Preparar o 10º Encontro Nacional de Fé e Política: Bem-viver: águas da solidariedade e sementes de esperança

Preparar o 10º Encontro Nacional de Fé e Política:

Bem-viver: águas da solidariedade e sementes de esperança

Pedro Ribeiro

O 10º Encontro Nacional de Fé e Política acontecerá em Campina Grande – PB, de 22 a 24 de abril de 2016. Preparar-se para participarnão é somente marcar na agenda, pagar a inscrição e combinar a viagem com um grupo de Fé e Política. Preparar é também entrar em sintonia com o espírito do Movimento Fé e Política(MF&P) e colocar-se a par da temática a ser ali apresentada e debatida. Este artigo tempor finalidade apresentar o MF&P e puxar a reflexão sobre a importância do Bem-viver no atual momento histórico.

Gênese e primeira fase do Movimento Fé e Política

A abertura política do início dos anos 1980 suscitou questões práticas e teóricas para muita gente ligada às Comunidades Eclesiais de Base ou alguma Pastoral popular. Percebíamos que o movimento sindical, a luta pela terra,a associação de moradores e tantos outros movimentos populares tinham uma dimensão política,mas nos faltavam instrumentos adequados para influir nos rumos do Estado. A ditadura militar desmoralizou a atividade partidária, que deixou de ser a disputa entre representantes de diferentes interesses sociais para tornar-se uma negociata de cargos e vantagens. Líderes políticos que não se deixavam corromper por um cargo eram exceções que confirmavam a suspeita geral contra a política. Na busca de meios novos de ação, os movimentos populares fizeram importantes experiências no campo da política partidária, como as prefeituras conquistadas pela Corrente popular do PMDBem Mato Grosso, a participação em campanhas eleitorais e a criação do PT.

Essas experiências trouxeram à tona o lugar dos cristãos na política partidária. Foi então produzido um conjunto de textos que despertaram muita reflexão[1]e disso resultou um encontro de cerca de 30 pessoas, no Rio, em junho de 1989. Unidos pela Fé cristã engajada nas lutas populares, afinidade de pensamento e de práticas, laços de amizade e sintonia no campo da ética, éramos vistos por aliados como “cristãos progressistas” enquanto os adversários nos qualificavam como “igrejeiros”.Ao decidirmos explicitarnossa identidade, criamos o Movimento Fé e Política.Ficou claro que não deveríamos formar um Partido próprio, nem ser uma tendência no interior do PT. Deveríamos, contudo, organizar-nos para não dispersar nossa capacidade de influência nos movimentos sociais e no próprio PT, onde éramos muito numerosos na base, mas pouco influentes nas cúpulas.

Como meios para consolidar essa identidade e favorecer ações articuladas, nos propusemos a promover encontros de estudo, dias de espiritualidade e oração, e publicar cadernos de reflexão. O MF&P nunca seria uma ONG, mas queria ser uma rede, um conjunto de grupos de Fé e Políticaespalhados pelo país. O quanto possível, articularíamos essa grande rede através dos Cadernos de Fé e Políticae encontros. Foi então que, com muito esforço, conseguimos publicar 15 cadernos[2], promovemos vários encontros de estudosobre temas específicos, bem como retiros e dias de espiritualidade. Tudo para alimentar e dinamizar a rede de grupos.

A conjuntura dos anos 1990, porém, era outra. A vitória do capitalismo neoliberal foi um desastre: rompeu unilateralmente o pacto social construído na elaboração da Constituição cidadã de 1988 e deu ao mercado, agora globalizado,enorme liberdade.Também a realidade religiosa havia mudado: na Igreja católica,o processo derestauração identitária ganhou a cúpula eclesiástica e ameaçava todo trabalho de base, enquanto o avanço neopentecostal minava o movimento ecumênicoaté no campo evangélico. As posições políticas conservadorasganharam força,alegando defender a vida intrauterina e a família, enquanto projetos políticos de mudança estrutural na economia eram chamados de “ideologia”. Naquele contexto, nosso esforço quase não dava frutos: pouca gente participava dos encontros ouadquiria os Cadernosque tanto nos custava produzir.

