Espiritualidade e Profetismo: urgências contemporâneas para a libertação

“Se permanecerdes fiéis à minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos; conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á” (Jo 8,31)

Pode parecer senso comum insistir na afirmação de que o mundo contemporâneo está em verdadeira ebulição, em crise que aparenta não ter fim. E essa percepção não decorre dos índices de mobilidade social, de crescimento econômico, tampouco da superação da pobreza, da diminuição da violência; menos ainda por causa de distribuição da riqueza socialmente produzida. Ainda que vivamos os efeitos do que podemos chamar de 4ª revolução tecnológica, convivemos, paradoxalmente, com uma situação em que tanto o mundo natural quanto o social sofrem as dores e demais consequências de uma guerra insana contra a própria vida, que tem colocado em risco a subsistência humana e ambiental, entendidas aqui como um só corpus, na perspectiva do que o Papa Francisco chama de “ecologia integral”.

A economia da sociedade capitalista tem dado passos largos rumo à destruição da vida, do planeta. No Brasil, essa realidade pode ser observada, por exemplo, do ponto de vista ambiental, a partir da política governamental que insiste na liberação de novos agrotóxicos, cada vez mais potentes no ataque à diversidade biológica; na opção pela implantação de novas matrizes energéticas, cujos megaprojetos e seus efeitos ambientais e sociais ainda são absolutamente desconhecidos pela grande maioria da população.

Do ponto de vista social, a escolha governamental pela implantação de uma política destruidora dos direitos dos trabalhadores, mesmo aqueles definidos na Constituição Federal de 1988 como “direitos subjetivos inalienáveis” (educação e seguridade social, por ex.), constitui-se a expressão maior do interesse macroeconômico de levar ao extremo toda e qualquer possibilidade de exploração da vida, transformando-a num grande negócio em que os fins do lucro e da dominação justificam os meios. A grave realidade de crescimento vertiginoso da violência, sobretudo contra a mulher, dos índices de suicídio entre adolescentes e idosos, do desemprego e consequente falta de perspectiva de inserção social por parte das juventudes, dentre outros, são parte das características mais pulsantes da sociedade brasileira, em particular, e do mundo contemporâneo, em geral.

Olhando a conjuntura numa perspectiva dialética e com os olhos da fé, torna-se inevitável saltar aos nossos olhos a força de uma práxis religiosa que, por mais contraditório e paradoxal que isso seja, persiste em separar fé e política, alimentando uma certa “espiritualidade” que, de tanto promover ou instigar nos fiéis a “elevação do olhar” na direção dos céus, acabam por enrijecer os olhos do corpo e do espírito, impedindo ou dificultando a necessária sintonia espiritual que integra a todos no verdadeiro corpo místico de Cristo [a Igreja]. Não são poucos os movimentos e organizações que, por dentro e a partir das igrejas cristãs, têm vivenciado uma espiritualidade que não corresponde às exigências do nosso tempo. Além de preocupação, trata-se de um desafio ainda maior para os que acreditam numa espiritualidade libertadora.

Para nós, cristãos e cristãs, o Espírito que nos move e alimenta em nós a luta e a esperança por um mundo solidário, de paz e de justiça, é o mesmo, encarnado na pessoa de Jesus Cristo. Viver a espiritualidade cristã é adotá-la como práxis de vida, como modus vivendi que nos impulsiona na direção do outro, simplesmente porque no outro nos encontramos. Só é possível alcançarmos a plenitude da vida na relação com o próximo e com a natureza, e é nessa relação que o Espírito Santo age. Vivendo com Ele e a partir dEle, somos instigados a uma fé inquieta, que faz transbordar em nós uma práxis profética sem a qual não há efetiva e consequente identidade cristã.

Como é possível rezar como Cristo nos ensinou – Pai nosso… o pão nosso… venha a nós o vosso Reino… – numa conjuntura em que privatizamos e aprisionamos o próprio Deus no espelho narcísico de cada um? Num mundo em que o outro não tem lugar, a vida não tem valor nem poderá ser vista a partir da mística concebida pelo apóstolo Paulo (1Cor 12,12-14). Sentir-se parte de um mesmo corpo! É este sentimento de pertença (mística) que nos eleva a uma espiritualidade libertadora.

Inspirados no próprio Jesus Cristo – Sacerdote, Profeta e Rei – colocarmo-nos a serviço uns dos outros e, assumindo nosso profetismo [individual e coletivamente], fazermos realizar o reino que Ele nos comunicou: nisto consiste a práxis de uma espiritualidade cristã libertadora.

O compromisso de fé nos dias atuais exige de nós analisarmos a realidade socioambiental (Ver), identificarmos o que Jesus Cristo faria ou o que devemos e podemos fazer (Julgar) e assumirmos uma postura profética (Agir), especialmente denunciando as políticas que nos destroem, o sistema que nos desumaniza, nos aprisiona no interesse egoísta, nas posturas narcísicas, na busca do poder… Do mesmo modo, combater o bom combate (1Tim 6,12), enfrentar as injustiças sociais e organizar o povo também é missão da igreja.

Quando do anúncio do Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII proferiu uma célebre frase: “abram as janelas da Igreja” para que ela veja lá fora, e deixe entrar novos ares. Com a Evangelli Gaudium, o Papa Francisco nos convida e nos impulsiona a sermos uma “igreja em saída”, convertida em suas estruturas, reconhecendo a necessidade urgente de mudanças na ordem social.

Nessa perspectiva, não só o tempo quaresmal, mas a própria realidade exige de nós o fortalecimento de uma espiritualidade profética, libertadora, sintonizada e alimentada no mesmo e único Espírito que nos “liberta pelo direito e pela justiça” (Is 1, 27). Mas somente alcançaremos esse reino se permanecermos unidos e recuperarmos a força da coletividade, do próprio povo de Deus que caminha, passo a passo.
É com esta espiritualidade que pretendemos vivenciar o 11º Encontro Nacional de Fé e Política, a se realizar em Natal-RN, de 12 a 14 de julho deste ano.

Prof. Antônio Lisboa Leitão de Souza
Diac. Permanente – Diocese de Campina Grande-PB
Em 09.04.2019.