Esperanças que são sementes

Fala no Painel Entendendo as Crises

Vanúbia Martins de Oliveira
Comissão Pastoral da Terra – Campina Grande/PB

Li em algum lugar, não lembro onde, que “o nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho…”. Parto aqui então do sonho da terra livre e liberta.

Falar sobre Bem Viver, esperança e semente ou semente da esperança em tempos nublados torna-se uma difícil tarefa. Fico pensando no modo de vida que temos, nos rumos tomados pela humanidade…Sempre escutei um “ditado” que diz: “maldito o dente que come a semente” e ao invés de pensar em apenas “um dente”, pensei que talvez hoje o ditado fosse “maldita a comilança que mata a esperança”.

Entendo que, numa sociedade onde o consumismo é a regra, a semente deixa de ter o significado que Deus nos dá sobre ela, “o reino de Deus é como a semente de mostarda…”, “…a semente em terra boa dará fruto a cem por um…”, afinal no centro do jardim está a “arvore da vida”, como bem disse o povo do caminho “e Deus viu que era bom…”e plantou a gente também no jardim. Neste entendimento o grande projeto Divino; é a vida.

Neste momento de Brasil, estamos bem no “olho do furacão” de disputas, que não tem ajudado a construir o Bem Viver, disputas que faz lembrar uma profecia Aymara que diz: “Virá o homem branco e dele serão as riquezas; de você, só a pena”. Neste contexto somos convocados e convocadas a olhar para a vida a partir dos olhos, do corpo, da reza, da festa, da dança, do sentir dos povos andinos onde a terra não é concebida comofator isolado do cosmos, nem das relações dos homens; onde terra não é somente terra mas é território, definida deste modo, em todas as teses sobre os povos Aymara, sobre a teoria do Bem Viver. O Território entendido como o espaço da unidade ecológica de interação de vidas erecursos naturais, é o lugar daunidade de tudo, de casa, homem, mulher, animais,plantas, espíritos, a terra, a água, as rochas e a paisagem. Unidade integral também chamada pelos andinos de Pacha, o tempo e o espaço.

Na verdade, na visão indígena andina e na sua cultura se combinam conceitos e práticas, onde todos os componentes da vida interagem para o Bem Viver, que deixa de ser tese para ser MODO DE VIDA.Tornando-se sujeitos da história, tanto os humanos como todos os elementos da natureza, inclusive os mortos e os espíritos. Nessa simbiose se processa uma outra lógica de ser e de viver; vive-se a partir da plenitude dos laços com a Mãe Terra.

E aqui, nas nossas terras/territórios/, dizemos que semente é memória de “quem se foi”, é herança deixada por parentes, pais, avós. Guardar a diversidade, multiplicar, doar, emprestar, salvar em anos de maior estiagem, são práticas comuns na vida do povo camponês que nos remete a simbiose, a construção de resiliência no Semiárido, organizando em redes de Bancos de Sementes Comunitários, partilhas e trocas de sementes e saberes, vamos, ao nosso modo, vivenciando o princípio do cuidado e do Bem Viver.

É a paixão pela vida e pelas sementes que constrói a “Rede de Sementes da Paixão”, sementes da fartura, da solidariedade, e tantas outras nos estados Semiáridos. São essas redes que vem fazendo um olhar mais coletivo para os desafios que a humanidade tem agora pela frente. Desafio como o modo de produção globalizada em que tudo, absolutamente tudo, é comandado pela ganância especulativa financeira, em um sistema de acumulação global de capitais, por um punhado, pequenininho, de grandes corporações econômico-financeiras e bancos.

