Secura de Brasília

Selvino Heck

O avião começa a baixar no aeroporto de Brasília. Olho pela janela e vejo o que mais me impactou quando comecei a morar na capital federal nos idos de 2003: a ausência de chuva por meses seguidos, a grama toda seca, a poeira subindo por todos os poros, a garganta seca, os litros de água tomados o dia inteiro, além do chimarrão. Tudo parecia morto. Nunca mais renasceria a grama, nunca mais floririam as árvores e os ipês, a vida parecia ter sumido. Para um gaúcho, algo não só inédito, quanto impensável, incompreensível. O que mais eu ansiava era ver pingos de água caindo do céu para abençoar a vida e a natureza.

Ao reencontrar amiga/os e companheira/os de Brasília, logo perguntei: há quanto tempo não chove? Há mais de quatro meses, responderam. Uma eternidade! Nem mesmo a chuva das mangas, tradicional em setembro, aconteceu.

A secura climática de Brasília é a secura de Brasília (e do Brasil): política, ética, econômica, social, cultural e tudo mais. Está difícil ver qualquer horizonte.

Alguém disse na análise de conjuntura na Plenária do CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional): “Me pediram para fazer a análise de conjuntura. Mas na quadra histórica atual, para dizer alguma coisa mais concreta sobre o que vai acontecer, só sendo vidente.”

Mas o pior da secura em Brasília, por óbvio, não é a grama aparentemente morta, mas ver este país destroçado, vendendo suas riquezas a troco de banana, as malas de dinheiro voando por todos os lados, o povo começando a passar fome novamente (o Brasil corre sério risco de voltar ao Mapa da Fome da ONU, como foi dito no CONSEA), o desemprego, a violência, a corrupção deslavada, e um governo ilegítimo, golpista, imoral, que joga os direitos dos trabalhadores e dos mais pobres e a própria democracia na lata do lixo. A tal ponto chegamos que o ex-ministro das Relações Exteriores do governo FHC, Rubens Ricupero, afirmou que ninguém quer foto com o presidente golpista, ao contrário do que acontecia com Lula, ‘o cara’ (fruto da declaração, o Itamarati cancelou o lançamento do livro do ex-ministro em suas dependências).

Mas em meio à secura da falta de chuva e outras securas de Brasília, descobri, felizmente, e pude vivenciar que Brasília não é só secura. Circunstâncias imprevistas, inesperadas levaram-me a lugares e espaços não previstos na agenda original.

Participei do ato e painel “50 anos de Ocupação da Palestina: desafios para a paz e a Justiça”,  promovidos pelo CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), presidido pela pastora luterana Romi Bencke, por Kairós Palestina Brasil e CCB (Centro Cultural Brasília), dos jesuítas. Na mesa, o embaixador da Palestina, Ibrahim Alzeben, o membro do Grupo Judeu Brasileiros Progressistas Sérgio Storch e a deputada federal Jô Moraes. Todos defenderam a paz. O Embaixador palestino afirmou que “a Palestina é a região de judeus, cristãos e muçulmanos, e assim deve continuar sendo”, caindo os muros e a intolerância. Sergio Storch relatou exemplos de encontros, trabalhos comuns entre judeus e palestinos, palestinos e judeus, no Brasil, no Oriente Médio, no mundo. Falou da Laudato Sì e da liderança mundial do Papa Francisco. Falou da paz, a ser construída por judeus e palestinos, junto com a justiça e a reconciliação, povos irmanados que têm uma longa história em comum.

Participei da Plenária do CONSEA, espaço de resistência da sociedade civil. Reencontro lutadores e lutadoras de todo Brasil e ouço dos riscos que correm as políticas de segurança alimentar e nutricional, conquistadas desde os tempos de Betinho, e programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), fundamental para a agricultura familiar e camponesa, que podem ser extintos por falta de recursos e apoio do governo federal. O CONSEA, como Conselho ligado à Presidência da República, vai exigir a manutenção das políticas e programas existentes, bem como a recomposição orçamentária, seriamente ameaçados na PLOA/2018. Como foi dito pela presidente do CONSEA, Elisabetta Recine, ‘quem foi capaz de construir políticas públicas como o PAA e o PNAE, entre outras tantas, não pode assistir calado à sua desconstrução”.

Chego na sede da CONTAG, espaço da atividade motivo da minha viagem. Está reunida a CONEC (Comissão Nacional de Educação do Campo). Uma centena de educadoras e educadoras de diferentes movimentos do campo discutem a formação na base, mobilizações nacionais para garantir os avanços da educação nos últimos anos, como o acesso à Universidade de agricultores/as familiares, camponeses/as, seus filhos e filhas e outros tantos direitos conquistados na luta.

Finalmente, a razão da minha estada na secura de Brasília, em nome da CAMP (Centro de Assessoria Multiprofissional), ONG do Rio Grande do Sul e da RECID (Rede de Educação Cidadã): Reunião do CEAAL-Brasil (Conselho de Educação Popular para a América Latina e Caribe, antigo Conselho de Educação de Adultos para a América Latina, criado por Paulo Freire, de quem, por sinal, a secura de Brasília e arredores ameaça retirar o título oficial de Patrono da Educação Brasileira).

O CEAAL-Brasil prepara a Assembleia Intermediária latino-americana e caribenha em 2018, sua participação no FSM/2018 (Fórum Social Mundial), que acontecerá de 13 a 17 de março de 2018, em Salvador, Bahia, e discute o papel fundamental da educação popular nestes tempos de securas em terras brasileiras, latino-americanas e caribenhas.

Ou seja, a secura não é, não está sendo total, nem será eterna. Como acontece em Brasília, depois da primeira chuva, a grama volta a nascer, o verde ressurge brilhante. Por baixo da grama seca, há esperança, há futuro.

E o melhor de tudo. Estando ainda em Brasília, a chuva começou a cair, e molhar corpos, telhados, e alimentar a grama seca que cerca a sede da CONTAG. Pouco densa, mas chuva. Sinal dos tempos? Sinal dos deuses? Nem tudo está seco, nem tudo está morto. Muito ao contrário. A grama renasce na primavera. Governos corruptos e golpistas caem. O povo acabará vencendo.

A luta continua!

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