Selvino Heck – Do poder: ouvir e falar

O grande Tostão, bom de bola e escrita, colocou como título de sua coluna de domingo – O Craque é o Coletivo -, falando do Cruzeiro quase campeão brasileiro.

Escrevi em A Cidadania e a Questão do governo – Exercício do Poder no Cotidiano (In: Caderno de Debates nº 2 – Movimentos sociais e Estado: Limites e Possibilidades – Centro de Assessoria Multiprofissional (CAMP), outono de 2001): “Cinco fatos acontecidos em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul. O primeiro: Plenária Temática de ‘Organização da Cidade e Desenvolvimento urbano’ do Orçamento Participativo (OP) de Porto Alegre. Abril de 2000, Auditório Araújo Viana. Após duas horas e meia de reunião, pelas dez da noite, o prefeito Raul Pont e o Secretário municipal de Transportes, Mauri Cruz, ficam por mais de meia hora conversando com deficiente físico, surdo mudo, com a ajuda de um intérprete de sinais, respondendo às dúvidas e questionamentos não suficientemente esclarecidos na plenária. Em todas as reuniões, os deficientes físicos participam como qualquer cidadão.”

Corta para 2013. O V Fórum Social Sul que acontece na Paróquia Santos Mártires, Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo, tem como tema ‘A Cidade que temos e a Cidade que queremos’. Sou convidado a falar, junto com o Fred, da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política sobre ‘A Cidade do Bem Viver na Partilha e no Poder’. Uso como ponto de partida três frases: “A rua é o nosso chão, a nossa base”, dita pela presidenta Dilma na Assembleia Geral da ONU em outubro, quando falava das Jornadas de Junho; “Amigos, eu sou do sul, eu venho do sul”, do presidente Pepe Mujica, na mesma Assembleia Geral da ONU; “A corte do Vaticano é a lepra do papado”, do papa Francisco.

Todas estas referências – Tostão, OP de Porto Alegre, as três frases – são para informar do lançamento do Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema político brasileiro, sexta, 15 de novembro, Dia da República, 15h. O lançamento do Plebiscito Popular será antes da abertura do 9º Encontro Nacional de Fé e Política, que tem como tema ‘Cultura do Bem Viver: Partilha e Poder’. Ambos os eventos acontecem na Universidade Católica de Brasília.

É preciso ouvir o povo. É preciso abrir espaço para o povo falar. O povo não é burro. O povo tem opinião e sabe decidir o seu destino e o destino da sociedade. Os Poderes estabelecidos é que são muitas vezes cristalizados, cheios de gesso, com medo das vozes das pessoas e comunidades. A política anda insossa, sem sal, sem cor, amorfa, senão corrupta. Nada como uma Constituinte onde a voz popular expressa anseios, críticas, propostas, futuro.

O Fórum Social Sul na Paróquia Santos Mártires discutiu a cidade. Qual cidade temos? Qual cidade queremos? Como participamos de sua construção? Todos e todas querem uma cidade democrática, de paz, com qualidade de vida, humana. São ouvidos? Como e que fazer para que a voz tenha ressonância? Somos do sul do continente, são dele nossas raízes, dele brotam nossos valores. Ouvimos as ruas, somos da rua nunca dela saímos, dizem os participantes do Fórum. A partir delas, construímos nossa identidade, enxergamos os rostos dos outros e o nosso próprio rosto. E todas e todos avançamos juntos, sem deixar que a corte e seus babados, a corte e seus privilégios, a corte, suas honras e perversidades desviem o olhar do horizonte de justiça, de fraternidade, de Reino.

O Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana, promovido e organizado por movimentos sociais, Centrais Sindicais, partidos políticos, pastorais sociais, pela Plataforma dos Movimentos Sociais para a Reforma do Sistema Político, vai acontecer de 1º a 7 de Setembro de 2014, na Semana da Pátria. Até lá haverá debates sobre o futuro Brasil que queremos, cursos de formação sobre o Estado, aí compreendidos Executivo, Legislativo e Judiciário, e a sociedade brasileira: quais as reformas necessárias, quais as reformas urgentes.

Será a voz popular expressando-se nas ruas e em todos os lugares. De 1º a 7 de setembro, em plebiscito livre e democrático, antes das eleições presidenciais de outubro de 2014, será o voto popular falando aos candidatos e governantes sobre o futuro do Brasil: quais as esperanças, quais os projetos e as mudanças, como construir um país, uma pátria, uma Nação.

Os pés pisam firmes no chão e caminham nas ruas, de onde tiram sua coerência e seus sonhos. Os ventos do Sul sopram com intensidade latino-americana, para que todas as cortes leprosas sejam superadas e abolidas. O craque coletivo toma conta do pedaço, sem matar o brilho de individualidades como Neymar e Ronaldinho, mas jogando para a maioria e o todo. O craque é o coletivo, diz Tostão sabiamente.

Ao Plebiscito Popular, pois. Todos e todas chamados/as, todos e todas convidados/as a contribuir e participar, de 15 de novembro de 2013 a 7 de setembro de 2014. O povo vai ouvir, o povo vai falar. É o poder popular.

Selvino Heck

Membro da Coordenação nacional do Movimento Fé e Política

Em treze de novembro de dois mil e treze

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