11° Encontro Nacional de Fé e Política – Desafios na Construção do Bem-Viver

Aproximadamente 850 pessoas, de quase todos os estados brasileiros, estiveram presentes no 11º Encontro Nacional de Fé e Política na Cidade de Natal – RN. O encontro de 2019 aconteceu de 12 a 14 de julho, no Instituto Federal de Educação, onde também foi comemorado os 30 anos do Movimento Nacional de Fé e Política.

por Teresinha Toledo e Inês Pandeló

A conferência de abertura na sexta feira sobre o tema “Democracia, Políticas Públicas e Alternativas Sociais: Sinais dos Tempos na Construção do Bem-Viver”, com as palestras de Gilberto Carvalho, um dos fundadores do movimento e da Vereadora Divaneide Basílio, já indicaram a importância da realização do encontro. Fazendo uma retrospectiva histórica, Gilberto apontou erros e acertos dos últimos quarenta anos e a importância dos governos Democrático – Populares para a transformação da realidade brasileira, destacou que em qualquer análise de conjuntura o problema central é o aumento da pobreza e da desesperança: “vivemos da esperança e da teimosia. Essa esperança foi construída ao longo dos anos junto com o povo, na prática da solidariedade e inclusão dos pobres no projeto de transformação da sociedade, lembrando do Papa Francisco como inspirador. Chamando atenção de todas as pessoas presentes por sua eloquência, a jovem Divaneide, vereadora negra, de comunidade, contou da sua experiência nos movimentos sociais, da necessidade de firmeza no parlamento para resistir a este momento de retrocesso e da importância de se manter presente e ligada as comunidades: “Eu digo que não venho da comunidade, eu sou da comunidade”.

Ao longo dos três dias o tema foi refletido e aprofundado em três grandes mesas simultâneas: Democracia, Poder e Religião – Assessoria de César Sanson e Maurício Abdalla; Políticas Públicas, Direitos e Participação Popular – Assessoria de Iris Maria de Oliveira e Márcia Helena de Carvalho Lopes; Alternativas Sociais e Práticas do Bem Viver – Assessoria de Ivo Poleto e Roberto Marinho Silva. Dez grupos de trabalho refletiram sobre Matrizes energéticas e meio ambiente; comunidades tradicionais e povos originários; a questão urbana e o direto às cidades; teologia e os novos paradigmas societários: o diálogo entre fé e política; educação, educação popular, desmonte dos direitos, dos saberes e resistências; a cultura como instrumento de libertação ou do ódio; protagonismo das Juventudes, profetismo e resistência; economia solidária e bem viver; fé e política – movimento e escolas no Brasil: cenários e perspectivas; mulheres: protagonismo e enfrentamento da violência, demonstraram a intervenção especializada dos assessores, mas também os valiosos conhecimentos elaborados nas práticas cotidianas através das contribuições dos participantes.

Um encontro de tamanha magnitude e urgência para um período tão conturbado e de perseguição a lideranças, não poderia deixar de elencar frei Betto entre os seus assessores para a palestra final – ”Espiritualidade Política: Sinais dos Tempos”. Dedicando a sua fala à liberdade do ex-presidente Lula e interrompido espontaneamente com gritos de “Lula Livre”, que ecoou por toda a quadra, frei Betto inspirou-se na leitura bíblica dos “Discípulos de Emaus” ligando com a realidade e as ações de militantes: Jesus não foi reconhecido pelos discípulos. Quando não o reconhecemos? Jesus usou de metodologia, fez trabalho de base, dedicou tempo para ouvir… E nós, militantes do Movimento Fé e Política precisamos voltar a fazer isto neste momento, não desanimar nunca, continuar semeando.

Por todo o encontro a preocupante questão da Amazônia e a importância do tema para todo o Brasil e o mundo, foi ressaltada por diversos assessores e participantes, a importância de aproveitar o “Sínodo da Amazônia” convocado pelo Papa Francisco para ampliar a conscientização.

Preparação Intensiva e Compartilhada, Oração e Vida

Em parceria com o SAR – Serviço de Assistência Rural e Urbana, da Arquidiocese de Natal/RN, participação de lideranças e entidades locais, equipes de Caicó e Mossoró, o 11º Encontro Nacional foi preparado num verdadeiro mutirão durante mais de um ano de trabalho. Essa construção coletiva soube apropriar-se da experiência dos encontros nacionais anteriores, mas também inovar em termos criativos, pedagógicos e organizativos. A abertura das portas do IFRN – local de acesso, especialmente da população mais pobre, à educação pública de qualidade – demonstrou o espírito democrático da atual direção.

A mística e a oração durante todo o encontro foram momentos envolventes e de partilha onde os saberes, a música e a arte se misturaram numa grande celebração. Tanto na abertura, onde artistas circenses deram um mergulho na realidade e demonstraram que a construção do Bem Viver passa pela resistência, como na celebração de envio, onde foram comemorados os 30 anos do Movimento Nacional Fé e Política com a partilha do pão, as místicas e celebrações renovaram os espíritos e trouxeram força para a caminhada.

O protagonismo jovem foi muito significativo e se fez presente desde a elaboração da arte do cartaz, na preparação e durante todo o evento. Com certeza vivenciamos um pacto geracional de troca de experiências, indispensável para construção de práticas alternativas – novas formas de organização nessa mudança de época.

Ao finalisar o 11º Encontro Nacional de Fé e Política fica claro mais uma vez que quando a fé é cultivada e refletida na vida, transforma, dá força e gera vida. Milhares de experiências alternativas ao capitalismo, pelo Brasil e em outros países, vão aos poucos abrindo novos desafios e criando uma nova maneira de viver e se organizar – a “Sociedade do Bem Viver”.

Teresinha Toledo – Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
ines pandeló
Inês Pandeló – Equipe de Fé e Política Sul Fluminense, Jornalista e Conselheira Estadual dos Direitos da Mulher – CEDIM