O Bem-viver e o próximo Encontro Nacional

O 11º Encontro Nacional de Fé e Política – ENFP – com o tema “Democracia, Políticas Públicas e Alternativas Sociais: Sinais dos Tempos na Construção do Bem-Viver”, encontrará um cenário bem diferente dos encontros realizados entre os anos 2000 e 2016, que tiveram a função de abrir pistas para a “construção de uma sociedade socialista, democrática, plural e planetária” – como propõe a Carta de Princípios. Com surpresa, porém, vimos o atual presidente proclamar o “fim do socialismo” no Brasil! É óbvio que não se extingue o que não chegou a existir, mas em sua linguagem tosca ele anunciou que seu governo não defenderia os Direitos Humanos por meio de Políticas Sociais. De fato, o bloco ultraliberal que assumiu o poder político já começou o desmonte dos organismos voltados para a proteção da sociedade enquanto reforça os mecanismos de proteção ao sistema financeiro – e seu projeto de reforma da Previdência Social deixa isso evidente. Num cenário assim, cabe perguntar se ainda faz sentido a proposta política do Bem-Viver.

Foi em 2011 em Embu das Artes – SP, que o 8º ENFP levantou a bandeira do Bem-Viver como forma de superação do capitalismo por um modo de produção e consumo respeitoso dos Direitos Humanos e dos Direitos da Terra. Sua recepção por muitos grupos e escolas de fé e política mostra que eles perceberam a pertinência da crítica dos povos andinos ao pensamento desenvolvimentista: elaborado a partir de matrizes coloniais, ele nunca levaria os povos colonizados ao mesmo patamar do chamado “primeiro mundo”. Era preciso inspirar-se nas culturas ancestrais de Nossa América para encontrar alternativas realmente nossas. Assim chegamos ao Bem-Viver como uma proposta de superação do neoliberalismo, do neodesenvolvimentismo e até do socialismo. Aí reside sua originalidade.

Ao combinar a sabedoria dos antigos e os avanços dos movimentos sociais contemporâneos, o Bem-Viver recria um antigo conceito para dar novo sentido às lutas contra o capitalismo em sua forma globalizada e neoliberal. A tradução brasileira pode induzir ao erro de confundir o Bem-Viver com um “viver de modo eticamente correto”. Por isso convém manter a expressão em itálico, de modo a realçar a originalidade do seu conteúdo político e mobilizador, ou seja, de mudança no próprio modo de pensar. O Bem-Viver afirma que a vida se dá nas relações (1) consigo mesmo, (2) com outras pessoas do mesmo grupo, (3) com grupos diferentes, (4) com a Mãe Terra (5) seus filhos e filhas de outras espécies e (6) com o transcendente ou espiritual. Essa vida será boa na medida em que promova relações harmoniosas: que as diferenças não sejam abolidas mas sim articuladas conforme a Justiça para resultar num ambiente de Paz.
Aqui entra o problema que hoje enfrentamos: como fica o Bem-Viver quando a lama de dejetos da Vale deixa mais de trezentas pessoas mortas ou desaparecidas em Brumadinho, policiais recebem autorização para matar qualquer pessoa que lhes pareça suspeita, bolsas-família são canceladas e volta a fome nas comunidades de periferia, e até Francisco é visto como inimigo do Brasil por defender os povos e a ecologia da Amazônia?

Esses fatos enchem de indignação qualquer pessoa sensível aos Direitos Humanos e da Terra. Mas a indignação precisa ser trabalhada para não descambar para a sensação de impotência diante da força das empresas que, guiadas pela busca do lucro, encontram defensores nas diversas esferas do poder da república e da sociedade, aí incluídas igrejas, a mídia e outras agências formadoras de opinião. O Bem-Viver seria capaz de canalizar essa indignação para uma ação eficaz em defesa dos Direitos Humanos e da Terra?

Sim! A indignação diante da crueldade embutida na política macroeconômica de Paulo Guedes é, sem dúvida, o primeiro passo para impedir o seu êxito, mas sob a condição de seguirem-se outros passos: a coleta de informações confiáveis, sua difusão por meio de grupos formados desde as bases, e a organização de amplas frentes de resistência. Mas essa oposição à investida liberal patrocinada pelo setor financeiro e grandes empresas transnacionais não terá êxito se limitar-se a defender a situação anterior. Seu sucesso dependerá da sua capacidade de propor algo novo em termos de Direitos Sociais.

Aqui situa-se a contribuição do Bem-Viver como superação da sociedade capitalista por meio do respeito aos Direitos de toda a Comunidade de Vida da Terra. Levar a sério a sabedoria do Bem-Viver implica também “pensar globalmente e agir localmente”, o que significa – hoje mais do que nunca – ter os pés firmes na base local e os olhos voltados para o horizonte das articulações de âmbito nacional, continental e planetário.

O Movimento Nacional Fé e Política é desafiado a encontrar formas viáveis de levar essa proposta do Bem-Viver aos variados grupos que hoje buscam uma alternativa à situação desumanizante na qual seremos condenados a viver caso se consume o triunfo liberal. Nesse cenário o 11º ENFP será um passo importante nas lutas pela construção de uma sociedade onde a Justiça e a Paz reinem em âmbito planetário.

Pedro A. Ribeiro de Oliveira – Membro da Coordenação Nacional – Juiz de Fora MG