Todas e todos Guarani-Kaiowá

Selvino Heck – Todas e todos Guarani-Kaiowá

Sou filho de descendentes de alemães que vieram para o Brasil na primeira metade do século XIX. Nada sabia sobre os indígenas e sua história. O máximo que acontecia é que no dia 20 de abril – Dia do Índio – na Escola São Luiz de Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, a data era lembrada e, à sua maneira, festejada. Fabricávamos cocares, pintávamos o rosto, saíamos a dançar supostamente como indígenas. O máximo que se sabia e conhecia era através de livros. Não havia televisão – anos primeiros tempos de escola sequer energia elétrica -, imagina Internet. Para nós era uma espécie de coisa ou acontecimento diferente num dia do calendário escolar.

Depois, anos setenta, meu mano Astor, incentivado não sei por quem, – eu estava longe, era frade franciscano – resolveu deixar a roça, junto com Terezinha Weber, da mesma comunidade, e ir trabalhar na causa indígena através da OPAN – Operação Anchieta – e depois do CIMI – Conselho Indigenista Missionário. Através dele fui conhecer, na rua Albion, bairro Partenon, Porto Alegre, muitos dos que são hoje grandes figuras de defesa da causa indígena: Egon Heck, Egídio Schwade, Antônio Brand, recentemente falecido, e outros tantos lutadores e lutadoras. O mano Astor acabou em Lábrea, Amazonas, onde se embrenhou nas matas fazendo o primeiro contato com vários tribos e defendendo a causa dos povos originários, ainda ameaçados até hoje em suas terras e sobrevivência.

Aderi este ano ao Facebook, depois de muita insistência de colegas de trabalho, mais afeitos às tecnologias de comunicação instantânea. E agora encontro algo inédito. Estão no ‘face’ muitos nomes de pessoas com quem tenho amizade acrescidos por Guarani-Kaiowá: Alexandra Rescke, Fernanda Kunzler, Sandra Sangaletti, Regina Miranda, Ana Oliveira, Ângela Maria, Eduardo Garcez Viana, Alessandra Miranda, Marcel Farah, Dulce Terezinha. Como uma febre, todos acrescentaram ao seu sobrenome outro sobrenome: Guarani-Kaiowá. Gesto bonito de solidariedade e compromisso com a causa indígena dos Guarani-Kaiowá.

Vou aprender mais sobre os Guarani-Kaiowá. Recorro ao livro da amiga e companheira Dirce Machado Carrion, que inaugurou anos atrás, com meu apoio, atrás a série Olhares Cruzados, “que teve início em 2004, e que possibilitou o conhecimento recíproco entre mais de 1500 crianças brasileiras de comunidades quilombolas, indígenas, latino-americanas, africanas e de países frutos da diáspora africana, que trocaram saberes por meio de fotografias, cartas, entrevistas e de objetos produzidos por elas em oficinas de fotografia, redação e arte”. Um belo trabalho. Agora, Dirce Machado Carrion publica o décimo Olhares Cruzados: ‘Guarani Kaiowá – Pai Tavytera – Brasil Paraguai – Panambizinho Te’ýkue Kurusu Ambá Rekopave’.

Escreve Dirce: “Participaram diretamente do Projeto 100 crianças representando quatro comunidades, sendo três guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul: Panambizinho, Te’ýkue e Kurusu Ambá; e uma Pai Tavytera, de Capitão Bado no Paraguai. Ao empoderarmos crianças e adolescentes Guarani Kaiowá e Pai Tavytera com formas de expressão, estamos dando a eles a oportunidade de retratarem a sua cultura a partir dos seus próprios olhares.” O livro é escrito em português e guarani.

Escreve Antônio Brand na introdução: “Os Guarani ocupavam, quando da chegada dos primeiros colonizadores, no século XVI, um amplo território nas terras baixas da América do Sul, que iam desde o litoral de Santa Catarina, ao longo do rio Paraguai, Paraná, entre outros, chegando até as franjas da cordilheira dos Andes. Retirados, no processo de colonização, dos cenários mais amplos, seu destino passa a ser decidido no contexto restrito das frentes de expansão interna de cada país. São postos à margem do processo de desenvolvimento e de ocupação de seus territórios, sendo considerados apenas como eventual mão de obra e/ou como estorvos a serem eliminados.”

Escreve o Guarani-Kaiowá Anastácio Peralta – Ava Kuarahy Rendyju -, professor da Escola Municipal Indígena Pai Chiquito: “A terra para nós Guarani e Kaiowá é o suporte que sustenta toda esta natureza, principalmente a mata. A terra para nós é a mãe, o mato é nosso pai e através deles é que somos gerados.”

Por isso, os Guarani-Kaiowá lutam pela recuperação dos territórios e das antigas áreas ocupadas. Quem é solidário com sua luta chama-se também Guarani-Kaiowá. Escreve Dirce: “Em meio ao que é hoje a maior dívida social da nação brasileira e a mais dramática situação em nível dos direitos humanos enfrentada por uma nação indígena no Brasil, a alma guarani resiste e ressurge com a força da sua cultura, que dentre tantos outros heróis tem como ancestral Sepé Tiaraju, autor da famosa frase: ‘Esta terra tem dono’. Todos nós, enquanto cidadãos e cidadãs brasileiras, devemos o reconhecimento pela enorme contribuição dos Guarani, maior nação do continente sul-americano, à formação do povo brasileiro.”

A luta dos Guarani-Kaiowá é a mesma luta do povo xavante do Mato Grosso, que querem recuperar Marãiwatséde, sua terra, de onde foram retirados à força durante a ditadura militar. Construir uma Nação significa reconhecer todos os povos e seus direitos. No caso dos povos indígenas, o primeiro direito é o direito à terra. Nas palavras de Paulo Maldos, Secretário Nacional de Articulação Social da Secretaria Geral da Presidência, “é permitir à comunidade indígena fazer a gestão do seu próprio território, reflorestar as áreas degradadas, produzir de acordo com seus valores culturais, planejar a ocupação do território e o uso dos bens ambientais e ter condições de se auto-sustentar”.

Selvino Heck
Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República. Da Coordenação nacional do Movimento Fé e Política. Em 11/01/2013

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