DOM Marcelo Carvalheira, Cristão Intransigente

Frei Betto

Perseguido pela repressão da ditadura militar em 1969, transferi-me de São Paulo para São Leopoldo (RS), matriculado no curso de teologia dos jesuítas. No seminário Cristo Rei funciona também um curso para reitores de seminários. Ali conheci padre Marcelo Carvalheira, reitor do Seminário Regional do Nordeste, no Recife, e assessor de Dom Helder Camara.
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A Gaiola Neoliberal

Frei Betto

Ao contrário do liberalismo, o neoliberalismo defende a supremacia do mercado e a redução do Estado a mero operador de interesses corporativos privados. A democracia, entendida como participação popular, é um estorvo para o neoliberalismo. Como certo general brasileiro, não suporta “o cheiro de povo”.
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É possível ser Ético?

Frei Betto

Pode ser estancada a corrupção que cria relação promíscua entre Estado e interesses privados? Depende. Não bastam leis. É preciso criar mecanismos de rigorosa aplicação das leis. E ainda que existam, seus operadores, como os fiscais da Carne Fraca, podem se omitir graças à corrupção.

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A Natureza de Trump

Frei Betto

Quem planta limoeiro espera colher limão. No entanto, nossa sociedade, movida pela óptica analítica, e não pela dialética, se acostumou a examinar os fatos por seus efeitos e não por suas causas.
O próprio sistema ideológico no qual vivemos cuida de encobrir as verdadeiras causas. Assim, há países pobres porque seu povo não é empreendedor; muçulmanos são potenciais terroristas; presos comuns, irrecuperáveis; homossexuais, pervertidos; negros, inaptos às carreiras científicas etc.

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O Medo Governa

Frei Betto

Neste mundo desprovido de utopia, senso histórico e confiança na representatividade política, o medo ocupa cada vez mais espaço. As forças conservadoras nos incutem tal insegurança que, como cordeiros a serem tosquiados, aceitamos trocar a liberdade pela segurança. Deixamos de melhorar a nossa qualidade de vida ou fazer uma viagem de lazer para manter intocado o dinheiro no banco.

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Um Discípulo Exemplar

Frei Betto

A fé nasce do testemunho. Ninguém adere a uma religião ou Igreja por ter lido um texto doutrinário. Foi o testemunho de Jesus, de Pedro e Paulo, e dos mártires, que fizeram o Cristianismo sobrepujar o Império Romano.

Foi o testemunho de Antônio Cechin que fez de mim um militante cristão. No primeiro fim de semana deste mês de novembro, estivemos juntos, em Corrêas (RJ), na companhia de uma comunidade vinculada à Teologia da Libertação.

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Brasil, Começar de novo

Frei Betto
No Brasil, agosto é mesmo o mês do desgosto. Em agosto de 1954, Getúlio Vargas, escorraçado do poder por pressão da Aeronáutica, disparou uma bala contra o próprio coração e saiu “da vida para entrar na história”, como registrou na carta-testamento.

Em agosto de 1961, Jânio Quadros renunciou à presidência da República na esperança de voltar ao poder nos braços do povo, e de costas para a democracia

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Relação Fé e Política

Frei Betto

Para que servem as Igrejas? Para alguns, meio de extorquir os fiéis e ainda usufruir do privilégio de não pagar impostos. Para outros, modo de dispor de poder revestido de suposta auréola de santidade que tem, como fiador, o próprio Deus.

E há quem acredite que da cabeça de Jesus surgiu a Igreja tal qual a conhecemos hoje. Igreja deriva do grego ‘assembleia’. É a comunidade dos que aderem à proposta de Jesus e acreditam que ela expressa a vontade de Deus. Embora na atualidade as Igrejas se caracterizem por administrar sacramentos, promover cultos ou missas, e realizar supostas curas, assegurando aos fieis a salvação, não é isso que transparece na prática de Jesus descrita nos evangelhos.
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Frei Betto – Drogas e Religião

Frei Betto – Drogas e Religião

Participei em São Paulo, em dezembro último, do simpósio sobre crack promovido pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas).

