Editoral – Março de 2018

Um novo céu, uma nova Terra
por Selvino Heck

“Depois vi um novo céu e uma nova terra. Agora, a morada de Deus vai ser com os homens. Deus habitará com eles e eles serão povo de Deus. Então, o próprio Deus estará com eles e Ele lhes será por Deus. Deus enxugará todas as lágrimas de seus olhos e a morte já não existirá mais. Não haverá mais luta, nem choro e nem dor, porque as coisas velhas já passaram” (Apocalipse, 21, 1-4).

Zé Vicente canta em ‘Utopia’: “Quando o dia da paz renascer,/ quando o sol da esperança brilhar,/ eu vou cantar./ Quando o povo nas ruas sorrir/ e a roseira de novo florir,/ eu vou cantar.”

“Em verdade, eis que criarei novos céus e uma nova terra e todos os eventos passados não mais serão lembrados. Alegrai-vos e regozijai-vos para todo o sempre: eis que criarei uma nova Jerusalém e esta será somente para júbilo, e seu povo para a felicidade” (Is 65, 17-18).

Zé Vicente, em Utopia: “Quando as cercas caírem no chão,/ quando as mesas se encherem de pão,/ eu vou cantar./ Quando os muros que cercam os jardins,/ destruídos, então os jasmins/ vão perfumar.”

O Fórum Social Mundial (FSM) surgiu em tempos de neoliberalismo, anos 1990, início dos anos 2000, em contraponto ao Fórum Econômico de Davos, realizado todos os anos na Suíça. Davos e o grande capital pregavam e implementavam, tempos de governo FHC, o Estado mínimo, o Mercado como valor absoluto, as políticas sociais como políticas meramente compensatórias, gerando desemprego, fome, miséria e desesperança ao redor do mundo, América Latina e Brasil.

‘Um outro mundo possível’ foi a palavra, o grito, a esperança do Fórum Social Mundial (FSM), organizado pelos movimentos sociais, ONGS, partidos de esquerda, pastorais, democratas, progressistas e socialistas do mundo inteiro.  Porto Alegre era a capital da participação social, a terra do Orçamento Participativo, experiência de deliberação sobre o orçamento público que correu o mundo, sinal do novo e do futuro. Neste contexto, aconteceu o primeiro FSM em Porto Alegre, em janeiro de 2001.

De novo, Zé Vicente: “Quando as armas da destruição,/ destruídas em cada nação,/ eu vou sonhar./ E o decreto que encerra a opressão,/ assinado só no coração,/ vai triunfar.”

Estamos em 2018. O ultraneoliberalismo, apesar dos avanços e conquistas das últimas décadas, especialmente no Brasil, América Latina e África, está de volta: guerras, pobreza,  de novo a fome, mercado absoluto, crescimento da miséria, preconceitos, discriminação, ameaças à democracia, golpes como no Brasil. O Fórum Social Mundial desta vez vai acontecer em Salvador, Bahia, Nordeste, de 13 a 17 de março (Contatos e informações: www.fsm2018.org).   O lema continua sendo ‘Um outro mundo possível’, traduzido em 2018 para: RESISTIR É CRIAR. RESISTIR É TRANSFORMAR.

Resistir é criar. Criar o novo a partir da resistência. Sem ditaduras. Democracia. Sem golpes. Eleições diretas. Sem autoritarismo. Participação popular. Sem de cima para baixo. Sempre de baixo para cima.  Sem medo. Luta. Sem educação bancária. Conscientização. Sem Mercado absoluto. Economia Solidária. Sem submissão. Rebeldia. Sem escravidão. Liberdade. Sem quintais. Soberania.

Resistir é transformar. Transformar a partir da resistência. Sem exclusão. Comunhão. Sem individualismo. Solidariedade. Sem preconceitos. Respeito às diferenças. Sem opressão. Libertação. Sem manutenção da ordem. Revolução.

