A perda de capilaridade social e a desafeição dos católicos. Desafios da Igreja no Brasil em tempos de Papa Francisco.

Entrevista especial com Pedro Ribeiro de Oliveira

“Nos dois primeiros anos do pontificado de Francisco, a maior parte da Igreja (pelo menos no Brasil) apenas fez de conta que estava em sintonia com ele, porque sua linha pastoral continuou a mesma de outros tempos”, diz o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira à IHU On-Line. Contudo, pontua, depois da publicação de três documentos pontifícios de “grande impacto”, “é cada vez mais clara a mudança de rumo que Francisco imprime à Igreja e isso repercute no Brasil”.

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Páscoa, raiz da espiritualidade político-libertadora

 

Marcelo Barros e
Pedro A. Ribeiro de Oliveira

 

“Estejam sempre preparados/as para responder com mansidão e respeito a qualquer um que lhes pedir contas da esperança que há em vocês” (1 Pd 3, 15).

 

Desde 50 anos até agora, na América Latina, as comunidades cristãs de base e as pastorais sociais se apoiam no livro do Êxodo para ligar a fé com o compromisso social e político da libertação. Já no começo da década de 80 nós cantávamos:

“No Egito antigamente, no meio da escravidão,

Deus libertou o seu povo.

Hoje Ele passa de novo, gritando libertação”.

 

Hoje ainda há quem critique o CEBI e a leitura bíblica das Pastorais sociais, por se apoiarem mais no Antigo Testamento do que no Novo. Essa acusação não é justa, porque é o evangelho o centro das suas meditações e sua principal referência. No entanto, é verdade que o modo como se lê a Bíblia na caminhada de libertação é diferente da leitura clássica e comum nas Igrejas. O próprio fato de chamar a Bíblia hebraica (a Tenak) de “Antigo Testamento”, além de ofender aos irmãos judeus, é injusto com os textos que nós mesmos lemos como sendo palavra divina até hoje. Se, de fato, os textos do Pentateuco e dos profetas precisam de uma releitura crítica, todos os textos, até as palavras de Jesus no evangelho, precisam.

O Cristianismo perdeu sua força social e política ao afastar-se da tradição judaica. Muito simplificadamente, poderíamos dizer que no primeiro testamento, Deus se revela como JUSTIÇA libertadora e no Novo Testamento, sem deixar essa dimensão, ele revela sua GRAÇA para todos.

Quem está na caminhada da libertação percebe que a sua fé é essencialmente libertadora. Como diz Paulo, temos de passar de uma fé que não leva à justiça (ela existe) a uma fé que leva à justiça libertadora de Deus (Rm 1, 16). Por isso, é importante retomar o aprofundamento bíblico que não tivemos possibilidade de fazer desde os anos 80. Trata-se, hoje, de recuperar plenamente a dimensão libertadora da fé. Devemos revalorizar a intuição judaica e relê-la à luz do evangelho de Jesus não para superar seu caráter social e político, mas para revalorizá-lo para o nosso tempo. A celebração da Páscoa judaica e cristã é uma excelente oportunidade para isso.

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Deus se revela como Deus na luta de libertação dos hebreus. É no meio da caminhada da libertação do povo oprimido que Deus faz sua aliança de intimidade e de compromisso de vida. Foi com um povo de escravos saindo da escravidão que Deus faz sua experiência de maior intimidade de vida. E para a fé cristã isso é paradigmático: este é o nosso Deus e assim ele quer ser encontrado.

Paulo e os autores do Novo Testamento procuraram atualizar essa fé e dizer que toda a humanidade é herdeira da promessa divina da salvação. Mas, ao explicar isso, precisaram espiritualiza-la: a terra prometida se torna o reino de Deus. A libertação que na aliança do Sinai era concreta e visava a terra e a liberdade se torna em Paulo libertação da lei, do pecado e da morte (é ressurreição). Essa forma de interpretar os textos acabou por espiritualizar o que era integral e, de certa forma, muitas vezes levou a esvaziar a dimensão propriamente político-libertadora da primeira revelação.

