Quanto a Utopia é Urgência!

O inédito viável é algo que o sonho utópico sabe que existe, mas que só será conseguido pela práxis libertadora e passando pela ação dialógica, profetizou Paulo Freire na Pedagogia do Oprimido e na Pedagogia da Esperança. O inédito viável é uma coisa inédita, ainda não claramente conhecida e vivida, mas sonhada. O inédito viável na vida, na ética e na educação é aquilo que ainda não aconteceu, mas que pode acontecer. Não podemos perder nunca a capacidade de sonhar.

As situações-limite, na ótica de Paulo Freire, são obstáculos, barreiras na vida que precisam ser vencidas para transpor a fronteira entre o ser e o ser mais, num processo permanente de humanização. É preciso ver criticamente as situações-limite, os problemas da sociedade, num clima de esperança e confiança, análise crítica e ações coletivas. A utopia é a síntese entre a denúncia e o anúncio. Como disse Paulo Freire: “Eu gostaria de ser lembrado como alguém que amou o mundo, as pessoas, os bichos, as árvores, a terra, a água e a vida.”

Para Eduardo Galeano, a utopia está no horizonte. “Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

“A terra se pode comparar a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ou a uma mãe, que nos acolhe nos seus braços”, nas palavras do Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’, na esteira de São Francisco. O Papa Francisco propõe a ecologia integral, como um novo paradigma de justiça no cuidado com a Casa Comum. É preciso uma ‘conversão ecológica’, ‘uma mudança de rumo’, porque o homem assume a responsabilidade de um compromisso para o cuidado da Casa Comum, um compromisso para erradicar a miséria e promover a igualdade de acesso de todos aos recursos do planeta: “Os males do planeta são a poluição, as mudanças climáticas, o desaparecimento da biodiversidade, o predomínio da tecnocracia e da finança que leva a salvar os bancos em detrimento da população, a propriedade privada não subordinada ao destino universal dos bens. Sobre tudo isso, parece prevalecer uma cultura do descartável, do usa e deita fora, algo que leva a explorar as crianças, a abandonar os idosos, a reduzir os outros à escravidão, a praticar o comércio, a praticar o comércio dos diamantes de sangue.” É necessária uma economia mais atenta à ética. É preciso fazer uma revolução cultural corajosa: “O ambiente é um dom de Deus, uma herança comum que se deve administrar e não destruir. Temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo.”

 

Nesta perspectiva, o Movimento Fé e Política promove um debate/reflexão com o sociólogo Michael Löwy: ‘Laudato Si’, Ecossocialismo e Bem-Viver na Conjuntura mundial’. Será em São Paulo, dia 25 de setembro, segunda-feira, 18h30m, na Livraria das Paulinas, na Rua Domingos de Moraes, 660 (Metrô Ana Rosa, Linha Azul).

O Bem-Viver contém uma mensagem universal e esperançosa diante de um mundo que vai perdendo seus valores morais mais profundos e importantes. O ser humano, assim como as plantas e os animais, alimenta-se do leite da Mãe Terra, a água. Todos fazemos parte dessa grande família. O ser humano faz parte de um todo, é uma parte muito pequena da Pachamama. O Bem-Viver tem relação com a harmonia para com todos os nossos irmãos e irmãs, com culturas diferentes, com Deus e com a natureza.

Nas palavras do equatoriano Alberto Acosta, Sumak-Bem,  Kawsay-Viver, em quéchua,  inclui os conceitos de plurinacionalidade, Direitos da Natureza e BuenVivir, inscritos em 2008 na Constituição do Equador: “Necessitamos outras formas de organização social e práticas políticas. O Bem-Viver é parte de uma longa busca de alternativas forjadas no calor das lutas indígenas e populares. Mais que nunca é imprescindível construir modos de vida baseados nos Direitos Humanos e nos Direitos da Natureza, que não sejam pautados pela acumulação capitalista.”

Para Michael Löwy, “o ecossocialismo é uma proposta estratégica que resulta da convergência entre a reflexão ecológica e a reflexão socialista, a reflexão marxista. O ecossocialismo é uma reflexão crítica. O projeto ecossocialista implica uma reorganização do conjunto do modo de produção e de consumo: as necessidades reais da população e a defesa do equilíbrio ecológico. Isso significa uma economia de transição ao socialismo, na qual a própria população decide, num processo de planificação democrática, as prioridades e os investimentos. Esta transição conduziria não só a um modo de produção e a uma sociedade mais igualitária, mais solidária e mais democrática, mas também a um modo de vida alternativo, uma nova civilização ecossocialista, mais além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos pela publicidade, e da produção ao infinito de mercadorias inúteis.”

“Temos muito a aprender com as comunidades indígenas, que representam outra visão de relação dos seres humanos com a natureza, total oposto ao ethos explorador e destruidor do mercantilismo capitalista. Como diz nosso companheiro, o histórico líder indígena peruano Hugo Blanco: Os indígenas já praticam o ecossocialismo há séculos.”

Paulo Freire, o jardineiro da esperança, proclamou profeticamente: “Ai daqueles que pararem com sua capacidade de sonhar e com sua coragem de anunciar e denunciar. Ai daqueles que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e o agora, se atrelarem a um passado de exploração e de rotina.”

O horizonte, a utopia estão logo ali. É só dar, na práxis e no diálogo, pelo menos, um passo cada dia para chegar neles algum dia. Indo em sua direção a vida inteira.

SelvinoHeck

Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

Em doze de setembro de dois mil e dezessete

 

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