Apesar disso,o impulso inicial estava dado: menos de 10 anos após a criação do MF&P,já existiam no Brasil muitos grupos de “Fé e Política” (com ou sem esse nome), o Movimento Evangélico Progressista era atuante, muitas dioceses incentivavam a Pastoral política e foram criadas Escolas de Fé e Política[3]. De fato, muitos grupos nasceram e desenvolveram excelentes trabalhos de conscientização e articulação política, embora nem sempre ligados ao MF&P.

Na virada do século, a segunda fase doMF&P

Reunidos em janeiro de 1998, em São Pauloconstatamos a realidade demuitos cristãos e cristãs com prática política amadurecida,mas sem espaço eclesial para a vivência da Fé. Para animá-los, oMF&P decidiu promover Encontros Nacionais. Foram realizados:

Ano

Local

Tema

Participantes

2000 Santo André SP Mística da Militância

quase 3.000

2002 Poços de Caldas MG As razões de nossa Esperança

4.000

2003 Goiânia GO Conquistar a terra prometida

6.000

2004 Londrina PR Utopias da fé e realidade da política

5.000

2006 Vitória ES Profetismo no exercício do poder

4.000

2007 Nova Iguaçu RJ Pelos caminhos da América Latina, uma Nova Terra

4.500

2009 Ipatinga MG Cuidar da vida: espiritualidade, ecologia e economia

3.600

2011 Embu das Artes SP Em busca da Sociedade do Bem-Viver: sabedoria, protagonismo e política

3.800

2013 Brasília DF Cultura do Bem Viver: Partilha e Poder

+ de 3.000

A análise comparativa dos temas e do número de participantes nos Encontros Nacionais mostra que oauge de participantes se dá no Encontro de 2003, quando começa o governo Lula,com promessa de mudanças sociais e políticas. Nos Encontros seguintes diminui o número de participantes e os temas apontam a preocupação com o rumo daquele governo. A temática do Bem-viver aparece em 2011, como a indicar a busca de um projeto de transformação vindo da periferia do mundo capitalista, enquanto a diminuição do número de participantes sinalizao desalento com a política.

E agora, a terceira fase?

A proposta do Bem-viverabre caminho para outra forma de ação política, visto que, semdesconhecer a contradição entre capitalismo e socialismo,procura ressaltar outra, também própria do mundo moderno: a contradição entre colonização ocidental e culturas ameríndias. Sua enorme difusão entre os movimentos populares na América Latina está ligada à crise financeira de 2008, que, ao abalar o sistema financeiro global, revelou a fragilidade estrutural do capitalismo: ao substituir as relações de cooperação pela concorrência desregrada, ele rompe os laços de solidariedade humana,corrói as relações internacionais, mina o poder dos Estados,provoca a crise climática e destrói a biodiversidade. Para salvar o sistema financeiro,os Estados adotam a política de ajustes fiscais e liberam a exploração de recursos naturais, agravando, assim, o desequilíbrio climático, energético e ecológico da Terra, como denuncia o Papa Francisco na encíclica Laudato si´. Nesse contexto, os povos oprimidosbuscam uma saída que não sejam os “ajustes fiscais” impostos pelospoderosos, e essa busca leva à descoberta do Bem-viver.

OMF&Pquer responder a esses desafios oriundos da crise global de 2008. Sabemos que umaespiritualidade militante e umasólida formação política são,hoje,tão necessárias quanto antes, mas aspropostasdevem ser repensadas tendo em vista o quadro atual. A Teologia da Libertação, que fundamenta as razões de nossa prática política, tornou-sequase desconhecida nos quadros institucionais das Igrejas, deixando muitos de nós sem um espaço de vivência religiosa politicamente engajada. No campo político, vimos frustrada a aposta que muitos fizemos no Partido dos Trabalhadores comoveículo político das classes populares,bem como a desarticulação das forças de esquerda, o isolamento dos movimentos sociais e um crescente descrédito popular na própria política. Nem por isso, contudo, deixamos de afirmar “as classes populares como sujeito de sua história, na construção de uma sociedade democrática e pluralista”, como quer nossa Carta de princípios.Face a essas dificuldades, temos a convicção de que oMF&P só terá futuro se continuar fiel a seus princípios fundantes: a espiritualidade macroecumênica e a opção pelos excluídos e excluídas do banquete do mercado.Eis aqui o desafio que a realidade atual coloca ao 10º Encontro Nacional de Fé e Política.