O eixo principal do acontecimento e do livro do Êxodo é que Deus se revela às pessoas que aceitam se colocar na aventura social e política de sair da escravidão do Egito e na caminhada da libertação como caminho da intimidade com Deus, ou seja, como forma de ter parte na aliança entre Deus e Israel. Ela começa por uma palavra considerada divina, a palavra dita a Abraão, como uma ordem: sai! No Êxodo, essa mesma palavra sai é a palavra fundamental. Não é mais a saída de um patriarca, mas de um povo e não é mais a peregrinação em busca de uma terra, mas é a luta pela libertação e a dura e terrível conquista de uma terra ocupada por outros povos. É claro que o relato do Êxodo é épico e tem pouquíssima base histórica. Mas a fé de Israel se baseia no que esses relatos têm como mensagem: tribos de hebreus leram sua história como de um êxodo conduzido por Deus da escravidão à liberdade, do exílio à terra prometida, da marginalidade à comunhão. Esse é o ponto fundamental da fé bíblica. É pena que essa mensagem tenha sido diluída a ponto de tornar-se uma mensagem moralizante e espiritualista.

Deus revela-se a Moisés. Não para ele, que estava bem, casado e tendo terra em Madiã, mas para os outros. Não teria havido Êxodo – e não haverá hoje – se quem é chamado não se colocar em caminho. É importante notar que a Bíblia junta os hebreus – membros dos grupos oprimidos e marginalizados – e Israel, o povo eleito.

Quando Deus mandou Moisés ao faraó para lhe dizer (não para pedir): “Deixa meu povo sair do Egito“, a razão era para “fazer uma festa para mim, a três dias de caminho no deserto“. Uma festa no deserto. No meio do deserto (hoje se diria na guerrilha, na clandestinidade, na resistência, mas também na persistência tantas vezes solitária de quem luta cotidianamente para fazer organização e conscientização do povo), Deus se revela e revela o mais íntimo de si, o seu nome – o seu mistério – e nos convida a viver o caminho a partir do seu amor e de sua presença, guiados/as por Ele/Ela e como sacerdotes/sacerdotisas do seu projeto divino de fazer deste mundo o seu reino de justiça e de paz.

A Bíblia ensina é que a iniciativa da saída do Egito foi de Deus e não de uma tribo de escravos que precisava de apoio. Ela se refere a um grito de sofrimento, um lamento de angústia, mas não a um pedido de libertação, talvez porque muitos escravos interiorizam a escravidão e se contentam em ter um patrão que não os maltrate. Deus quer libertar o povo oprimido, mas este prefere ter as cebolas e a segurança do Egito. (Cf. Ex 16 e Nm 11). A tradição bíblica mostra que o sujeito da libertação é Deus. O povo queria religião (fazer uma festa para Deus no deserto), mas o projeto de Deus é outro: Ele chama Israel para se libertar.

Os relatos do mar que se abriu, do maná que cai no deserto, da água que jorra da pedra não representam o cotidiano da luta e da caminhada. Seu cotidiano era a dureza, a experiência do deserto sem estradas e sem segurança, sem garantia de alimento e de água. Era principalmente a experiência de muitas derrotas no meio da luta. Na caminhada e nas lutas do povo, esses silêncios de Deus parecem ausência. A luta de libertação é inspirada e desejada por Deus, mas nem por isso é uma guerra santa. Tem de ser laical, histórica e é responsabilidade nossa e não de Deus. No próprio livro do Êxodo a ordem de Deus a Moisés e ao povo é “Não dizer (não pronunciar) o nome de Deus”: não atribuir a ele o que não se tem certeza, nem considerar que podemos sempre contar com sua intervenção poderosa. No deserto, o que mais tentou o povo foi o silêncio de Deus, a ausência de sinais de que ele estivesse presente.

Na caminhada da libertação não há certezas absolutas. Não há seguranças nem facilidades. Quando, no deserto, o povo adorou o bezerro de ouro, Deus disse a Moisés: “Deixa esse povo de lado e eu farei de ti um novo povo e te darei a liberdade”. Era Deus quem dizia isso (não era o diabo). No entanto, Moisés reagiu e disse: “De modo algum. Ou o Senhor salva esse povo ou me condena junto com ele” (Ex 32-33).

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Para alimentar a fé e a espiritualidade dos e das militantes, é preciso encontrar outra forma de celebrar e de curtir a fé. A Páscoa pode ser uma ocasião de retomar a memória da fé, a alegria da nossa esperança e assim intensificar a pertença comunitária e a comunhão.

Não faz sentido propor aos irmãos e irmãs do Movimento Fé e Política uma reconstituição da ceia judaica. No entanto, a memória da ceia pascal judaica e uma reflexão sobre a ceia de Jesus podem nos ajudar a concluir essa meditação.

“O tempo de nossa libertação” é o modo como as comunidades judaicas chamam a semana da Páscoa. Para quem crê, a celebração anual da Páscoa não é uma comemoração de acontecimentos longínquos ou míticos, mas sim uma experiência atual e comprometedora. A Páscoa nos convida a fazer parte desse evento libertador fundamental, para si mesmo/a, para o nosso povo e para toda a humanidade – e hoje acrescentamos: para a Terra, nossa casa comum.

