Das crises, o desafio maior: a vida em primeiro lugar!

Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 10, 10)

O primeiro trimestre de 2020 tem sido mais revelador e potencialmente cataclísmico do que os mais ardentes mentores e defensores da ordem político-econômica-ideológica ainda vigente poderiam imaginar há 20 ou 30 anos. No Brasil, o cenário geral em que nos encontramos, além de assustador e preocupante, pode ser visto como verdadeiramente semelhante àquele de crise descrito por Antônio Gramsci, no qual a velha ordem moribunda já não mais se sustenta, mas o novo ainda não adquiriu as condições objetivas para se impor. Parece-nos crescente a percepção social no país de que a velha ordem tem encontrado seus próprios limites e precisa ser superada. No cenário internacional, dada sua complexidade, agora radicalizada pela pandemia do Covid-19, parece estarmos diante do demônio da mitologia grega, cuja Esfinge de Tebas nos impõe um desafio que pode custar nossas vidas: ‘decifra-me ou devoro-te’!

O novo Coronavirus antecipou e fez emergir, de modo bastante imediato e perceptível, pelo menos para quem ainda não enxergava a realidade com o devido discernimento crítico, algo que está para além de suas próprias implicações sanitárias: o lado deletério e desumano da ordem capitalista, especialmente em sua versão ultra neoliberal e especulativa, como a atual. As contradições vigorosamente emanadas nos últimos meses são gigantescas, assim como o são os desafios que a cada dia se nos apresentam, exigindo de nós respostas que ainda não estão elaboradas, mas cujos caminhos estão dialeticamente indicados.

Após décadas de implantação de políticas neoliberais, a partir das quais o ‘grande príncipe’ – o livre, absoluto e onipotente mercado – tornou-se ‘fim em si mesmo’, secundarizando-se a vida e os processos político-sociais, a atual radicalização dessa orientação político-econômica pelo governo de turno tem atestado ainda mais que sociedade sem democracia e sem Estado é algo insustentável sob os diferentes pontos de vista econômico, político, social e cultural. O ensaio neoliberal exauriu-se, e o mundo globalizado está prestes a enfrentar a maior de todas as crises, superando a de 1929, segundo as previsões mais otimistas. Os dados econômicos atuais já apontam grande recessão global, e com ela, os trabalhadores – lado aparentemente mais frágil na correlação de forças entre capital e trabalho – serão forçados e submetidos a condições ainda mais adversas de exploração e opressão. O potencial tecnológico à disposição dos governos e das grandes corporações já permite isso, e o seu controle é uma questão de manutenção do poder e da ordem. Basta observar o que a situação de isolamento social nos tem revelado, por exemplo, em relação às questões do mundo do trabalho.

Aqui o primeiro desafio: vamos assistir, passivamente, à capacidade do capital se reinventar sobre a inércia da força de trabalho? E a maior das lições: a ordem só sobrevive com o trabalho, que tem a força!

Nesse cenário de redesenho da geopolítica global, a conjuntura do país se torna ainda mais desafiadora, haja vista o leque de exemplos de um quadro governamental que, além de autoritário e incompetente, é débil e sem qualquer projeto para efetivo enfrentamento, sobretudo em relação às áreas sociais, que deverão enfrentar os maiores efeitos dessa profunda crise. Como se não bastasse o sufocamento democrático enfrentado por instituições, movimentos e organizações sociais, as medidas políticas anunciadas pelas equipes governamentais apontam para o agravamento também econômico da vida social, não seu alívio ou superação.

Diante disso, apesar das necessárias medidas de isolamento social decorrentes da pandemia, setores significativos da população não se intimidaram nem se isolaram no que se refere à demonstração de sua indignação e descontentamento com a ordem vigente. O mês de março prometia ser de intensificação de manifestações, paralisações, greves e lutas nas ruas, em todas as regiões do país, até que se alcançasse um nível de mobilização e resistência capaz de interromper esse processo em curso. Embora não tenha sido possível nas ruas, o foi pelas janelas e pelas redes sociais: as diferentes manifestações com panelaços de protestos, passadas nas noites de março, sinalizam que continuamos juntos, unidos pela resistência, embora isolados fisicamente.

Esse é o maior sinal de esperança que o período de ‘recolhimento quaresmal’ poderia nos trazer. O tempo é propício, e a boa notícia que precisamos alimentar, como sendo a decifração do enigma da Esfinge de Tebas, é a de que as alternativas que precisam ser construídas passam, necessária e inevitavelmente, pela força da solidariedade e da construção coletiva. A retomada de padrões de convivência social minimamente civilizados, onde possa reinar a justiça distributiva, a igualdade e o respeito às diferenças e à vida não pode prescindir da luta pela democracia. Em casa, nas redes sociais – ou nas ruas, num futuro próximo, esperamos! –, onde quer que estejamos, não podemos abrir mão da democracia e dos direitos sociais arduamente conquistados.

Ora, sabemos que esta é uma das dimensões da luta em que fé e política não se separam. Ao contrário, perseguindo um projeto libertário e democrático para a ordem social e suas respectivas interfaces com a ordem ambiental, nós, cristãos e cristãs e todos que acreditem nessa causa, lutamos por uma vida nova. Este é nosso desafio! É também o espírito pascal que se aproxima, cuja mensagem central Jesus Cristo a fez: enfrentando a ordem de seu tempo, fez um chamado à solidariedade, à luta político-libertadora, respeitando as diferenças e colocando a vida em primeiro lugar!

Feliz Páscoa!

Antônio Lisboa Leitão de Souza
Diácono da Diocese de Campina Grande / PB
Membro da Coordenação Executiva do Movimento Nacional Fé e Política