Editorial – Novembro de 2017

O bem viver como um novo paradigma de vida

por Ivo Lesbaupin

A humanidade está hoje na direção da não-sustentabilidade, caminhando rapidamente para tornar a Terra inabitável: estamos desmatando numa velocidade incrível, nossa água doce está sendo poluída pela falta de saneamento, pelos pesticidas, pela mineração (o desastre de Mariana praticamente matou o Rio Doce). Por outro lado, o aquecimento global está provocando sérias mudanças climáticas, está derretendo geleiras, glaciares e as calotas polares e, consequentemente, elevando o nível do mar. As ilhas e as cidades costeiras de todo o mundo estão ameaçadas.

Nossos alimentos são cada vez mais envenenados pelos agrotóxicos – o Brasil é, desde 2008, o maior consumidor mundial destas substâncias. Nós os ingerimos em quantidade pequena, mas estes venenos, tomados continuamente, produzem doenças.

Como afirma o Papa Francisco em sua encíclica “Laudato Sí”, “isto é particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis [petróleo, carvão, gás], que está no centro do sistema energético mundial” (n. 23). Eles são causadores do aquecimento global, altamente poluentes e prejudiciais à saúde humana.

Nosso sistema econômico, para gerar lucro, precisa incessantemente produzir e vender: nossas sociedades se transformaram em “sociedades de consumo”, porque é necessário que as pessoas consumam sem cessar. Os produtos não são feitos para durar e, sim, para se tornarem rapidamente ultrapassados (“obsolescência programada”), de modo que haja necessidade de comprar um novo. Tudo isso exige um consumo permanente de recursos naturais.

A Terra não é infinita, os bens naturais não renováveis têm um limite: se continuar assim, eles um dia vão acabar. Os bens naturais renováveis (água, por exemplo) estão sendo utilizados numa velocidade muito acima de sua capacidade de reposição. No Brasil, inúmeros rios secam a cada ano, suas águas param de correr.

É mais do que nunca o momento de pensar um outro paradigma de economia, de organização da sociedade, centrado nas necessidades humanas, que garanta a reprodução da natureza, evite o desperdício e não esgote os bens de que precisamos para viver. Um paradigma voltado para a vida e não para a maximização do lucro.

Esta é a proposta do “bem viver“, elaborada pelos povos indígenas da região dos Andes. O bem viver significa um modo de vida em que os seres humanos vivem em harmonia entre si e com a natureza. A natureza não é algo a ser explorado, para ser vendido como mercadoria. Todos os seres – humanos e animais, plantas e minerais – fazem parte de um mesmo conjunto, de um mesmo sistema de vida e devem viver em harmonia. Os seres humanos podem usar os bens naturais para produzir seus meios de vida, mas respeitando as leis da natureza e com moderação.

Mas o bem viver não é um conceito apenas dos povos andinos, os demais povos indígenas, como os guaranis, têm conceitos semelhantes. Muito antes de nós, estes povos convivem com as florestas e os rios sem destruí-los.

“De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará” (carta do cacique Seattle ao presidente dos Estados Unidos, 1855 – www.culturabrasil.org/seattle1.htm ).

E, se formos mais longe, diríamos que existem concepções semelhantes entre os países do Norte e do Sul. A concepção atual, dominante, de desenvolvimento, que quer produzir e consumir para ter cada vez mais lucro, é predadora da natureza, mas há grupos e comunidades que criticam esta concepção, que buscam outra forma de viver, de produzir, de se relacionar. Muitos movimentos ecológicos ou ambientalistas e outras pessoas defendem uma mudança radical na forma de viver e de se relacionar com a natureza, uma outra concepção de economia. Isto os aproxima desta concepção do bem viver. Por exemplo, a ideia de que determinados bens não são bens que possam ser apropriados por um ou por outro, não podem ser privatizados ou vendidos, porque são “bens comuns”, bens que pertencem a toda a humanidade, como as florestas, o ar, a água, a cultura.

Parece difícil viver de outra maneira, já que nos acostumamos a viver assim e a propaganda procura nos convencer de que sempre foi assim e sempre será. Mas é possível mudar, é possível viver bem. Hoje, em muitos lugares, se produzem alimentos saudáveis, sem agrotóxicos, sem transgênicos. Hoje, é possível ter eletricidade com energia solar e o sol é uma fonte de energia gratuita. É possível se locomover através de transporte público baseado em trilhos – trens, metrô, VLT – ou ônibus movidos a energia elétrica. Existem outras formas de gerar energia sem usar os combustíveis fósseis.

Em outras palavras, é possível organizar a sociedade de outra forma, sem destruir as condições que nos permitem viver. Se quisermos evitar o desastre, precisamos superar o paradigma atual e construir um novo paradigma.

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