Religião da ordem x espiritualidade política

Pedro A. Ribeiro de Oliveira*

A votação do processo de impeachment na Câmara Federal, transmitida ao vivo pela TV aberta a noite de 17 de abril espetacularizou o uso da religião e da família como justificativas para uma opção política. Deus, a família e a vinculação de cada parlamentar a seu reduto eleitoral foram os motivos mais alegados em favor da derrubada do governo Dilma, independentemente de ela ser ou não culpada pelo alegado crime de responsabilidade fiscal. Esse fato escancarou uma realidade que até então parecia restrita a certos grupos evangélicos: a religião vem ocupando espaços antes destinados exclusivamente a partidos políticos. Não vamos analisar aqui a falência dos partidos políticos, mas o papel político[2] agora desempenhado por grupos que se identificam e são identificados como cristãos (de confissão evangélica ou católica).

As invocações ao nome de Deus, antes de serem proferidos os votos favoráveis ao impeachment, referiam-se inequivocamente ao Deus guardião supremo da ordem fundada sobre a desigualdade social, ordem que o PT e outros partidos do campo democrático de esquerda procuram derrubar. Diante dessa possível subversão da ordem econômica, social e familiar, foi invocado o nome de Deus como patrono do voto parlamentar. Não vou analisar os efeitos dessa atitude na laicidade constitucional do Estado brasileiro[3], mas focar o desafio que ela representa para quem crê em um Deus que não legitima desigualdades sociais.

O espetáculo político-religioso oferecido ao grande público pela Câmara de Deputados foi deprimente para os cristãos e cristãs que creem que Deus se coloca do lado de quem sofre injustiça, mas ficou sem reação. Evidentemente, a resposta não deveria vir nas justificativas para os votos contra o impeachment, pois o plenário da Câmara não deve ser palco para debates religiosos, mas as comunidades cristãs ofendidas pela manipulação política do nome de Deus e da Bíblia deveriam ter dado uma resposta. Até agora, porém, reina nas Igrejas “estrepitoso silêncio” – como certa vez referiu-se o grande leigo católico Hélio Amorim – como se aquelas falas fossem legítimas. Isso coloca na pauta atual a relação entre Fé cristã e Política.

A reflexão sobre Fé e Política se dá, na América Latina, a partir das práticas políticas de quem assume as causas das classes populares que lutam contra a opressão imposta pelas classes dominantes. Para fundamentar essas práticas, a Teologia do Político se tornou Teologia da Libertação e por isso caiu sobre ela o peso da censura eclesiástica e sua desqualificação como teologia marginal. Sufocada a Teologia da Libertação nos espaços institucionais, abre-se a possibilidade de ressurgir hoje a proposta da união entre Igreja e Estado em defesa da Ordem social. Por essa proposta a religião oferece a justificativa divina para as desigualdades sociais (especialmente no que concerne à família, à sexualidade e à propriedade privada) e o Estado retribui concedendo privilégios fiscais às instituições religiosas. Ainda estamos longe, é claro, de um regime político orientado pelo fundamentalismo bíblico, mas seria imprudente descartar essa possibilidade sem lhe dar atenção. Afinal, não poucos dirigentes evangélicos e católicos romanos – apesar da oposição do Papa Francisco – demonstram franca simpatia por tal regime político.

Aqui situo o novo desafio às comunidades cristãs, particularmente aos leigos e leigas de confissão católica romana. Contrariando Francisco[4], sofremos hoje o sequestro da alegria do Evangelho pelo rigorismo doutrinal. Temos o direito de pedir aos nossos bispos que retomem a coragem profética de seus antecessores – D. Hélder, D. Paulo Evaristo, D. Aloísio Lorsheider, D. Waldir Calheiros, D. Tomás Balduino e tantos outros – e proclamem o que o Espírito tem a dizer às Igrejas e ao mundo e desfaçam a triste imagem de um Deus colocado a serviço de um sistema político e econômico que oprime os pobres.

Não devemos, contudo, abrir mão do protagonismo que nos é atribuído como presença transformadora no mundo. Temos importante papel a cumprir na política.

Para isso é imperioso hoje desenvolver a espiritualidade política libertadora. Ela é uma forma de espiritualidade terrenal – como são as espiritualidades familiar, ecológica e a do cuidado – distinta de espiritualidades voltadas para o celestial – como a sacramental, a penitencial, ou a devocional – mas pouco se fala dela, como se não fosse extremamente importante para o mundo atual. Não sei avaliar até que ponto as Igrejas cristãs serão capazes de nos ajudar a vivenciar essa forma de espiritualidade, porque em geral parecem ocupar-se mais com a felicidade depois da morte do que nesta vida. Mas se, com D. Pedro Casaldáliga, afirmamos que “queremos terra na Terra, já temos terra no Céu”, temos que buscar nessa forma de espiritualidade terrenal e política a energia que anime nossas lutas pela Justiça, pela Paz e pela vida da casa comum que abriga a humanidade e todas as espécies vivas. No atual cenário mundial em que os Estados e as grandes corporações se preparam para a guerra, a espiritualidade política deve inspirar uma visão de mundo onde a Humanidade se integre na grande comunidade de vida do Planeta e construa a almejada Paz duradoura.

É um desafio e tanto! Mas para enfrentá-lo temos a Fé num Deus que se revelou como Aquele que caminha na História ao lado dos Povos que clamam por Justiça e Paz.

[1] Este texto é parte da análise de conjuntura apresentada na XXXV Assembleia do Conselho Nacional do Laicato, em Aracaju, no dia 26 de maio de 2016.

* Doutor em Sociologia, Professor aposentado dos PPG em Ciência/s da Religião da UFJF e da PUC Minas. Membro de ISER-Assessoria, da Equipe de Formação da Prelazia de São Felix do Araguaia e da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

[2] A rigor, trata-se do papel ideológico dos partidos, agora desempenhado pela religião, mas evito usar essa categoria devido a sua carga negativa, como se “ideológicas” fossem somente as concepções do adversário.

[3] O presidente da Frente Parlamentar Mista Católica defende, sem hesitação, o primado da Lei de Deus sobre a lei dos homens – como ele define a Constituição Brasileira.

[4] “Não deixemos que nos roubem o entusiasmo missionário, a alegria da evangelização, a esperança, a comunidade, o Evangelho, o ideal do amor fraterno, e a força missionária”. Alegria do Evangelho, n. 76 a 109

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