Qual a maior produção deste sistema? É só olhar em nossa volta com um pouco mais de atenção e veremos, a produção de muito luxo para alguns e lixo para a maioria, um lixo que advém daartificialização e destruição ambiental. A transformação, por exemplo, de alimento em commodity é uma das estratégias mais cruéis, para manutenção da lógica capitalista. Cruel porque não se consegue viver sem comer, cruel porque privatizando as sementes, privatizam a reprodução de vidas; cruel porque estas privatizações podem levar à escravização da humanidade por uma meia-dúzia de corporações. Mesmo os tratados e os documentosinternacionais mantém como base para o “desenvolvimento” o crescimento econômico e reforça o mesmo modelo industrial e produtivista, negando a importância dos camponeses familiares. Umformato que temconstruído um grave quadro de ameaças sociais e ambientais com mudança climática catastrófica, que tem se apropriado cada vez mais da biodiversidade e dos territórios preservados pelos povos e comunidades tradicionais.

O sistema continua organizando nosso modo de ver, pensar e sentir por meio da propaganda que nos leva a internalizar o consumismo como valor. O camponês tem que deixar de lado o seu modo de vida e produção para se “integrar”. Para se desenvolver se faz necessário entrar na lógica bancária, comprar os “pacotes”. Pacotes estes que negam os conhecimentos das comunidades sobre a terra e o território, sobre as vidas e as resoluções de problemas, negam a construção coletiva da vida nas comunidades. Tudo está atrelado ao consumo, e nós vamos legitimando este modo de vida à medida que também nos sentimos felizes ao consumir, quando não desestimulamos o consumismo, quando não fortalecemos um outro modo de vida a partir de nós mesmos

Nóssomos desafiados e desafiadas a questionar os princípios e valores apregoados, sobre a vida, a liberdade, sobre o ser feliz.O modelo de economia que temos, tem se apropriado dos conceitos construídos pelos movimentos e organizações para se refazer. Com o discurso “politicamente ecológico”,o capitalismo tem colocado sua “finca” nos territórios, criando regras e normas para continuar no controle da produçãopor meio da chamada “economia verde”. Assim surgem as novas tecnologias associadas ao controle das sementes com os transgênicos, práticas que tem reduzido a “agrobiodiversidade” no planeta; o controle da venda, as certificações e leis vão impedindo os camponeses de manter a produção e reprodução da vida.

O mestre camponês Joaquim Santana no seu poema “Indignação do guardião de semente” nos explica como tem sido a luta dos camponeses, sem perder a esperança.

Jesus mestre salvador
Lá do céu está vendo
O que é que estão fazendo
Com o povo agricultor
É tirar o nosso valor

Mandar sementes pra gente
Com veneno é indecente
Deus não vai dar o perdão
É a indignação dos guardiões da semente

No banco a semente está
Para a nossa autonomia
Pra quando chegar o dia
De o agricultor plantar
É só ele ir lá buscar
Voltar feliz e contente
Porque tem em sua frente
As sementes da paixão

Essa é a libertação dos guardiões da semente

Não estou aqui negando as tecnologias necessárias e que ao longo dos tempos facilitou a vida e o trabalho da humanidade, falo sobre valorização de práticas que garantem a vida. Muitas das tecnologias supervalorizadas chegam para artificializar o ambiente, e perdemos em diversidade. Na sociedade do descarte, tecnologias mudam apenas a “casca”, mas o conteúdo é o mesmo e nós a consumimos. Engraçado pensar nisso; onde a indústria tem o domínio desde sempre, muda a casca e mantem o conteúdo (como nos celulares), agora para se apropriar das sementes e da biodiversidade, mantem a “casca” e muda o conteúdo, estratégia de sedução, pois os valores cultivados desde sempre, incluemo amor às sementes, que já não são as mesmas em conteúdo mas permanecem com a mesma aparência, e a aparência é outro engodo do consumismo.

Ainda bem que sempre existiu e sempre existirá a resistência:os povos que RE-existem nos trazem de forma prática várias alternativas mundo a fora. Como bem diz Alder Júlio, precisamos “olhar as águas subterrâneas que se movem”, olhar com carinho e atenção, não só os povos andinos, mas todos os povos da América Latina que vem resistindo a cinco séculos de colonização e destruição, de um capitalismo eurocêntrico.