Para enfrentar esse desafio, o tema escolhido para reflexão é Bem-viver: águas da solidariedade e sementes de esperança. Com isso, queremos retornar a duas fontes de sabedoria: o Sumak Kawsay dos povos andinos e a resiliência das mulheres e homens do Semiárido, que transformam a morte pela seca em vida pela solidariedade.Ao tomar por referência a sabedoria dos desprezados pelos grandes do mundo, não podemos deixar de pensar em S. Paulo: “Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte”.(1Co, 1:27). Énesses saberes desprezados e ignorados pelos sábios da política que buscaremos os alicerces de uma “sociedade socialista, democrática, plural e planetária”,da qualfala a Carta de Princípios do MF&P.

A Coordenação nacional do MF&P e a Coordenação local do10º Encontro Nacional de Fé e Política já estão dando a forma final do evento, como a definição dolocal, a programação e o modo de inscrição. Tão logo tudo esteja acertado, será feita ampla divulgação.

As pessoas que se interessarem em participar podem, desde agora, iniciar a preparação, que, como foi dito, implica bem mais do que providências práticas para a viagem. Terá maior proveito quem desde já se familiarizar com a temática do Bem-viver. Neste sentido, e como sugestão de leitura,seguem anexos dois textos introdutórios.

22/ setembro. 2015

Pedro A. Ribeiro de Oliveira

Membro da Coordenação Nacional do MF&P

Anexo

Os textos abaixo são trechos de artigos anteriores onde abordei o Bem-viver

1. OBem-viver como projeto alternativo

O Bem-viver é um conceito que visa recriar, diante do fracasso do neoliberalismo, um antigo conceito de certas culturas andinas como os Quétchua e Aymará. Depois de cinco séculos de colonialismo e dominação europeia, os povos tradicionais do nosso Continente buscaram em sua sabedoria ancestral uma proposta de vida que os ajudasse a construir uma nova ordem social e política. No período de mobilização popular contra as políticas neoliberais, aquele projeto de vida coletiva ganhou novo conteúdo e nova forma, e sua força foi tanta que acabou sendo incorporado nas Constituições da Bolívia (2009) e do Equador (2008). Isso despertou a atenção de grupos e movimentos alternativos em outros países e foi assim que, nos últimos anos, o Bem-viver entrou na agenda de um número cada vez mais amplo de movimentos sociais, grupos e pessoas.

Antes de explicar o que é o Bem-viver, é preciso deixar claro o que ele não é: uma volta a um passado idealizado. Os povos que viviam neste Continente antes da colonização europeia tinham – e, de certa maneira ainda mantêm – modos de vida muito diferentes da moderna sociedade de mercado. Em todos eles o predomínio de relações de reciprocidade para a circulação de bens (dar / receber / retribuir, em lugar de vender / comprar) e uma tecnologia rudimentar (se comparada à tecnologia ocidental posterior à revolução industrial), condicionaram a constituição de sociedades sem concentração da riqueza, embora socialmente estratificadas conforme seu acesso ao poder político, religioso ou cultural. Por isso, seus valores, suas leis e seus costumes eram – e ainda são – bem diferentes dos valores, leis e costumes da civilização ocidental-cristã. Por este motivo são conceitos inspiradores, mas não modelos a serem imitados.

Se não é um modelo a ser seguido, o que é, então o Bem-viver?

O conceito refere-se a duas palavras com significados semelhantes em Quétchua e em Aymará: suma(k)= muito bom, e kawsayou camaña = conviver. Literalmente, deveria ser traduzida como “boa vida”, mas sua conotação no Brasil daria confusão. Sua ideia central é a vida em harmonia (i) consigo mesmo, (ii) com outras pessoas do mesmo grupo, (iii) com grupos diferentes, (iv) com Pachamama – a Mãe Terra (v) seus filhos e filhas de outras espécies e (vi) com o espiritual.

Sua importância reside principalmente em sua capacidade de romper o antropocentrismo (isto é, a centralidade da espécie humana que se julga superior a todas as outras) que está na base da civilização ocidental-cristã. Ora, essa civilização entrou em crise e aproxima-se de sua agonia, por ser incapaz de resolver os grandes problemas que gerou com seu sistema de mercado produtivista e consumista. Levado ao paroxismo no final do século XX pelo processo de globalização, ele está provocando graves danos à vida do Planeta e não tem como remediá-los.

