação imperial foi-se constituindo na Europa nos primórdios da Idade moderna: o sistema-mundo baseado no mercado sob o controle do capital. Sua globalização na segunda metade do século passado estendeu a toda a Terra o domínio desse império econômico, que supera o poder político dos Estados nacionais. Para esse império do mercado o natal voltou a ser a celebração do triunfo do novo Sol invencível: o dinheiro que tudo pode porque tudo compra. O profeta contemporâneo usa a propaganda para proclamar “felizes são vocês, os ricos, que fazem uma requintada ceia de natal enquanto dão e recebem presentes caros!”. Esse novo Sol invencível tem o brilho fascinante do poder de satisfazer os desejos. O fascínio é tanto, que seus adoradores se tornam insaciáveis: quanto mais dinheiro têm, mais querem ter. E quem não tem, admira e reverencia quem tem, como se a riqueza fosse sinal de virtude moral. Nesse contexto só falta o profeta explicitar a exclusão proclamando: “infelizes são vocês, os pobres, que não ganham o bastante para presentear suas crianças nem para cear no natal”.

De maneira menos violenta mas não menos cruel do que o império romano, também o atual império do mercado oprime e exclui quem luta por outro reino, Reino onde a Paz e a Justiça se abraçam. Por isso a festa do novo Sol invencível não é a festa de quem, como nós, quer a Paz na Justiça. Gostamos de nos reunir em família ou com nosso círculo de amizade, comer e beber algo de especial, e mesmo presentear nossas crianças, mas intuímos que não é essa a forma mais adequada de celebrar o início da caminhada de libertação anunciada pelos profetas e profetizas do Primeiro Testamento e inaugurada com a ressurreição de Jesus de Nazaré. Caminhada cheia de tropeços, desvios e atoleiros, mas apesar de tudo uma caminhada bonita e alegre porque movida pela Fé, alimentada pela Solidariedade Humana e puxada pela Esperança. Para celebrá-la, devemos recuperar a mensagem que Lucas e Mateus colocaram na narrativa do nascimento de Jesus em Belém.

Maria e José estavam na região onde viveram seus antepassados, mas não tendo encontrado lugar nas hospedarias, refugiaram-se num local reservado aos animais para que Maria desse à luz o filho que trazia no ventre. Ninguém na vizinhança deu atenção ao evento, até que pastores – marginalizados por não serem puros – receberam o anúncio do anjo que dizia ter nascido o Messias tão esperado pelos pobres de Israel. Essa notícia acabou chegando aos ouvidos de Herodes que, temendo pelo futuro do seu reino, mandou massacrar as crianças da Judeia. Como toda narrativa mítica, também esta leva múltiplas mensagens e pode ser interpretada de diferentes maneiras. Para quem vive uma espiritualidade político-libertadora, destaca-se o caráter contraditório do evento narrado pelos evangelistas: ele é Boa-Notícia para os pastores, mas causa tanta apreensão ao poderoso rei Herodes que ele manda matar a criançada.

Hoje essa memória subversiva caiu no esquecimento e nosso Salvador já não amedronta ninguém. Seu lugar foi ocupado por um Papai-noel bonachão que não derruba poderosos de seus tronos, não enche de bens os famintos nem despede os ricos de mãos vazias… Cabe então a quem leva a sério o caráter interpelador do Evangelho recuperar a festa do Natal como inauguração da caminhada dos pobres em busca da sua libertação – que é a salvação de toda a humanidade.

Então devemos partir do começo: “não havia lugar para eles”. De fato, o mundo do mercado rejeita quem não se submete à sua regra fundamental: o triunfo do mais competitivo. Precisamos então construir espaços sociais onde as leis do mercado se submetam às leis da solidariedade e da partilha dos bens. É nesse espaço – o espaço da casa, em primeiro lugar – que o natal deve ser celebrado, na simplicidade e com alegria. Melhor ainda se a celebração se faz com os excluídos do banquete do mercado: gente sem teto, sem terra ou sem trabalho, ou então refugiados e migrantes, como tem insistido o papa Francisco. Seja como for, celebrar a partilha do alimento e da alegria e gozar a Paz antevendo seu encontro com a Justiça. E assim ouvir, como os pastores, o anúncio do anjo a dizer que o grande dia da Salvação já raiou.

Se o golpe de 2016 instaurou um tempo de trevas, o natal de 2017 será o raiar de um novo tempo de luz, não pela ilusão do Sol invencível mas pela Alegria do Evangelho que garante que o Reino do Pai maternal já está no meio de nós. Assim podemos nos desejar FELIZ NATAL!

Juiz de Fora, 16/dez. 2017

 

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