Israel transformou uma festa da primavera em memória do acontecimento histórico que foi a saída dos hebreus do Egito, visto como uma revolução social e política: a libertação dos escravos e a conquista da terra prometida. Jesus foi a Jerusalém para celebrar a Páscoa (como qualquer judeu celebra) quando foi preso, condenado à morte e crucificado. Embora não se possa garantir que a ceia celebrada com os discípulos e discípulas fosse a ceia da Páscoa, ele deu a essa ceia caráter pascal. Ao insistir na comunhão entre os que comem e ao se dar simbolicamente no pão e no vinho, ele reforça uma nova aliança. Não para substituir a primeira (do Sinai) que é sempre atual, mas para radicalizá-la e universalizá-la.

No primeiro testamento, a ressurreição tem uma conotação social e política clara (ressurreição é uma nova insurreição – Ver Ezequiel 37). Com Jesus, a vitória sobre a morte e a manifestação de que Ele está vivo e atua junto aos seus é uma força nova e imensa no projeto da aliança que é o mesmo do Êxodo, libertar-se e se constituir como comunidade do reino.

Seria preciso que as comunidades retomassem com liberdade e criatividade a festa da Páscoa, a Vigília que Santo Agostinho chama de “mãe de todas as Vigílias da Igreja”, fazendo dela um rito do nosso compromisso de viver a fé como espiritualidade político-libertadora e recebendo dela a força necessária para prosseguir na luta. Em muitas comunidades, nessa vigília se inclui a memória de nossos mártires, a renovação não apenas do batismo que a maioria de nós recebeu quando criança, mas do compromisso que é nossa opção prioritária de fé, a nossa consagração à justiça, à paz e ao cuidado com a criação. No sertão do Nordeste, nesse momento, depois de seis anos de seca, caem as primeiras chuvas e o povo canta com Reginaldo Veloso: “O Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor, da pedra a água saiu, era noite e o sol surgiu, aleluia!”.

Celebremos, então, com grande alegria, a memória da Páscoa de Jesus, fazendo dela alimento para nossa vida de Fé e de compromisso político-libertador.

 

O despertar da CNBB

Pedro A. Ribeiro de Oliveira

Foi com alegria que li a nota da CNBB contra o projeto de reforma da previdência, precedida por uma carta pastoral da Diocese de Volta Redonda e uma nota da Província eclesiástica de Belo Horizonte. Ao final do ano passado a Igreja Luterana (IECLB) já havia tomado a mesma posição, mas até agora a CNBB parecia vacilar ante o golpe parlamentar desferido contra a Constituição cidadã de 1988 – e não somente contra a presidente Dilma.

O texto da CNBB lembra que “os Direitos Sociais no Brasil foram conquistados com intensa participação democrática; qualquer ameaça a eles merece imediato repúdio”, e afirma “a intrínseca matriz ética” do sistema de Previdência “criado para a proteção social de pessoas expostas à vulnerabilidade social (idade, enfermidades, acidentes, maternidade…), particularmente as mais pobres”.

Vai ao âmago do problema ao afirmar que “os números do Governo Federal que apresentam um déficit previdenciário são diversos dos números apresentados por outras instituições, inclusive ligadas ao próprio governo”. Após essa insinuação de que o Governo esconde a verdade dos números, afirma a necessidade de “auditar a dívida pública, taxar rendimentos das instituições financeiras, rever a desoneração de exportação de commodities, identificar e cobrar os devedores da Previdência.”

Após essa análise da realidade, a CNBB convoca “os cristãos e pessoas de boa vontade, particularmente nossas comunidades, a se mobilizarem ao redor da atual Reforma da Previdência, a fim de buscar o melhor para o nosso povo, principalmente os mais fragilizados”. Aqui reside o ponto fraco. Não do texto, mas da própria CNBB: para o povo se mobilizar em defesa dos seus direitos, não basta uma convocação. Veja-se o exemplo recente da Reforma Política.

Há três anos a CNBB e dezenas de organizações da sociedade civil fizeram um projeto de lei de iniciativa popular a ser encaminhada ao Congresso. O total de assinaturas, porém, não chegou a 600 mil – pouco mais de 1/3 do necessário. Ficou patente, então a perda da capilaridade social da Igreja católica, tão eficaz nas lutas em defesa dos Direitos Humanos durante a ditadura, e na elaboração da Constituição cidadã de 1988.