Desse modo volto meu olhar com carinho e atenção para o paradigma da convivência, construído a muitas mãos e cabeças, mantendo acesa a chama do Bem Viver, do lugar. Por que do lugar? Porque o lugar que escolhemos para viver é a nossa “terra prometida”, e nesta terra prometida o desafio teórico é prático. Juntar os saberes e os fazeres por uma causa, cultivar os“modos de vida do Semiárido”, valorizar e multiplicar essa cultura produtiva, alimentar; a cultura da dança, da festa, do canto,nos mantém vivos e vivas.Uma cultura de domínio popular e alegre, menos industrial, porém de culinária deliciosa. Se assim não fosse, poucos seríamos nestas terras de Caatinga, e somos alguns milhões de dançantes à moda nordestina.

Esses fazeres e saberes partilhados tem nos apontado para o futuro, pois o pilar do Bem Viver é “reconhecer-se como parte da grande comunidade de sujeitos humanos relacionando-se entre si e com a natureza numa relação interdependente”. As sementes da paixão, da fartura, da solidariedade… têm nos proporcionado o prazer de cuidar das vidas, das sementes que são alimento para o corpo, milho, feijão, galinhas e cabras; e também das sementes que são alimento para alma – os saberes e o sentir do povo desta terra.

Podemos assim pensar a SEMENTE como fonte primeira de vida e de prazer – semente, ovo, óvulo, que se transforma e se reproduz. Pensar a ESPERANÇA seria, no meu entender, tudo que possa gerar vida nova numa dança harmoniosa de partilha e amor. A esperança entendida aqui como ponte entre o cuidado e os processos geradores de vida, é por estarmos vivos que cantamos e dançamos ensaiando o “Novo céu e a Nova terra”.

Trago para pensarmos/sentindo, a semente da esperançaregada na partilha, na solidariedade, na Caridade. A esperança nos vem, não desta caridade do “dar esmolas”, mas nos chega como semente da partilha estrutural, do acesso à terra, do acesso à água, da autonomia produtiva; onde os processos que avançam garantam o protagonismo de homens e mulheres, jovens e crianças, atores de um outro mundo possível e sonhado, não se contentando em vivenciar o paraíso noutro mundo, e sim numa terra onde se transcende de forma concreta, nos gritos por liberdade, na luta contra tudo que nos oprime e mata.

A esperança que se recria segundo os princípios do amor, onde dizemos uns aos outros e as outras: eu preciso de você nesta jornada, eu necessito porque o coletivo é grande e as SEMENTES DA ESPERANÇA tem por base o fazer coletivo.

E como somos multiplicadores e multiplicadoras do amor e da comunhão espiritual, findo com uma frase de Rubem Alves:

“Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos
fragmentos de futuro em que a alegria é servida como
sacramento, para que as crianças aprendam que o
mundo pode ser diferente”.


Busquei Inspiração em:
Rubem Alves, O Que é Religião, Primeiros passos 2012.
Laudato Si, Edições Loyola, 2015
COMUNIDADES ANDINAS AYMARAS – Coexistência e Modernização (A Nação Aymara contra a Nação Boliviana), IPPUR/UFRJ, Rio de Janeiro, 2006.
Arquivos da ASA – Articulação do Semiárido.http://www.asabrasil.org.br/

Matriz Energética: Hegemonia e Alternativas

A matriz energética de um país se refere às fontes primárias utilizadas no processo de conversão energética responsável por oferecer à sociedade a forma de energia necessária para prover conforto, iluminação, força motriz, enfim, para “mover” e manter nossa sociedade nos padrões que conhecemos – ou melhorá-lo.

Ao longo do tempo a engenhosidade humana aprendeu a “extrair” de uma imensa variedade de fontes a energia de que necessitava, tais como a lenha, o carvão, o petróleo, a biomassa, a força das águas, dos ventos, das marés, da radiação solar…

No entanto, a descoberta, a utilização e o desenvolvimento destas fontes não se dão simultaneamente e nem em condições “igualitárias” por vários fatores, que incluem desde a sua disponibilidade na natureza, viabilidade para exploração comercial, impactos que provocam e até mesmo interesses empresariais e/ou políticos. Estes fatores são preponderantes para que uma ou outra fonte tenha o seu uso privilegiado, tornando-se dessa forma hegemônica sobre as demais.

