O Brasil depois da paralisação: e agora?

A paralisação dos caminhoneiros acendeu um sinal de alarme no cenário político e social brasileiro. Todas as instituições – exceto o mercado, que regula as transações econômicas – perderam mais um pouco de sua credibilidade e algumas estão a desmoronar. O governo surgido do golpe de 2016 já acabou, mas seus ocupantes se recusam a deixar seus cargos e continuarão a oprimir o povo – especialmente os pobres – enquanto isso for do interesse das grandes corporações financeiras e suas subsidiárias nos setores do agronegócio e do petróleo. Nesse cenário, o Movimento Nacional Fé e Política é desafiado a apontar alguma pista de ação para quem luta por uma sociedade do Bem-Viver.

Há muitas pessoas descontentes. Elas rejeitam a ordem institucional que aí está e clamam por outra ordem política, social e econômica, esperando que ela venha por meio de alguma força extraordinária, como uma intervenção militar, a volta de Lula ao governo, uma greve geral ou alguém enviado por Deus. Essas pessoas nos desafiam a retomar o trabalho de formação política onde se aprende que o melhor meio para a transformação da sociedade é a organização popular desde as bases.

Esse trabalho de formação política precisa levar em conta as mensagens dadas pelos caminhoneiros e pelo povão que os apoiou. Tal como os movimentos de rua em junho de 2013 e as ocupações de escolas por estudantes secundaristas, são manifestações políticas que rejeitam partidos, sindicatos e até mesmo ONGs, e não têm como alvo o poder de Estado. Seriam uma nova forma de fazer política? Ou um povo sem rumo, sem direção e sem percepção do valor da dimensão organizativa? A resposta que se der a essas questões determinará o nosso trabalho de formação política.

Os partidos, centrais sindicais e grupos de esquerda – que nos habituamos a ver como polos de convocação para a luta – parecem sem estratégia para atuar no atual cenário e ficam na penumbra. Dão a impressão de aguardar a inércia da sociedade até o pós-copa do mundo para só então voltar à ação na campanha eleitoral.

Pelo lado das Igrejas, é evidente seu baixo teor de profetismo. A Igreja católica se atém ao calendário litúrgico e parece ignorar os sinais do tempo presente, o que a torna incapaz de alimentar a espiritualidade de quem busca Paz e Justiça nesta Terra. Até mesmo os apelos do Papa Francisco, com sua leitura acertada e sua voz profética sobre um mundo em ruínas e um sistema econômico que mata, parecem não ecoar com a devida força na base nem na hierarquia clerical de nosso país. Ao contrário, a realidade eclesial revela-nos haver mais resistência que adesão à voz pontifícia de Francisco. O CONIC procura ser aquela voz profética das Igrejas, mas sua força convocatória não tem sido suficiente para mobilizar as bases eclesiais que são tentadas a adotar estratégia similar à dos grandes “templos” neopentecostais: abrir espaços para candidatos do atual governo, negociando seus votos para atender interesses corporativos.

Se está difícil encontrar uma orientação segura nas grandes instituições, temos que voltar os olhos para nós mesmos! Há esperança e expectativas em relação ao MF&P porque há trabalho de base e há práticas efetivas de novas formas de ação política em diferentes regiões do país. Embora poucas consigam vencer as barreiras das fake news, das redes sociais, e até mesmo da própria imprensa “alternativa”, elas são sinal de que algo novo está em curso.

Aqui reside o desafio atual ao MF&P em sua preparação do 11º Encontro Nacional: abrir espaço de debate sério e responsável sobre as experiências em curso nas diferentes regiões do Brasil e o possível surgimento de uma nova forma de fazer política a partir das mobilizações sociais. Entendemos que esse desafio também é do conjunto das Escolas de Fé e Política, das Pastorais Sociais, dos movimentos e demais organizações que se preocupam com a construção de uma sociedade do Bem Viver, com as lutas em defesa da justiça social e superação das desigualdades aqui e agora. Por isso, chamamos todas e todos a fazermos juntos essa reflexão e pensarmos nos caminhos a seguir para enfrentarmos esses e outros desafios que a conjuntura tem nos impostos.

Apesar das dificuldades materiais, estamos animados e esperançosos, sustentados pela Fé. Por isso, acreditamos que o MF&P saberá ler os “sinais dos tempos”, como pedia Jesus a seus discípulos e discípulas pouco antes de ser preso e condenado.

Antônio Lisboa e Pedro A. Ribeiro de Oliveira
Membros da Coordenação Nacional do MF&P

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