Encruzilhadas da sociedade brasileira

Após 100 dias do atual Governo Federal, não restam dúvidas que vivemos em “tempos de guerra”: um ataque frontal aos direitos sociais e ambientais, neste momento protagonizado pela proposta de Reforma da Previdência (PEC 06/2019) e pelas mortes e consequências graves do crime socioambiental da Vale em Brumadinho que continua a clamar aos céus.

por Daniel Seidel.

A velocidade da transformação de políticas públicas em “negócios” marca o período. Houve durante o mês de abril um requinte de crueldade: a revogação inconstitucional de Conselhos de Políticas Públicas e da política de Participação Social no estado brasileiro, por meio da publicação do Decreto presidencial nº 9.759/2019.

É uma afronta à Campanha da Fraternidade de 2019, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que tem como tema “Fraternidade e Políticas Públicas” e por objetivo “estimular a participação em políticas públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de fraternidade”. Ela incentiva a participação de cristãos leigos e leigas em conselhos de políticas públicas.

Impossível ficarmos calados(as) diante dessas atrocidades que retiram direitos e agravam a pobreza e a miséria, jogando milhões de famílias no desemprego e no desespero. Enquanto isso, nenhuma notícia na grande mídia brasileira diante das manifestações populares pela libertação de Lula e das repercussões de sua entrevista depois de um ano de silêncio imposto pela justiça brasileira; que mediante pressões internacionais, cedeu ao direito de expressão do ex-presidente.

Por onde ir? Muitas pessoas de fé se perguntam: onde alimentar nossa esperança? Em quem acreditar?

A luz do profetismo atual é liderada pelas mulheres, principalmente dos Povos Indígenas que, em abril, durante o Acampamento Terra Livre em Brasília, protagonizaram enfrentamentos importantes para que a FUNAI retome seu papel essencial na demarcação de Territórios Indígenas. Não há outro caminho senão a luta organizada dos povos indígenas, comunidades tradicionais, classes trabalhadoras, excluídos e excluídas em associação com as organizações da sociedade civil, movimentos sociais e partidos da oposição para enfrentar essa avalanche de ataques.

Nossa esperança se funda no mistério da vida que se renova em Jesus ressuscitado e em suas manifestações na história dos povos e da mãe-Terra que se renova com o ciclo das estações. É investindo no diálogo, cuidando da criação e protegendo defensoras e defensores de Direitos Humanos e comunidades ameaçadas que vamos vencer os sinais de morte atuais.

A experiência de escuta promovida pelo Sínodo da Amazônia, convocado pelo Papa Francisco, aponta profeticamente novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral. Isso causa irritação em altas instâncias do atual Governo Federal.

Há expectativa de que a renovação das direções da CNBB, da Conferência Nacional dos Religiosos (CRB) e do Laicato (CNLB) favoreça a linha pastoral e ecológica da Igreja e seu compromisso com a mobilização e organização do povo brasileiro contra a opressão que nos assola.

As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, junto com os movimentos sociais e as centrais sindicais, somados aos Organismos Eclesiais e Pastorais Sociais chamam para mobilizações de rua, com indicativo de greve geral ainda no mês de maio. O ponto de unidade na mobilização é contra a destruição do sistema de Previdência pública e solidária, para que essa parte da Seguridade Social não seja entregue nas mãos do “mercado”, que exige sacrifícios cotidianos das classes trabalhadoras em troca da “capitalização” e seu ilusório futuro.

Por todo país são promovidos encontros regionais e estaduais de Fé e Política em preparação ao 11° Encontro Nacional Fé e Política em Natal RN, de 12 a 14 de julho. Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Ceará se juntam no mutirão para aprofundar o tema “Democracia, Políticas Públicas e Alternativas Sociais, como sinais dos tempos na construção do Bem-Viver”, numa grande mobilização para o 11º Encontro Nacional.

A encruzilhada atual da sociedade brasileira é exigente e decisiva. Formar novas lideranças e organizar as lutas pelos Direitos Humanos e da Terra é o caminho para o Brasil – país rico, mas tremendamente desigual – fique livre dos desmandos dos poderosos. A memória histórica das lutas, dos mártires da caminhada e das resistências deve iluminar nossa resiliência. Por isso, denunciamos os lucros exorbitantes dos bancos frente à crescente miséria de nosso povo, e exigimos: auditoria da dívida pública, já! Resistiremos, “ninguém solta a mão de ninguém”!

Uma campanha promovida pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs propõe que cada pessoa tire uma foto sua ou grave seu vídeo com a frase: “Eu, (diga seu nome), brasileiro(a), (diga sua categoria profissional ou condição social), não aceito essa reforma da Previdência” segurando um pequeno cartaz com os dizeres: #EuNãoAceitoEssaReformadaPrevidencia, e divulgue em suas redes sociais.

O que o momento nos exige hoje é, como bem lembrava Dom Paulo Evaristo Arns: coragem!

Daniel Seidel
Daniel Seidel é membro da CBJP da CNBB e integra a Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política.Política.