No mundo, já faz algum tempo que este papel cabe ao petróleo – fonte de grande poder calorífico e versatilidade em seu uso. O que talvez não seja conhecimento de alguns é que no Brasil essa hegemonia também acontece, com o petróleo sendo responsável por 39,4% de toda oferta interna de energia durante o ano de 2014 [2] – isso corresponde ao total de todas as fontes renováveis. Tal desconhecimento muito provavelmente ocorra devido à confusão que se faça entre matriz “energética” e matriz “elétrica”. Como o nome supõe esta última diz respeito tão somente às fontes utilizadas na geração de energia elétrica, mas infelizmente às vezes alguns a tratam como se fosse a totalidade.

A falta dessa distinção no meio da sociedade em geral faz com que muitos confundam o caráter predominantemente renovável de nossa matriz elétrica com uma pretensa predominância das renováveis em toda a matriz energética, o que não é verdade. De fato, em 2014 cerca de 74,6% do total de energia elétrica gerada (624, 3 TWh)[3] foram provenientes de fontes renováveis (465,7 TWh), enquanto na matriz energética a predominância no total da oferta interna de energia no ano (305,6 Mtep)[4] foi de fontes não renováveis com 60,6% (185,2 Mtep).

Sobre a matriz energética brasileira importa ainda dizer que o gás natural, o petróleo e seus derivados vêm tendo um forte aumento em sua participação, o que consequentemente faz com que o setor energético aumente significativamente sua contribuição na emissão de gases de efeito estufa, que em 2014 ficou na casa dos 485,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente e fez com que de 2000 a 2014 o crescimento anual de emissões associadas à matriz energética tenha sido de 3,5%[5].

Em tempos de mudanças climáticas, cuja forte participação das fontes fósseis na matriz energética mundial está no centro do problema devido à emissão de gases de efeito estufa, tal característica da matriz brasileira não deixa de ser um contrassenso com os compromissos assumidos pelo país nas negociações internacionais sobre o clima e posterga uma diminuição acelerada do uso das fontes fósseis[6].

No que diz respeito à matriz elétrica não é novidade para ninguém a forte participação da fonte hidrelétrica na matriz brasileira, que representou 74,6% na oferta interna de energia elétrica em 2014[7].
Em termos de capacidade de geração, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL)[8] atualmente a participação das hidrelétricas representa cerca de 61,12%.

Até um tempo atrás a matriz elétrica brasileira poderia ser considerada de característica puramente hidrelétrica. No entanto, o forte crescimento das usinas termelétricas – que atualmente já respondem por 27,75% da capacidade de geração, faz com que hoje o melhor seja chamá-la de matriz predominantemente hidrotérmica[9].

Talvez em um tempo em que ainda se acreditava ser a água um recurso “infinito” assentar a matriz elétrica hegemonicamente em hidrelétricas talvez não fosse visto como um grande risco. No entanto, em tempos de mudança nos regimes hidrológicos e pluviométricos tal atitude parece não ser mais prudente[10] e o aumento da participação das térmicas denota que até o governo já reconhece isso.

Para além dos riscos que a falta de disponibilidade de água possa oferecer para a continuidade de uma “exploração segura” (do ponto de vista energético) das hidrelétricas, que atualmente são mitigados pelo aumento do uso das térmicas – que paradoxalmente estão no centro do aumento das emissões de GEE e consequentemente contribuem para afetar o regime hidrológico através das mudanças climáticas, cresce cada vez mais a resistência de populações que podem ser atingidas por tais empreendimentos através de seus vários impactos socioambientais.

Além disso, com a descoberta e o desenvolvimento de outras formas de geração de energia elétrica e apesar de persistirem alguns desafios técnicos (perfeitamente superáveis pela engenharia), hoje já não se pode alegar que existam impedimentos de ordem técnica para uma maior (e mais rápida) diversificação da matriz elétrica brasileira. Não apenas vários estudos, pesquisas e publicações, mas vários países do mundo já mostram que é sim possível aumentar de forma considerável e relativamente rápida a participação de outras fontes na matriz elétrica, em especial a eólica e a solar[11].

