Esquenta Geral

por Selvino Heck.

“Debaixo de chuva,/ do vento,/ quase tempestade,/ lá vamos nós,/ povo de fé,/ sangue na flor da pele,/ coragem na cabeça/ e na ponta do pé,/ multidão, multidão,/ sem medo de ser feliz./ Caminhantes,/ caminheiros,/ jovens,/ estudantes,/ professoras,/ professores,/ trabalhadoras,/ trabalhadores,/ na rua, na rua,/ guarda-chuvas abertos aquecendo corpos e mentes,/ os pingos d’água no nariz, / as costas encharcadas de sonhos,/ os sapatos pisando na água no chão duro do asfalto./ Mas nós,/ todas e todos,/ centenas, milhares,/ firmes e fortes,/ destemidos,/ sem medo de sermos felizes./ O PAÍS PULSA RESISTÊNCIA.”

Foi o sentimento de quem esteve nas ruas de Porto Alegre dia 30 de maio. Longa caminhada, saindo da Faculdade de Educação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) até a Esquina Democrática, no centro da capital, e voltando através do túnel ao lado da Rodoviária até o Largo Zumbi dos Palmares, uma dezena ou mais de quilômetros. Ninguém arredou pé, mais jovem, mais velho (muita gente apareceu com gripe no dia seguinte), os estudantes, muitos pela primeira ou segunda vez na rua, gritando a plenos pulmões, ‘UNIFICOU/ AGORA É ESTUDANTE JUNTO COM TRABALHADOR’.

Nas reuniões e conversas todas – Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, Centrais Sindicais, movimentos populares e comunitário, movimento estudantil, movimentos do campo, partidos de esquerda, pastorais, movimento Núcleo de Reflexão Política da Lomba do Pinheiro, entre outros tantos atores envolvidos na preparação da Greve Geral -, ressaltam-se vários elementos fundamentais, nestes tempos difíceis, mas com esperança.

Há uma construção Coletiva da Greve Geral do dia 14 de junho. Há um processo onde participam todos os atores sociais e políticos, feito a cada dia, em reuniões, plenárias, todos dando sugestões, contribuindo com experiências passadas, pensando e construindo junto.

O discurso da unidade está sempre presente. Estabeleceu-se a mais ampla unidade em toda preparação da Greve Geral: todas as Centrais Sindicais estão envolvidas, todos os movimentos sociais populares, movimentos ligados à educação, partidos políticos, igrejas e pastorais. Um exemplo marcante foi uma faixa carregada por vereadores de Porto Alegre na caminhada de 30 de maio, com a frase UNIDOS PELA EDUCAÇÃO, e assinada por PT, PSOL, PDT, PSB, PCdoB.

Trabalho de base: Os militantes estão nas portas das fábricas, na frente das escolas, entrando nas lojas e no comércio, chegando nas igrejas, visitando as garagens de ônibus, fazendo reuniões com todos os setores sociais, no campo e na cidade. A conversa direta com as pessoas, a distribuição de panfletos, as pequenas reuniões em todo e qualquer lugar fazem parte da organização da Greve Geral. São sementes de resistência plantadas para o agora e para o futuro.

A mobilização de massa de 15 e 30 de maio, além de chamar a atenção do Brasil e do mundo para a educação e o desmonte em curso praticado pelo governo federal, foi também uma aula de mobilização de entusiasmo, a mostrar que jovens e estudantes, tal como em 1968, são capazes de produzir milagres, são força revolucionária, indicam caminhos de futuro e esperança. E serviram também de um Esquenta Geral para o dia 14 de junho, a mostrar que a democracia, os direitos do povo e a soberania de uma Nação estão ameaçados e são inegociáveis.

O Esquenta Geral foi em 15 de maio, reforçado 30 de maio, com milhares, milhões nas ruas em todo Brasil, por uma educação pública, gratuita e de qualidade, e sem cortes de recursos. O barulho promete ser muito maior e mais quente em 14 de junho, com uma Greve Geral que vai parar o Brasil. O povo brasileiro não se deixa amordaçar, não aceita a perda de direitos, ama a liberdade. O povo brasileiro, trabalhadoras/es e estudantes querem dignidade, exigem democracia, e estão mostrando isso mais uma vez em 2019, como em tantos outros momentos de sua história.

selvino heck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990) Em seis de junho de dois mil e dezenove