Sínodo – Novos Caminhos para a Igreja e para a Ecologia Integral

Sínodo para a Amazônia
Sínodo para a Amazônia
Fonte: diocesetb.org.br

Estamos vivendo um momento de graça na Igreja Católica com a realização do Sínodo para Amazônia, com o tema: “Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”. A assembleia sinodal ocorre de 6 a 27 de outubro em Roma.

por Daniel Seidel.

É um “Kairós”, palavra grega que significa tempo de graça, tempo oportuno, que não tem a dimensão “do relógio” (kronós, em grego), mas a densidade necessária para que novas percepções aconteçam e a ação de Deus atue para transformar o rosto (a práxis) da Igreja em conjunto com as forças vivas da região no compromisso profético em defesa da vida plena dos povos e da floresta.

Desde a convocação em outubro de 2017, atendendo a um pedido dos bispos brasileiros da Amazônia, houve intensos passos para preparação:

  1. O encontro de diálogo do papa Francisco, com os povos indígenas da Amazônia, em janeiro de 2018, em Puerto Maldonado, Peru;
  2. A convocação do Conselho Pré-Sinodal e equipe de peritos com participação de Cristãos leigos e leigas e da vida religiosa consagrada feminina, em fevereiro de 2018;
  3. O Documento Preparatório baseado no “ver, discernir e agir”, com 30 perguntas para escuta qualificada dos povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia, das CEBs, do Laicato, da Vida Religiosa Consagrada, de diáconos e padres, dos bispos, dos movimentos sociais, de acadêmicos e do povo das grandes e médias cidades da região, realizada de junho de 2018 a janeiro desde ano;
  4. A síntese brasileira e panamazônica, com a participação direta e de modo coletivo de mais de 80 mil pessoas; até chegar ao…
  5. Instrumento de Trabalho – organizado em três partes: as vozes da Amazônia, ecologia integral e profecia da Igreja – com as propostas dos povos e comunidades, que servirá de roteiro para os dias de oração, reflexão e discernimento durante a Assembleia do Sínodo no Vaticano.

Contamos para preparar esse momento com um Grupo de Reflexão sobre o Sínodo da Amazônia no âmbito da CNBB, com a participação iluminadora e experiente de Padre Oscar Beozzo, que desde sua fragilidade física, trouxe o vigor das experiências vividas durante o Concílio Vaticano II e da Conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho em Aparecida (2007). Seminários específicos foram realizados, Encontro dos teólogos de Ameríndia e, finalmente, em agosto, o Pré-Sínodo, em Belém, presidido pelo relator-geral, Dom Cláudio Hummes, acompanhado pelos dois subrelatores. Neste encontro, após os incêndios criminosos provocados na Amazônia, a defesa de temas socioambientais teve posição unânime dos bispos presentes – os “padres sinodais” – sobre os novos caminhos para a Igreja, e muita convergência na perspectiva profética para enfrentar os grandes projetos que depredam o bioma e cometem etnocídio dos povos. A divergência de um grupo minoritário deu-se acerca dos ministérios ordenados, marcadamente quando se amplia o clamor pelo reconhecimento do papel das mulheres na Igreja da Amazônia.

Tendo a graça de acompanhar toda caminhada, como assessor da REPAM Brasil, afirmo que o processo sinodal provocou a conversão pastoral e ecológica na maioria das igrejas locais na Amazônia, aproximando-as dos movimentos sociais e das lideranças dos povos indígenas e comunidades tradicionais: em toda parte se fala de passar de uma pastoral da “visita” para uma pastoral da “presença e da permanência”, numa experiência de Igreja “mãe e irmã”, ou seja, de rosto e jeito feminino, que cuida e está junto, principalmente, nas lutas e resistências mais difíceis.

Há boa expectativa quanto à realização da Assembleia Sinodal em Roma, visto que poderá denunciar o agravamento de sua destruição com anuência do atual executivo federal do Brasil e convocar homens e mulheres do mundo inteiro para cooperarem com os projetos econômicos socioambientais que afirmam a essência da Ecologia Integral e da prática ancestral do Bem-Viver dos Povos da Amazônia.

Podemos nos juntar a esse grande mutirão, acompanhado as deliberações do Sínodo para Amazônia e contribuindo para que a exortação apostólica pós-Sinodal se torne realidade nos caminhos para a Igreja. A tarefa é enorme, pois “tudo está interligado” e “vamos precisar de todo mundo: um mais um é mais que dois”, como ensinam os poetas.

Que o sangue das e dos mártires, derramado nas terras amazônicas, não nos deixe calar. Informações adicionais poderão ser obtidas no acesso ao portal da REPAM Brasil. Há uma “Tenda da Amazônia” em Roma com amplo calendário de atividades e celebrações diárias, e há uma proposta de tríduo para ser realizado em todas as comunidades nas três semanas do Sínodo, que pode ser baixado a partir do portal informado #euapoioasínodo, #euapoiopapaFrancisco.

Daniel Seidel, 52 anos, é mestre em Ciência Política pela UnB, membro da CBJP/CNBB e assessora a REPAM Brasil; integra a coordenação nacional do movimento fé e política.