Com a intenção de pesquisar, elaborar e propor alternativas viáveis à atual política energética do Brasil um conjunto de organizações, pesquisadores e estudiosos do tema[12]há algum tempo apresentou ao Ministério de Minas e Energia um conjunto de propostas para ações governamentais no âmbito do setor elétrico[13]. Entre as várias proposições destacam-se as alternativas possíveis para uma diversificação acelerada da matriz elétrica, em especial através do aproveitamento da energia da maior fonte disponível na natureza: o sol.

Para isso inclusive lançaram uma iniciativa chamada “Nossa Casa Solar” com a intenção de aumentar o conhecimento da população sobre o Sistema de Compensação de Energia Elétrica, que permite que qualquer pessoa possa gerar parte da energia elétrica de que necessita em sua unidade consumidora através da mini ou microgeração[14], mostrando que cada pessoa pode não apenas contribuir com essa diversificação, mas literalmente assegurar parte de sua própria segurança energética.

Joilson Costa – Engenheiro Eletricista. Coordenador da Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil. joilson.costa@yahoo.com.br

Notas
1. Texto escrito para subsidiar reflexão em grupo de trabalho do 10º Encontro Nacional Fé e Política, realizado na cidade de Campina Grande (PB), entre os dias 22 a 24 de abril de 2016.
2. Empresa de Pesquisa Energética. Balanço Energético Nacional 2015 – Relatório Síntese.
3. 1 TWh equivale a 1 bilhão de kWh.
4. A tonelada equivalente de petróleo (tep) é a unidade padrão de energia e é utilizada para comparar o poder calorífico de diferentes formas de energia com o petróleo. Uma tep equivale à energia que se pode obter a partir de uma tonelada de petróleo. 1 Mtep = 1 milhão de tep.
5. Empresa de Pesquisa Energética. Balanço Energético Nacional 2015 – Relatório Síntese.
6. Segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia 2024 a redução projetada da participação das fontes não renováveis na matriz energética em 2024 será de apenas 2,7% comparada com 2015 (de 57,5% para 54,8%).
7. Empresa de Pesquisa Energética. Balanço Energético Nacional 2015 – Relatório Síntese.
8.. Banco de Informações de Geração (BIG). Disponível em:
http://www2.aneel.gov.br/aplicacoes/capacidadebrasil/capacidadebrasil.cfm. Acesso em 20/04/2016.
9. O mesmo BIG nos informa que atualmente existem nada menos que 2.886 usinas termelétrica no país, o que representa 64,2% do total de 4.495 empreendimentos em operação. Somadas, hidrelétricas e termelétricas respondem por 88,87% da capacidade de geração de energia elétrica do país, constituindo a base do sistema e justificando o termo utilizado.
10. Sobre o risco para a renovabilidade da matriz elétrica brasileira, pode-se consultar o seguinte artigo: http://energiaparavida.org/crise-hidrica-a-renovabilidade-da-matriz-hidreletrica-em-risco/
11. A título de exemplo, só em 2014 a China acrescentou 10.600 MW de capacidade instalada de energia solar fotovoltaica em sua matriz, acumulando naquele ano 28.199 MW. Já o Brasil, segundo o BIG da ANEEL, conta com menos de 23 MW.
12. Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil: www.energiaparavida.org
13. http://energiaparavida.org/frente-entrega-reivindicacoes-ao-ministerio-de-minas-e-energia/
14. Maiores informações em: http://goo.gl/O4LsVL

Grandes Projetos e seus impactos sociais e ambientais

por Ruben SiqueiraF
CPT / Bahia – Nacional
Articulação Popular São Francisco Vivo
Rede Brasileira de Justiça Ambiental

O que são grandes projetos?

  • Empreendimentos públicos e/ou privados de infraestrutura que, em nome do desenvolvimento econômico e social, visam sustentar e potencializar a expansão do modo de produção capitalista de bens e serviços.
  • Atualmente no Brasil, com o PAC – Plano de Aceleração do Crescimento, estão em curso 37 mil empreendimentos em diversas áreas (social e urbana, logística e energética), a um custo previsto, entre 2015 e 2018, de R$ 1,04 trilhão.