Historicamente, o uso de alucinógenos e outros aditivos químicos teve início em rituais religiosos, como ainda hoje ocorre com a ayahuasca, utilizada pelos adeptos do Santo Daime.

Na descrição que o evangelista Mateus faz do nascimento de Jesus consta que os reis magos (astrólogos?) levaram de presente ao Messias ouro, símbolo da realeza; incenso, símbolo da espiritualidade; e mirra, símbolo do profetismo.

O incenso, utilizado inicialmente no antigo Egito e extraído do tronco de árvores aromáticas, é uma “droga” que reduz a ansiedade e o apetite. Ao contrário do que muitos pensam, não é originário da Índia, e sim das montanhas do sul da Arábia Saudita e da Somália e Etiópia.

A mirra, originária da África tropical, é uma resina obtida dos arbustos do gênero Commiphora. Seus efeitos analgésicos se comparam aos da morfina. No Evangelho de Marcos, aparece, mesclada ao vinho, oferecida a Jesus torturado antes de o crucificarem; ele rejeitou a bebida.

Hoje, as substâncias químicas obtidas de plantas superaram o âmbito religioso e terapêutico e se tornaram iscas à dependência química com suas nefastas consequências, como é o caso da coca, cuja folha é mascada pelos indígenas andinos para facilitar a respiração em regiões de oxigenação rarefeita.

Há ainda a produção de drogas sintéticas e o “doctor shopping”, o médico que produz poderosos analgésicos capazes de provocar a morte de seus pacientes, como foram os casos de Michael Jackson e Whitney Houston.

A repressão ao narcotráfico não mostra resultados satisfatórios. As famílias dos dependentes, desesperadas, buscam internações e terapias “miraculosas”.

Ora, médicos, remédios e terapias podem, sim, ajudar na recuperação de dependentes. O fundamental, porém, é o amor da família e dos amigos – o que não é nada fácil nessa sociedade consumista, individualista, na qual o “drogado” representa uma ameaça e um estorvo.

A religião, adotada em algumas comunidades terapêuticas, pode favorecer a recuperação, desde que infunda no dependente um novo sentido para a sua vida. Eis, aliás, o que evitou que a minha geração, aquela que tinha 20 anos na década de 1960, entrasse de cabeça nas drogas: éramos viciados em utopia. Nossa “viagem” era derrubar a ditadura e mudar o mundo.

Na questão das drogas há que distinguir segurança pública de saúde pública. Sou favorável à descriminalização dos usuários e penalização dos traficantes. Os usuários só deveriam ser afastados do convívio social quando forem uma ameaça à sociedade. Nesse caso, precisariam ser encaminhados a tratamento, e não a encarceramento.

A religião nos mergulha no universo onírico, pois nos faz emergir da realidade objetiva e nos introduz na esfera do transcendente, imprimindo sacralidade à nossa existência. Mais do que um catálogo de crenças, ela nos permite experimentar Deus, daí sua etimologia, nos re-liga com Aquele que nos criou e nos ama, e no qual haveremos de desembocar ao atingir o limite desta vida.

Ocorre que, graças ao neoliberalismo e seu nefasto “fim da história” – uma grave ofensa à esperança -, e às novas tecnologias eletrônicas, às quais transferimos o universo onírico, já quase não temos utopias libertárias nem o idealismo altruísta de um mundo melhor. Queremos melhorar a nossa vida, a de nossa família, não a do país e da humanidade.

Esse buraco no peito abre, nos jovens, o apetite às drogas. Todo “drogado” é um místico em potencial, alguém que descobriu o que deveria ser óbvio a todos: a felicidade está dentro e não fora da gente. O equívoco é buscá-la pela porta do absurdo e não a do Absoluto.

Um pouco mais de espiritualidade cultivada nas famílias, sobretudo em crianças e jovens, e não teríamos tanta vulnerabilidade à sedução das drogas.

Enfim, incenso faz bem à alma.

– FREI BETTO – Escritor, autor de “O vencedor” (Ática), romance sobre drogas, entre outros livros.

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Frei Betto – Oscar Niemeyer, Autodefinição

Frei Betto – Oscar Niemeyer, Autodefinição

Foi o meu editor e compadre Ênio Silveira que, na década de 1970, me apresentou a Oscar Niemeyer. Durante a Eco-92,no Rio, o arquiteto me disse que teria prazer em receber Fidel Castro no seu escritório, na Avenida Atlântica, para um encontro com formadores de opinião.

