Editorial – Janeiro de 2018

por Marcelo Barros*

Tribunal da Inquisição não mata a Profecia nem a Utopia

“O sonho me assaltou como se fosse um pesadelo atemporal ou profecia desvendatória que me veio como se eu fosse um Xavante que, para compreender a vida, sonha. E quando abre os olhos, se vê dilatar a percepção para além do que os olhos podem ver. De repente eu e todo o povo brasileiro éramos réus em um Tribunal da Santa Inquisição. De fato, o que hoje se chamaria segunda instância, em um tribunal de inquisição não existe. Se há é apenas para confirmar e resolver com mais rigor o que o inquisidor-mor do primeiro julgamento já havia decidido antes mesmo deste ser iniciado. No tempo da inquisição, alguém interessado na propriedade de algum judeu próspero ou com desejo de uma mulher que não podia possuir, os denunciava à inquisição, a ele como herege (cristão novo) e a ela como bruxa. A turba controlada fazia sua parte, como no tempo de Jerusalém: Crucifica-o! Crucifica-o! Entre si, os juízes confabulam: Se o deixamos livre, o Império nos cobrará caro.

A jurisprudência não falha. Se o réu confessa, é condenado à fogueira porque ele mesmo confessou. Se ele se declara inocente, significa que então é muito mais culpado (tanto a heresia como a bruxaria são atividades secretas). Então é queimado vivo e sua família devidamente perseguida para não deixar raízes.

Durante séculos, a inquisição impôs uma Cristandade do medo, conivente com o racismo, legitimadora da escravidão, do patriarcalismo e da clara divisão social. Tudo em nome de Deus, da fé e da justiça. No entanto, a inquisição não conseguiu aprisionar a profecia, nem apagar o fogo da Utopia que mantém acesa a chama da esperança revolucionária. Atualmente, os tribunais de inquisição de Curitiba, Porto Alegre ou Brasília, assim como as turbas alimentadas pela publicidade política norte-americana da Globo não conseguirão destruir a construção de uma Democracia Integral.

Acordei no Brasil dominado pelas privatarias tucanas e dos três poderes que venderam a alma ao Império. Esses juízes que escolheram para si o papel de Pôncio Pilatos serão como o Pilatos do Credo: apenas a referência de que o poder perdeu sua garra e a morte viu quebrado o seu aguilhão. Como no primeiro sábado da Páscoa, não conseguirão com dinheiro pagar o silêncio e nem impedir o anúncio do túmulo vazio. A própria Cruz se torna força nova que ressuscita hoje com mais amor e sem medo de ser feliz o Brasil Popular e o Povo sem Medo.”

* Monge Escritor e Teólogo

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