Faça Download da Apresentação em (Power Point)

 

Crise da Água

UMA DIMENSÃO DA CRISE CIVILIZACIONAL
Roteiro para a apresentação

 

CRISE DE UM MODO DE CIVILIZAÇÃO

  • AVANÇO DA TÉCNICA E DA CIÊNCIA – Informação, comunicação, redes, etc. Mudanças no macro e no micro – das células ao Universo em descoberta.
  • MUDANÇA NO MUNDO DOS VALORES- Mundo pós-cristão: pluralidade, diversidade, antagonismos, sectarismos, etc.
  • MUDANÇA NA POLÍTICA E ECONOMIA: Império Global, Restos de Democracias, Disputas pelos Bens Naturais, Migrações, Muros, etc.
  • MUDANÇAS NA TERRA: Mudança Climática, Erosão da Biodiversidade, Perda de Solos, Mudança no Regime das Águas: escassez quantitativa, qualitativa e apropriação privada.

 

ESCASSEZ QUANTITATIVA

  • EXPANSÃO DA DEMANDA PARA DIVERSOS USOS: irrigação, indústria, abastecimento doméstico.
  • BRASIL: indícios na ruptura do ciclo de nossas águas.
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CAUSAS

  • DESMATAMENTO DA AMAZÔNIA
  • DESMATAMENTO E COMPACTAÇÃO DO CERRADO.
  • Rios dependentes do Cerrado tendem a se enfraquecer e desaparecer. São Francisco é caso exemplar.
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EXPANSÃO DA DEMANDA

  • MATOPIBA
  • TRANSPOSIÇÃO
  • NOVOS PROJETOS DE IRRIGAÇÃO

NASA: Sudeste brasileiro perdeu 52 bilhões de metros cúbicos de água e o Nordeste 49 bilhões de metros cúbicos.
. AMPLIAM-SE OS CONFLITOS POR ÁGUA (CPT), INCLUSIVE OS ECONÔMICOS (Irrigação x Energia no São Francisco).
. PREJUÍZOS ECONÔMICOS: na agricultura irrigada, no cotidiano das famílias, no pequeno comércio, na produção de energia (lagos com usinas solares)

 

EXPANSÃO NECESSÁRIA

  • ADUTORAS PARA ABASTECIMENTO HUMANO (ATLAS BRASIL-ANA)
  • Programa Água para Todos (abastecimento)
  • USOS ECONÔMICOS (Mais água)
  • Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC)
  • Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2)
  • NA CONTRADIÇÃO, SUPERAÇÃO DA FOME, DA SEDE E DA MISÉRIA.

 

ADUTORA DE ARACAJU

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CANAL DA TRANSPOSIÇÃO

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CISTERNA DE BEBER

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CISTERNA DE PRODUÇÃO

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ESCASSEZ QUALITATIVA

  • POLUIÇÃO DOS MANANCIAIS: Esgoto doméstico, industrial, minerário, hospitalar, resíduos agrícolas, etc.
  • URGÊNCIA DO SANEAMENTO AMBIENTAL (BÁSICO): abastecimento humano; coleta e tratamento do esgoto; drenagem da água de chuva; manejo dos resíduos sólidos; controle de vetores.
  • CF 2017: BIOMAS E SEUS POVOS ORIGINÁRIOS (Retomada do P.M.S.B)

 

PRIVATIZAÇÃO E MERCANTILIZAÇÃO

  • OUTORGAS
  • SERVIÇOS URBANOS
  • ÁGUA ENGARRAFADA
  • MERCADO DE ÁGUA

 

NOVA CULTURA DA ÁGUA

  • CAPTAÇÃO DA ÁGUA DE CHUVA
  • REUSO
  • POUPANÇA
  • NOVAS MATRIZES ENERGÉTICAS (Solar…Eólica)
  • CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO
  • RELAÇÃO ENTRE SOLOS/VEGETAÇÃO/CICLO DAS ÁGUAS (Biomas, Domínios Morfoclimáticos).
  • RESISTÊNCIAS

 

FUTURO

  • COM DILMA ERA RUIM, COM TEMER PODERÁ SER PIOR.

