Ser Profeta em 2019

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo, refletiu sobre o que é ser profeta hoje, 2019, no Curso Oscar Romero em Santa Maria, Rio Grande do Sul, no início de janeiro:

Por uma Espiritualidade sócio-política libertadora’.

Nas palavras de Marcelo Barros, a espiritualidade do profeta Nabi (profeta, em hebraico) é:

– Ter consciência do chamado;
– Buscar a intimidade divina;
– Aprimorar a capacidade de escutar;
– Formar células de resistência, filhas e filhos da resistência, as minorias abraâmicas, na síntese profética de Dom Hélder;
– Assumir a marginalidade e o risco do deserto;
– Exigir de si mesmo a coerência.

Marcelo Barros resumiu a espiritualidade de Jesus em três pontos:
1.Centralidade do projeto divino para o mundo – A vontade do Pai: seu Reino – A Mística do Reino;
2. A vinda desse projeto exige a transformação radical de todas as estruturas do mundo.
3. Cria uma nova relação de comunhão e amor entre as pessoas e com a terra.

O que é ser profeta hoje, 2019, no Brasil, na América Latina, no mundo?

O décimo primeiro Encontro do Movimento Fé e Política, que vai acontecer de 12 a 14 de julho em Natal, Rio Grande do Norte, quando o Movimento completa 30 anos, tem como tema: POLÍTICAS PÚBLICAS E ALTERNATIVAS SOCIAIS: SINAIS DOS TEMPOS NA CONSTRUÇÃO DO BEM VIVER.

O tema da Campanha da Fraternidade/2019 é ‘Fraternidade e Políticas Públicas’. O lema, profeticamente, é ‘Serás libertado pelo Direito e pela Justiça’ (Is, 1, 27). Diz o texto-base da CF/2019, em ‘Os profetas e o anúncio da justiça’: “117. Deus se revela no Antigo Testamento como aquele que viu a miséria de seu povo e ouviu o seu clamor, descendo para libertá-lo (Ex 3, 7-8) e, por isso, essa experiência libertadora se constituiu o centro da fé do povo de Israel. (Dt 26, 5-9). É também o paradigma da pregação dos profetas, que tentam reorientar a vida do povo em direção ao direito e à justiça, pois, para conhecer a Deus, é preciso praticá-la. Eles proclamam, por isso, sem cessar, o direito do pobre.”

Diz o texto-base da Campanha da Fraternidade no número 12: “A participação dos cristãos na sociedade possibilita fortalecer a vida social nas suas relações. Construir uma fraternidade, cuidar do bem comum e fortalecer a cidadania expressa a força transformadora do Evangelho no cotidiano das comunidades. A política é essencialmente o cuidado para com o que é comum e realizar ações que ajudem na integração de todos na sociedade. Políticas Públicas como ações comuns, públicas, pertencentes a todos. É tarefa de todo o cristão participar na elaboração e concretização de ações que visem a melhorar a vida de todas as pessoas. Fazer obras de misericórdia!”

Nos tempos absolutamente conturbados vividos hoje, muitos são os desafios, para quem está nas pastorais sociais, nos movimentos populares, no Movimento Fé e Política, na política partidária, em mandatos e governos. São tempos de extrema desigualdade econômica e social, de dominação de países, de exclusão, rejeição e marginalização de migrantes, de preconceitos de todos os tipos, de discriminação, de intolerância e ódio, de valores predominantes do egoísmo e ganância, de destruição da natureza e do meio ambiente. Tempos muito difíceis e que exigem vozes proféticas.

Ser profeta nos tempos atuais é isso, ou pode ser isso: assumir a marginalidade e o risco do deserto. As utopias estão em frangalhos. A passagem pelo deserto, no seu sentido de solidão, de experimentar a dor e o sofrimento, pode visualizar novos horizontes e utopias. As minorias abraâmicas são ou podem ser luz e esperança. Mas para isso é preciso enfrentar e viver, com coragem, como células de resistência, anunciando o novo que virá, mais cedo ou mais tarde, a Terra Prometida, o Reino do direito e da justiça.

Ser profeta nos tempos atuais é criar uma nova relação de comunhão e amor entre as pessoas e com a terra: um Reino de paz e solidariedade, a Pátria Grande, com outros valores, não capitalistas, não exploradores da natureza, de diálogo com os seres humanos e todos os seres vivos.

Ser profeta é defender relações democráticas, políticas em vista da Casa Comum, com coerência de vida, de ações, de ideias, com total solidariedade, com práticas éticas no cotidiano, na ação política, na vida institucional, com a mística dos que celebram o que vivem e vivem o que celebram.

Eis o que é ser profeta em 2019:

Lutar pelo Direito e pela Justiça: oportunidades iguais, garantia de partilha dos bens, da renda, da riqueza e do poder; defesa intransigente dos humilhados e ofendidos, dos pobres e oprimidos, dos jovens, das negras e negros, do povo LGBTT, das mulheres, dos indígenas, dos quilombolas, da população em situação de rua, dos sem-terra e dos sem-teto; política como cuidado da ‘pólis’ e do bem comum; fortalecimento da cidadania.

Construir Políticas Públicas e Alternativas sociais, com participação social e protagonismo popular: Economia Solidária, Conselhos e Conferências, debate e deliberação democrática do orçamento público.

Construir o Bem Viver: a Casa comum, a ecologia integral, a Pátria Grande, o Reino do Direito, da Igualdade e da Justiça.

SelvinoHeck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)