O FSM/2018 terá atividades de Convergência e Atividades autogestionadas. Os temas serão, entre outros muitos: A vida não é Mercadoria; Cidadania sem Fronteiras; Ancestralidade, Terra, Territorialidade; Vidas negras importam; Migrações; Culturas de Resistência; Direitos humanos; Feminismo e Luta das Mulheres; Povos Indígenas; Desenvolvimento, Justiça social e ambiental; LGBTQI+, Diversidade de Gênero; Migrações; Comunicação e Mídia livre; Movimentos, Territórios e Resistência; Educação popular e Movimentos sociais. Haverá Acampamento do Juventude. Dia 16 de março, haverá a Assembleia Mundial das Mulheres. Haverá a Assembleia mundial dos Povos dia 17. Haverá um Ato político-cultural rumo ao FAMA (Fórum Mundial Alternativo das Águas), que também será em março, em Brasília. Haverá a Ágora dos Futuros, Agenda de Ações pós Fórum.

Zé Vicente, na sua canção-hino: “Quando a voz da verdade se ouvir/ e a mentira não mais existir,/ será enfim,/ tempo novo de eterna justiça,/ sem mais  ódio, sem sangue ou cobiça,/ vai ser assim.”

Milhares de pessoas, militantes, educadoras/es, companheiras/os, sonhadoras/es de todos os cantos e esquinas estarão lá, participarão: da Bahia, do Nordeste, do Brasil inteiro, da América Latina, do Caribe, da África, do mundo. Ninguém pode faltar. Ninguém pode deixar de ir a Salvador, é a vez e a voz do Nordeste chamando/convocando para a reflexão, a luta, a esperança.

Diz a Carta de Princípios do Movimento Fé e Política, de outubro de 1999 (o Movimento foi criado em junho de 1989): “O Movimento Fé e Política é ecumênico, não confessional e não partidário. Está aberto a todas as pessoas que consideram a política uma dimensão fundamental da vivência de sua fé, e a fé o horizonte de sua utopia política. Voltado para a construção de uma sociedade alternativa ao capitalismo neoliberal, o Movimento tem o objetivo de fomentar a reflexão política, a vida espiritual e a subjetividade daquelas e daqueles que estão comprometidos com uma prática política e social. Os participantes do Movimento atuam em movimentos sociais, organizações populares ou partidos políticos;  assumem a causa dos pobres, dos oprimidos e dos excluídos; conferem prioridade à conscientização e organização popular; afirmam as classes populares como principal sujeito da própria história; rejeitam todos os valores calcados no individualismo e na absolutização do mercado e reafirmam, como valores fundamentais para o ser humano, a solidariedade, a cooperação e o direito de todos à vida em plenitude. Comprometem-se com o exercício da cidadania ativa e a construção de uma sociedade socialista, democrática, plural e planetária” (Contatos e informações: www.fepolitica.org.br).

Assim termina Utopia, de Zé Vicente, canção rezada/cantada com fervor militante nas CEBS (Comunidades Eclesiais de Base), nas lutas e mobilizações, nos Retiros, nas pastorais sociais, no Movimento Fé e Política, nas celebrações da vida: “Vai ser tão bonito se ouvir a canção,/ cantada de novo,/ no olhar da gente a certeza de irmãos,/ reinado do povo.”

Um outro mundo é possível. Mais que possível, nestes tempos sombrios, um outro mundo tornou-se urgente e necessário. O Reino está por ser construído. Há que atravessar o deserto para chegar na Terra Prometida. O reinado do povo é construção solidária, é esperança. Um novo céu, uma nova terra.

Selvino Heck
Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política Fevereiro de dois mil e dezoito

 

VEJA TAMBÉM
Preparemo-nos por Selvino Heck Onde há/houver ódio, prego amor. Onde há/houver guerra, prego paz. Onde há/houver intolerância, prego o respeito à diferença. Onde...