 

REFERÊNCIAS

  • ROBERTO MALVEZZI (GOGÓ)
  • 74-999795231
  • www.robertomalvezzi.com.br
  • Fotos retiradas da internet

 

 

Moção das mulheres participantes do 10° Encontro Nacional de Fé e Política em defesa da Democracia

Moção das mulheres participantes do 10° Encontro Nacional de Fé e Política em defesa da Democracia

Nós mulheres, feministas, do campo e da cidade, da luta por direitos e contra a violência, integrantes/ dirigentes de partidos políticos e também sem filiação partidária, de diversos segmentos religiosos cristãos, das pastorais sociais, das Comunidades Eclesiais de Base, das Escolas de Fé e Política desse país, educadoras populares e de diversos movimentos sociais populares, reunidas nos dias 22, 23 e 24 de abril do ano de 2016, no 10° Encontro Nacional de Fé e Política, em Campina Grande – PB manifestamos nosso total apoio a Presidenta Dilma Rousseff e repudiamos a tentativa de golpe como forma de retrocesso à democracia brasileira, tão nova em nosso país.

Nos últimos meses acompanhamos um movimento liderado por políticos fascistas, conservadores e machistas amparados por um judiciário que rompe com seu compromisso com a justiça e a imparcialidade; apoiado por uma elite brasileira que não respeita a distribuição de renda e o empoderamento das mulheres; e financiado por recursos transnacionais.

Estes e a mídia golpista brasileira vem implantando uma crise, travando pautas importantes no Congresso Nacional e avançando na aprovação de leis que vão contra os direitos já garantidos.

Reconhecemos que o governo do PT rompeu em muitos momentos com a base e deixou de lado questões fundamentais como a reforma agrária e o respeito aos direitos dos povos originários desta terra. Porém, não se pode por isso permitir um retrocesso dos direitos sociais conquistados.

Acreditamos que grande parte da resistência e sabotagem ao governo da Presidenta Dilma Rousseff se dá única e exclusivamente por sua condição de mulher. Numa sociedade patriarcal e machista, onde a misoginia permeia as relações sociais correntes, contribuindo no favorecimento e na eleição para cargos eletivos de homens defensores da tortura e de outras tantas formas de violência, construiu-se um parlamento com atitudes reacionárias e que flerta com o conservadorismo que sustenta a estratificação social, seja ela de classe, de gênero ou de raça. Parlamento esse que tenta golpear a Democracia fazendo uso do mesmo discurso de outrora, que deflagrou o Golpe de 1964 e atirou nosso país a 21 anos de escuridão: o uso do nome de Deus e da família nuclear patriarcal.

Como mulheres belas, de lutas e do espaço em que quisermos estar, inspiradas pelo ideário do Bem Viver e banhadas nas águas da solidariedade, queremos plantar as sementes da esperança. A esperança de um país com mais justiça social e respeito as minorias! Um país fortalecido na defesa intransigente da Democracia onde não se admita nenhum direito a menos. Sabemos que a caminhada é difícil, mas a luta nos constrói a cada dia, pois acreditamos que outro mundo é possível.

Não vai ter golpe!
Vai ter luta!
Viva a democracia!

[assinam as mulheres presentes]

Painel: Entendendo as Crises

ROTEIRO DA REFLEXÃO PROPOSTA POR ALDER JÚLIO F. CALADO

BUSCANDO ENTENDER AS CRISES COM DISCERNIMENTO E ALTERNATIVIDADE, ABERTOS AO QUE O ESPÍRITO TEM A NOS DIZER

 

– Como seres humanos, como cidadã(o)s e como cristã(o)s, somos chamados a compreender e transformar incessantemente nossa realidade, a despeito de toda sua complexidade e dos nossos limites.

