Em tempos de pós-verdade, que comunicação construir?

Em tempos de pós-verdade, que comunicação construir?
Seminário de Comunicação - Foto Acervo

Com fúria e raiva
Sophia de Mello Breyner Andresen

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra.

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“Há palavras que ferem como espada, mas a língua dos sábios traz a cura.”
(Provérbios, 12:18).

Foi com espírito reflexivo e vontade de encontrar caminhos que o Movimento Nacional Fé e Política realizou seu seminário de formação entre os dias 22 e 24/11/2019 com o tema Estratégia de comunicação e incidência política na construção do Bem Viver.

Em tempos nos quais se relativiza ou se nega a verdade, a história; em que se difama e condena-se sem provas; em que se julga alguém sem qualquer indício de fatos; em que se mente e transforma-se a mentira em verdades, como atuarmos de maneira eficaz no processo de construção de uma comunicação popular, profunda, transformadora?

Como desvelar o mal da palavra opressora, mercadológica, traiçoeira e traidora dos interesses do povo, fazendo chegar a todos os lugares – do campo à cidade – a palavra de vida, que forma, questiona, liberta, reconstrói projetos coletivos?

Como nos mover em meio às falsidades jogadas sobre a realidade sem cair nas mesmas estratégias daqueles que maculam a ética, jogando com o simulacro, com a superficialidade, com as Fake News, com a desconstrução das ideias, dos símbolos, da história?

É sabido que essa guerra semiótica mais se aprofunda nos cenários de maior fragilidade social, com efeito potencializador de individualismos, conservadorismo, fundamentalismo, de anulação de debates e, por conseguinte, de destruição da esfera política – caminho mais fácil para o fascismo.

Provocar reflexões sobre essa arena semiótica – que conjuntura é essa? Que experiências de comunicação acumulamos? Que desafios temos? – foi a tarefa dada a Maurício Abdalla (Departamento Filosofia – UFES), Renata Mielli (Diretora da Frente Nacional pela Democratização da Comunicação/SP e Antônio Martins (Diretor do Portal “Outras Palavras”/SP).

As provocações feitas, logicamente, inquietaram mais que confortaram, objetivo central de todo seminário de formação. Maurício Abdalla nos fez resgatar a vitória de Davi sobre Golias, usando da estratégia não baseada na força, mas na sabedoria e na eficácia do manejo de sua arma: uma funda. Em tempos mais longínquos, quando ainda livros se escreviam a mão, Pe. Antônio Vieira fez referência, no seu belo “Sermão da Sexagésima”, ao mesmo episódio: “a funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra”. Isso, para nos lembrar de que “para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.” Portanto, seguiremos imbuídos ainda mais da postura de que nesse processo, palavra e ação não se desvinculam.

Assim, o Movimento Nacional Fé e Política se encaminha para 2020 convicto da necessidade da redemocratização da internet, da informação e da formação e de aprofundar o debate em torno das estratégias de garantir a comunicação como direito e continuar a construir a ação transformadora.

Aparecida Fernandes - coordenação nacional do Mov. Fé e Política
Aparecida Fernandes – coordenação nacional do Mov. Fé e Política
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