Selvino Heck – Santo e Abençoado Feriadão

Foi bonito.

Foi bonito ver milhares de militantes, crentes, lideranças no 9º Encontro Nacional Fé e Política, na Universidade Católica de Brasília, refletindo, cantando, dançando, celebrando a vida e o Bem Viver em pleno feriadão da República.

Foi bonito ver a pastora e professora Graciela Chamorro falando da dor e do sofrimento dos kaiowá-guaranis, e fazendo todos os presentes cantar em guarani: Che Mboguahu Arára – O filho do tempo-espaço me faz cantar; Itymby onhemogo’i va’ekue – A semente se esticar e murmurar sua palavra.

Foi bonito ver lideranças sociais e políticas lançando o Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político brasileiro, a realizar-se de 1º a 7 de setembro de 2014, junto com o Grito dos Excluídos. Foi bonito ouvir Daniel Seidel, Coordenador Geral Local do 9º Encontro, dizer que “o povo precisa partilhar o poder, o povo quer partilhar o poder, queremos a cultura do Bem Viver”.

Foi bonito ver a pastora luterana Romi Bencke, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), proclamar na mística de abertura do Encontro que “nossa esperança é de um novo céu e uma nova terra, sem dor, sem luto, sem grito, porque Deus está conosco”.

Foi bonito relembrar com Cláudio Vereza, deputado e fundador do Movimento Fé e Política que, nos anos 1980, “as lideranças políticas vindas das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que se engajaram no movimento partidário e se elegeram ficaram sem espaço para refletirem e alimentarem a sua própria fé. O Movimento é esse espaço”.

Foi bonito refletir com Pedro Oliveira, da Coordenação Nacional do Fé e Política, que “somos por uma economia solidária, de partilha, do dom, da pobreza e não abundância. Precisamos tirar da nossa cabeça que seremos felizes quando formos ricos. No planeta, não cabem sete bilhões de ricos. Os povos indígenas ensinam a ser felizes com pouco. A Europa e os EUA, não.”

Foi bonito ver o ministro Gilberto Carvalho dançando alegre com os participantes, tirando fotos e dizendo que “é uma alegria vir aqui buscar energia para continuar na luta. Somos herdeiros da corrente que vem de Jesus e que passa pelo papa Francisco e por tantos profetas da história, dos que resistiram, dos que foram perseguidos”.

Foi bonito exaltar D. Tomás Balduíno, Chico Mendes, D. Pedro Casaldáliga, D. José Maria Pires, D. Waldir Calheiros, Sepé Tiaraju, pastores e pastoras evangélicas/os, líderes afro-brasileiros, e muitos mais, fazendo a memória de lideranças e pastores históricos da caminhada.

Foi bonito ver Terezinha Toledo, da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política, entregando, como gesto de agradecimento, livros e mantas para quem voluntariamente se entregou por meses, doou seu tempo, militantemente, para preparar o encontro.

Foi bonito ver o guarda da Universidade dizer para o Reitor Afonso Galvão que ali não se podia estacionar o carro – ‘ordens superiores’ – e o Reitor, tranquilamente, entrar no carro e levá-lo ao estacionamento, seguindo a orientação do guarda.

Foi bonito ouvir o professor Ricardo Spíndola dizer, no Fórum Temático ‘Mobilização Social, Educação Popular e Cidadania’, que “há três grandes campos de atuação: o trabalho de base; o trabalho na rua – pressão, mobilização, redes sociais/internet; a ocupação de postos de poder – e que não se pode deixar ninguém sozinho -, porque a participação é mola essencial, é um princípio – juntos somos melhores – e a educação popular é um ato de amor à humanidade”.

Foi bonito saber que famílias de Taguatinga e de outras cidades de Brasília, assim como deputados federais, abriram suas casas e apartamentos para acolher de forma solidária os romeiros vindos de todo Brasil.

Foi bonito, e duro, ouvir Frei Betto dizendo que ‘cristão significa ser discípulo de Cristo. E como é que Jesus morreu? Como Wladimir Herzog morreu? Wladimir foi preso, torturado pelos militares do DOI-CODI e assassinado. Jesus também foi preso, torturado e assassinado por decisão de dois poderes políticos, o Sinédrio e o ocupante romano representado pelo governador Pôncio Pilatos. Somos todos e todas filhos e filhas de um prisioneiro político”. Foi bonito ouvir o Pe. Jaime Crowe anunciar “Bem-aventurados os que procuram o Bem Viver”.

Foi bonito olhar e sentir os ipês floridos decorando o ambiente do Encontro.

Foi bonito participar do lançamento da nova edição da Agenda Latino-americana.

Foi bonito ver a presença e participação de deputados, vereadores, prefeitos, vices, Secretários, dirigentes partidários, lideranças de movimentos sociais, alimentando sua ação política na fé e levando a fé à ação concreta e militante.

Foi bonito ouvir Carlos Mesters falar dos cativeiros dos tempos bíblicos – de Babilônia, Império romano, Monarquia, do faraó do Egito -, dos cativeiros dos tempos atuais – o neoliberalismo – e vê-lo proclamar os sete passos da cultura do Bem Viver para sair do cativeiro: uma nova visão sobre a natureza; redescobrir a força da palavra; redescobrir o amor eterno de Deus; uma nova experiência de Deus, uma nova imagem de Deus; Deus não escreveu um livro, escreveu dois livros, a Bíblia e o livro da vida, dos fatos, dos acontecimentos; redescobrir a missão; descobrir uma nova pastoral, uma nova maneira de anunciar a Boa Nova.

Foi bonito benzer a água, o ar, a terra e o fogo, e sentir sua energia nas celebrações cheias de alegria, leveza, encanto, força e espiritualidade.

Foi bonito plantar nove ipês, planta típica do Cerrado, no final do encontro e receber nove sementes de ipê de várias cores para plantá-las em todo Brasil, e delas cuidar, e regá-las, e vê-las crescer, e vê-las florir.

Foi bonito ver as pessoas, cantando, chorando, rindo, dançando, celebrando a vida, o Bem Viver. Não há deserto. Há esperança. Não há vazio e descrença. Há fé e política convivendo na base popular. Há fé e política na busca do Bem Viver, na construção do Reino.

Foi bonito, muito bonito.

Selvino Heck – Membro da Coordenação nacional do Movimento Fé e Política Em vinte e dois de novembro de dois mil e treze

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