UM FURACÃO NA AMÉRICA DO SUL

UM FURACÃO NA AMÉRICA DO SUL

“Que tempos são esses em que a palavra mais avançada no mundo é a do Chefe de Estado do Vaticano?”, perguntou Andressa Caldas, do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos do MERCOSUL, na Cúpula Social do MERCOSUL em Brasília, com o título “Avançar no MERCOSUL com mais Integração, mais Direitos e mais Participação”.

No impressionante sermão/discurso do Papa Francisco no Encontro com os Movimentos populares na Bolívia, usando o VER, JULGAR, AGIR do padre belga José Cardjin, popularizado na Ação Católica pelo dominicano francês padre Lebret nos anos 1950/1960 no Brasil, o Papa chamou à mudança. Disse: “Eu quero voltar a unir minha voz à vossa: terra, teto, trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados.” E chamou à mudança: “Então digamo-lo sem medo: precisamos e queremos uma mudança. Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam a s comunidades, não o suportam os povos. E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, dizia São Francisco.”

VER: “Falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda humanidade. Problemas que têm uma matriz global e que atualmente nenhum Estado pode resolver por si mesmo. Coloquemos estas perguntas: Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas em sua dignidade? Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?”

JULGAR: “Hoje a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava o ‘esterco do diabo’: reina a ambição desenfreada do dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige a s opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.”

AGIR: “Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho pra comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponeses, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas?”

Responde o Papa Francisco: “Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos ‘3 T’ – trabalho, teto, terra – e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem! Vós sois semeadores de mudança. Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global.”

O Papa Francisco propôs três tarefas para o conjunto dos movimentos populares: 1. A primeira tarefa é pôr a economia ao serviço dos pobres. 2. A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça. 3. A terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra. “Os povos e seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica, mas tenazmente – a adoção urgente de medidas apropriadas. O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos, na sua capacidade de se organizarem e também nas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra.”

Este furacão do bem não deixou destruição. Atravessou almas, corações e mentes. Semeou luz. Semeou esperança. “Vós sois poetas sociais. Vós sois semeadores de mudança.”

Selvino Heck

Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República

Em dezessete de julho de dois mil e quinze

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