A enorme rede de Comunidades Eclesiais de Base – CEBs – articuladas pelas Pastorais Sociais e sintonizadas com as Comissões de Justiça e Paz, em sintonia com a CNBB, eram uma força social capaz de causar temor até mesmo nos militares – que não conseguiam silenciá-las. A retirada do apoio às Pastorais Sociais e às equipes de CEBs, porém, resultou em sua gradual desarticulação. Nas dioceses onde elas ainda têm agentes de pastoral liberados/as para dinamizá-las, continuam capazes de mobilizar as bases populares; mas onde os bispos cancelaram o desembolso financeiro para manter as equipes de articulação, elas definharam. Diante desta realidade, convocar uma mobilização popular é apenas um desejo piedoso.

Trata-se então de completar o auspicioso pronunciamento da CNBB com um plano de apoio às CEBs, Pastorais Sociais, Comissões de Justiça e Paz e organismos equivalentes. Elas perderam o vigor do passado, mas não morreram. Podem rejuvenescer se voltarem a receber o apoio e os recursos financeiros que possibilitem liberar pessoas para sua articulação, promover formação sócio-política para suas lideranças, e favorecer sua participação em encontros.

Se nossos bispos tiverem coragem de investir nas CEBs e nas Pastorais Sociais pelo menos a metade do que se investe na formação de seminaristas, a Igreja católica reconquistará seu papel de protagonista na defesa dos Direitos Humanos, da Cidadania e da Terra. É uma questão de opção pastoral, como exige o contundente apelo do Papa Francisco, em favor de uma Igreja em saída. Aliás, a conversão pastoral de que fala o Documento de Aparecida significa tirar a Igreja da sacristia e levá-la às periferias, mesmo porque é lá que a Igreja encontrará apoio efetivo para garantir os Direitos dos Pobres.

 Doutor em Sociologia, Professor – hoje aposentado – dos Programas de Pós-Graduação em Ciência(s) da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC Minas. Membro do ISER-Assessoria.

A CNBB e o pensamento único

Pedro A. Ribeiro de Oliveira

http://www.ihu.unisinos.br/562879-a-cnbb-e-o-pensamento-unico


Artigo publicado no jornal O Globo em 21 de novembro acusa a CNBB de “aumentar a confusão” dos católicos ao criticar a proposta de ajuste fiscal que impõe um teto de gastos para o governo federal. O autor mostra-se indignado pelo fato de a CNBB não seguir os mandamentos da economia neoliberal e desconfiar da promessa de prosperidade ao país que se entrega ao capital financeiro. Culpa a “ingenuidade de alguns membros da Igreja” e recomenda que sejam aconselhados por cientistas sociais das universidades católicas (como ele próprio, presumo). O artigo exemplifica bem o que é o pensamento único e por isso tomo-o como referência para esta reflexão crítica.

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Entrevista IHU – conjuntura

– Como está analisando e compreendendo o atual momento político do país?

Não há como escapar do lugar-comum: cada dia os ventos da política sopram numa direção. Nesta semana assistimos pela TV a espetacularização da denúncia do Lula como chefe supremo do esquema de corrupção para manutenção do PT no poder. Fiquei impressionado pelo primarismo da denúncia sem provas. Embora ela fosse previsível, foi tão mal feita que me pareceu ter sido improvisada às pressas como manobra para conter o avanço do movimento “Fora Temer”. É claro que um governo que não teve votos não se curvará à pressão das ruas, mas certamente os 70.000 ricaços do Brasil já devem estar preocupados com a fragilidade do governo Temer, incapaz de implementar o projeto de tornar a economia brasileira mais dependente dos EUA. Talvez eles tenham que optar por uma eleição direta para apaziguar o país e nesse caso o resultado é imprevisível. É o panorama que vejo hoje, mirando apenas o cenário político brasileiro.

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Religião da ordem x espiritualidade política

Pedro A. Ribeiro de Oliveira*

A votação do processo de impeachment na Câmara Federal, transmitida ao vivo pela TV aberta a noite de 17 de abril espetacularizou o uso da religião e da família como justificativas para uma opção política. Deus, a família e a vinculação de cada parlamentar a seu reduto eleitoral foram os motivos mais alegados em favor da derrubada do governo Dilma, independentemente de ela ser ou não culpada pelo alegado crime de responsabilidade fiscal. Esse fato escancarou uma realidade que até então parecia restrita a certos grupos evangélicos: a religião vem ocupando espaços antes destinados exclusivamente a partidos políticos. Não vamos analisar aqui a falência dos partidos políticos, mas o papel político[2] agora desempenhado por grupos que se identificam e são identificados como cristãos (de confissão evangélica ou católica).