Na noite de domingo, 14 de junho, acompanhei o presidente de Cuba ao encontro. O anfitrião nos aguardava à porta. Subimos pelo velho elevador de grade sanfonada. Casa de ferreiro, espeto de pau. O mais famoso arquiteto brasileiro mantinha seu escritório num antigo prédio cujos elevadores funcionavam precariamente.

Cerca de 40 intelectuais e artistas ali se encontravam, entre eles Darcy Ribeiro, Ênio Silveira, Moacyr Werneck de Castro, Antonio Callado, Leandro Konder, Ferreira Gullar, Eric Nepomuceno, Íttala Nandi, Leonardo Boff, Ivo Lesbaupin, Hugo Carvana, Emir Sader e tantos outros.

Ao cumprimentar Barbosa Lima Sobrinho, Fidel disse não acreditar que ele tivesse 95 anos:

— Precisamos colher algumas amostras genéticas do senhor – brincou.

Fidel falou durante uma hora da situação de Cuba e de política internacional, até que o interrompi:

— Afinal, convidamos o Comandante para um encontro, e não uma conferência.

A roda se descontraiu, Fidel reclamou:

— Não há nada que beber ou comer aqui?

Tomou uma dose de uísque e comeu com apetite variados canapés.

À meia-noite nos retiramos. A segurança avisou que o elevador social parara e o de serviço só chegava até o 7º andar. Sob luzes de lanternas, Fidel e eu descemos do 9º andar por estreitas escadas. Para chegar ao elevador de serviço, fomos obrigados a passar por dentro do apartamento de uma família, cruzando a sala e a cozinha.

A 29 de janeiro de 2008, participei em Cuba, na Universidade de Ciências Informáticas, da inauguração da escultura que Oscar Niemeyer dera de presente aos 80 anos de Fidel: uma enorme cara vermelha do imperialismo cuspindo fogo, e a pequena Cuba erguendo a bandeira diante dela, resistindo. Fazia muito frio e havia milhares de estudantes na praça.

No discurso que proferi, comparei Niemeyer a Martí: os dois eram latino-americanos, revolucionários, poetas e anti-imperialistas. Elogiei a coerência e a modéstia de Niemeyer, cujas obras conheci desde criança na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte.

A última vez que estive com Niemeyer, em seu escritório, foi a 3 de junho de 2010, quando levei até ali Homero Acosta, secretário do Conselho de Estado de Cuba. O arquiteto demonstrava muito bom humor e nos falou entusiasmado do álbum de fotos de todas as igrejas que ele havia projetado:

—Tive formação religiosa. Na fazenda de meus avós – contou – os janelões da sala eram entremeados de oratórios. Minha avó nos obrigava a ajoelhar e rezar antes de cada refeição. Depois deixei de ter fé. Mas sempre gostei de desenhar igrejas.

Ressaltei a beleza da catedral de Brasília, cujas linhas arrojadas lembram mãos abertas ao Transcendente, botão de flor se abrindo ao Infinito, feixe de ramos de trigo evocando o Pão da Vida, o coração de boca aberta à fome de Deus.

Niemeyer, então com 102 anos, comentou que uma vez por semana recebia um grupo de amigos para aulas de cosmologia e astrofísica ministradas ali no escritório por um professor de física. Seu entusiasmo com o que aprendia lembrava um jovem estudante.

Guardei dele este belo poema intitulado Autodefinição: Na folha branca de papel faço o meu risco / Retas e curvas entrelaçadas. / E prossigo atento e tudo arrisco / na procura das formas desejadas. / São templos e palácios soltos pelo ar, / pássaros alados, o que você quiser. / Mas se os olhar um pouco devagar, / encontrará, em todos, os encantos da mulher. / Deixo de lado o sonho que sonhava. / A miséria do mundo me revolta. / Quero pouco, muito pouco, quase nada. / A arquitetura que faço não importa. / O que eu quero é a pobreza superada, / a vida mais feliz, a pátria mais amada.

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