– Um primeiro passo como condição para uma intervenção transformadora da mesma realidade, à luz do Reinado de Deus e Sua justiça, consiste em analisá-la com critérios inspirados em nossa fé. Nesse sentido, vale a pena refrescar a memória com algumas passagens bíblicas e da Tradição de Jesus, que nos trazem luz, na busca de cumprimento desta tarefa:

  • Que horizonte de sociedade somos chamados a ir construindo, e que “atalhos” (a tentação da “porta larga”) somos chamados a recusar?
  • Is 65, 17ss; Jl 3,1-2; Mc 10, 42-45 (“Entre vocês não seja assim.”); Lc 4, 16-19;

– Buscar construir esse horizonte, por quais caminhos?

  • 1 Ts 5, 19-21 (“Examinem tudo e fiquem com o que é bom”); Jo 8, 31-32 (“Vocês conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”); “apostar no que dá certo”: Mt 7, 24-29 (“… e ela não desabou, porque estava construída sobre a rocha.”); Mc 4,22 (caminhos de transparência: “Nada há oculto que não venha a ser revelado”); Tg 2,24 (a fé sem obra é morta); Mt 7,16 (Atenção aos sinais: “Por seus frutos, vocês os conhecerão”); os riscos dos “atalhos”: Mt 7,13: (“Procurem entrar pela porta estreita, porque larga é a porta e amplo o caminho da perdição”)

Critérios fecundos de análise da realidade a não perdermos de vista:

–  observar a diversidade de correntes de interpretação da realidade (não apenas de autores; não ler apenas textos simpáticos à nossa aposta);

– seguir balizas de interpretação nas quais sejamos os primeiros a ver nossas próprias práticas, antes de “enquadrar” os outros;

– confrontar práticas, escritos e ditos de hoje com práticas, escritos e ditos de ontem ou décadas precedentes (em situações semelhantes de época recente, como nos comportamos?)

– priorizar, desde já e continuamente, experiências moleculares portadoras de alternatividade, quanto ao:

  • horizonte e caminhos inspirados dos valores do Reino de Deus e Sua justiça;
  • processos organizativos (experiências de nucleação, autonomia e interconexão dos núcleos; protagonismo do conjunto dos participantes, decisões tomadas pela base; atenção ao critério da delegação, alternância de cargos e funções coordenativas;);
  • processo formativo (contínuo, não apenas de dirigentes, mas do conjunto dos protagonistas, cultivo da memória histórica e dos bons clássicos, cultivo da mística revolucionária; exercício da autocrítica; valorização da criatividade, inclusive por meio do universo artístico…)
  • processo de mobilização como expressão da formação contínua);
  • ir além da formação estritamente política, rumo a uma formação integral – do ser humano como um todo e de todos os seres humanos, buscando o aprimoramento incessante de suas potencialidades e superação progressiva dos seus limites.
  • ante a atual crise (também) de identidade de Classe (em linguagem cristã, dizemos Povo de Deus, em especial, povo dos pobres chamado à Liberdade), repensar, com autocrítica, essa situação.

Questões que ainda me(nos) coloco:

= De lado a lado, será que o tempo conjuntural é mesmo o mais propício para firmarmos, de modo contundente, nossas convicções, sem deixarmos qualquer margem de dúvida (dada nossa condição de seres inconclusos que, aí, aparece mais vulnerável)?

= Que críticas tecemos, com razão, contra o “outro lado” que, de repente, sentimos presentes também em nossas próprias práticas?

= Que tal buscarmos restituir nossas esperanças em bases mais consistentes, investindo mais e melhor em experiências de ontem e de hoje que se revelam prenhes em alternatividade a este modelo hegemônico?

O cenário que se desenha hoje

Pedro A. Ribeiro de Oliveira*

            Exponho meu pensamento de modo afirmativo, mas deixo claro que a tese que o perpassa – a derrota do projeto nacional-desenvolvimentista brasileiro – é somente uma hipótese. Hipótese pessimista, mas capaz de abrir uma perspectiva otimista para a ação, como recomendava o mestre Gramsci.

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