Selvino Heck – Cheiro de povo, partilha e poder

“Quando se fala de problemas sociais, uma coisa é reunir-se para estudar o problema da droga em uma vila e sua miséria. Outra coisa é ir lá, viver lá, captar o problema a partir de dentro e estudá-lo. Padre Arrupe disse claramente que não se pode falar de pobreza, caso não seja experimentada, com uma inserção direta nos lugares onde se vive essa pobreza.”

A frase podia ser minha, concordo com ela, mas não é. É do papa Francisco em entrevista à revista jesuíta Civiltà Cattolica. O mesmo papa disse na homilia crismal da quinta-feira santa: “Sejam pastores com cheiro de ovelhas, presentes em meio a seu povo como Jesus, o Bom Pastor. Não se fechem! Estejam entre os seus fiéis, incluindo as periferias de suas dioceses, e em todas as periferias existenciais, onde há sofrimento, solidão, degradação humana.”

Estamos em tempos de preparação do 9º Encontro de Fé e Política, que acontecerá na Universidade Católica de Brasília, dias 15, 16 e 17 de novembro. O lema, escolhido antes da chegada do papa Francisco, é sugestivo e profético: “Cultura do Bem Viver: Partilha e Poder” (Informações: www.fepolitica.org.br).

Nada mais atual. Em tempos de consumismo desvairado, por um lado, crise econômica, social e ambiental, por outro, é urgente pensar valores diferentes dos predominantes na atualidade. Em vez do egoísmo, solidariedade; do individualismo, fraternidade; do lucro desvairado, economia solidária; do viver bem que apenas olha para o próprio nariz e corpo bem torneados, o bem viver indígena coletivo e de comunidade.

Mais sugestivo ainda é pensar na partilha e no poder. O Encontro será em Brasília, o centro dos Poderes. Recorro de novo ao papa Francisco, que disse em entrevista ao jornal italiano La Repubblica: “A corte (do Vaticano) é a lepra do papado. A Cúria é vaticano-cêntrica. Esta visão vaticano-cêntrica descuida do mundo que nos circunda. Não compartilho com esta visão e farei de tudo para mudá-la”.

Para o papa Francisco, “o povo é o sujeito. E a Igreja é o povo de Deus a caminho através da história, com alegrias e dores”. Por isso, os bispos não podem ser bispos de aeroporto: “Por favor, peço que permaneçam com o povo. Evitem o escândalo de serem bispos de aeroporto. Não apenas com palavras, mas acima de tudo com o testemunho concreto da nossa vida que somos professores e educadores de nosso povo.”

É preciso refletir as urgências do Brasil, da América Latina e do mundo. Nas palavras do papa Francisco: “O mais grave dos males que afligem o mundo nestes anos é o desemprego dos jovens e a solidão em que são deixados os idosos. Os idosos necessitam de cuidado e de companhia. Os jovens precisam de trabalho e de esperança, mas não têm nenhum dos dois. A Igreja deve sentir-se responsável tanto pelas almas quanto pelos corpos.”

Ou nas sábias palavras de Pepe Mujica, presidente do Uruguai, na Assembleia Geral da ONU: “A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias pelos automóveis. Tudo, tudo é negócio.”

As jornadas de junho no Brasil mostraram os jovens sinalizando caminhos novos para a política, a democracia, caminhos a serem construídos pelos poderes, pelos governos e por todas e todos que sonham com um mundo justo, solidário, igual e fraterno.

As palavras do papa Francisco – a corte é a lepra do papado – são vida e luz: “Sonho com uma Igreja Mãe e Pastora. A primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou ‘clérigos burocratas’.” Pastores e governantes com cheiro de ovelhas, com cheiro de povo.

Virão caravanas de todo Brasil para o Encontro de Fé e Política. Será tempo de festa, celebração, de muita reflexão, alegria e mística. O povo de Deus de Brasília e região metropolitana está se preparando e vai participar. Houve encontros preparatórios em Luziânia e Formosa, Goiás. Há debates e reflexões com estudantes e professores da Universidade Católica de Brasília. E assim acontece em todo Brasil.

Uma cartilha, de Carlos Mesters e Francisco Orofino, com sete Círculos Bíblicos – Política e a esperança de um mundo melhor; Sociedade do bem-viver: cartilha e poder; Poder e serviço; Abuso do poder; Participação da mulher na política; política e defesa do meio ambiente; Religião e política –, circula pelo Brasil.

O 9º Encontro Fé e Politica acontece em momento mais que oportuno. Não é de se perder. Quem vier a Brasília será muito bem acolhido. Haverá hospedagem solidária. Nas palavras do papa Francisco: ‘É preciso que nos conheçamos, nos escutemos e cresçamos no conhecimento do mundo que nos circunda. Isto é importante: conhecer-se, ouvir, ampliar o horizonte dos pensamentos. O mundo é feito de estradas que nos aproximam e distanciam, mas o importante é que nos levem para o Bem.”

A política deve estar a serviço do Bem Viver. O poder deve ser partilhado.

Selvino Heck

Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República

Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

Em onze de outubro de dois mil e treze

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