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O Movimento Fé e Política e a crise brasileira

Pedro A. Ribeiro de Oliveira

Artigo publicado no IHU-notícias no dia 19/07/2016 refere-se ao 10º Encontro Nacional de Fé e Política ao abordar a dificuldade de a esquerda assumir uma posição crítica em relação ao pragmatismo político dos governos Lula e Dilma. Embora os seus autores só tenham tomado por mote a dramatização do episódio da reanimação de Lázaro (Jo, 11: 17-53), quando cada dupla fazia variações sobre a frase “Se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”, é certo que o problema existe. Também o painel inicial, dedicado à análise da conjuntura (O cenário que se desenha hoje) e a Nota pública só abordam o problema com muita cautela. (Cfr. http://fepolitica.org.br/category/textos-do-painel-e-grupos-tematicos/. Ao retomar aqui a questão, o faço a título pessoal e não como membro da Coordenação nacional, para esclarecer os propósitos do Movimento Fé e Política e para apontar um encaminhamento para essa reflexão.

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O cenário que se desenha hoje

Pedro A. Ribeiro de Oliveira*

            Exponho meu pensamento de modo afirmativo, mas deixo claro que a tese que o perpassa – a derrota do projeto nacional-desenvolvimentista brasileiro – é somente uma hipótese. Hipótese pessimista, mas capaz de abrir uma perspectiva otimista para a ação, como recomendava o mestre Gramsci.

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Herodes e o menino

Pedro A. Ribeiro de Oliveira

Nesse dia seis de janeiro, ao celebrar com a Folia de Reis a visita dos Magos ao menino que amedrontou Herodes, me veio o gosto amargo da derrota sofrida em Imbituba, há penas uma semana: Herodes mandou degolar mais um menino. Com o requinte de crueldade de ser a criança atacada justamente onde nos sentimos maior segurança – o colo materno.

Se Vitor fosse branco e estivesse com a família em uma praça do Rio ou São Paulo, o crime hediondo estaria em todos os noticiários e provocaria repulsa maior do que as fotos de prisioneiros prestes a serem degolados por terroristas do Estado Islâmico. Mas Vitor é Kaingang e só foi morto porque índio não tem valor para a sociedade capitalista. Não se sabe até o momento de quem é a mão que passou o estilete mortal na garganta do menino. Sabemos, porém, quem são os mandantes do assassinato: grandes proprietários e proprietárias de terra que não respeitam o direito dos Povos Indígenas a terem seu próprio modo de produção e de consumo. Tal como o Herodes bíblico, eliminam até mesmo crianças que possam um dia ameaçar seu poder econômico.

Em outros tempos a Igreja católica não ficaria em silêncio diante de um crime como esse. A nota do CIMI seria acompanhada de uma nota dos bispos e repercutiria por dezenas de milhares de comunidades de base de todo o Brasil. elebraríamos os Reis magos, com certeza, mas não deixaríamos em silêncio o crime cometido por Herodes apenas uma semana antes. Pediríamos perdão por não termos evitado, com uma legislação e uma educação corretas, o preconceito contra os povos indígenas e nos comprometeríamos com os Santos Reis a tomar outro rumo nos caminhos da história. O sofrimento daquela pequena família Kaingang ao ver seu filho caçula esvaindo-se em sangue deveria dar um sentido mais realista à elebração da Epífania: aprender com os Santos Reis da bela tradição popular, a ver naquela criança degolada o anúncio da Libertação dos Povos Indígenas.

Que neste ano da Misericórdia, ao passar pela porta do jubileu e entrarmos numa igreja, sejamos chamados à conversão e saiamos pela mesma porta para assumir a defesa da Vida das crianças Kaingang, Kayová, Mundurucu e de todos os outros povos que há quinhentos anos querem nos ensinar a viver em Paz com eles.

Espiritualidade política

No sea así entre ustedes: ensayo sobre política y esperanza: Juan Hernández Pico, S.J. San Salvador, El Salvador, UCA editores, 2010; (ISBN: 978-99923-5930-3; 700 pg.)
Publicado em Horizonte, out – dez 2015: http://dx.doi.org/10.5752/P.2175-5841.2015v13n40p2320

Apresentação
O que fazer em tempos de desalento e cinismo, quando a globalização do mercado rompe os laços de solidariedade humana e favorece a indiferença diante do sofrimento alheio? Continuar lendo