A revolução neolítica há cerca de 10 mil anos, possibilitou à espécie humana multiplicar-se e dominar outras espécies, pela domesticação das plantas (agricultura) e dos animais (pecuária). A revolução industrial, há cerca de 300 anos, lhe possibilitou fazer da própriaTerra uma enorme reserva de recursos naturais a serem retirados, transformados, consumidos e descartados em forma de lixo. Assim, a espécie homo sapiens reina absoluta no Planeta mas vê, assustada, que sua sobrevivência está ameaçada. O Planeta tornou-se pequeno demais para ela.

Neste contexto de crise planetária, os setores de esquerda e todas as pessoas que proclamam “um novo mundo possível” se voltam para outras fontes de saber, seja entre povos originários da América, África e Oceania, seja na sabedoria do Oriente. De Nossa América vem a novidade do conceito de Bem-viver, que abre novas perspectivas éticas, econômicas, culturais e políticas. É o que veremos em seguida.

2. Mal-estar generalizado

Vivemos neste início de século uma sensação difusa de mal-estarmundial: parece não haver lugar no mundo onde as pessoas vivam felizes. Não por acaso, fala-se de crise de época como equivalente a decadência da civilização moderna com sua ênfase na subjetividade, na economia de mercado, nos Estados nacionais e na tecnociência. Sente-se o esgotamento da economia de mercado que, regida pelo capital, precisa crescer ilimitadamente e agora se vê diante dos limites físicos da Terra. Atingiu sua culminância com a globalização e a derrota do socialismo soviético, mas desde a crise de 2008 está em perigo e não se vê um sistema capaz de ocupar seu lugar como organizador da ordem mundial.

Essa sensação tem paralelo no longo século 16 (1460-1640), quando foi criado o sistema mundo. Foi uma época de profundas transformações econômicas, técnicas, científicas, demográficas, culturais e sociais, mas também época decaça às bruxas (e aos hereges) mais intensa do que na idade média. Hoje são caçados terroristas, bandidos, traficantes e outros marginais acusados de serem responsáveis por esse mal-estar. É como se sua morte fosse um sacrifício purificador para trazer de volta a tranquilidade do passado. Incapaz de entender o mal-estar contemporâneo, o mundo espera a solução mágica do ritual de sacrifícios expiatórios.

Para entender a causa profunda desse mal-estar é preciso buscar a lógica produtivista / consumista do mercado. Seu primeiro grande teórico, Adam Smith, já no século 18dizia que não é a generosidade e sim a ânsia de lucro que faz o padeiro levantar-se de madrugada para assar e vender seu pão ainda cedo. De fato, a economia de mercado, regida pela lei da oferta e da procura, tem como motor a promessa do lucro. Todo empresário competente sabe que ao contratar trabalhadores e adotar as melhores técnicas de produção e de gestão, aumenta a oferta de bens ou serviços que, ao serem vendidos, lhe darão lucro. Esta é a lógica do mercado: produzir para vender e vender para lucrar. O mercado é impulsionado por esse motor e é da própria essência do mercado expandir-se, isto é, integrar cada vez mais pessoas como compradoras e vendedoras de mercadorias sempre mais diversificadas.

A história do capitalismo é a história do seu dinamismo expansionista pela incorporação de um número cada vez maior de mercadorias e de agentes econômicos – produtores e compradores. Esboçado nas cidades do norte da Itália há cerca de oito séculos, criou as bases do comércio mundial moderno por meio das grandes navegações e da colonização da América, África e parte da Ásia, provocou a revolução industrial, consolidou-se nas revoluções políticas e culturais do século XIX e atingiu a maturidade com o processo de globalização neoliberal. Ao longo dessa história o sistema capitalista assumiu diferentes formas – mercantilista, liberal, imperialista, de bem-estar social e neoliberal – e passou por diferentes centros polarizadores: das cidades italianas foi para Amsterdã, dali para Londres e depois Nova York. Hoje há sinais de que o próximo centro polarizador se localizará na China[4]. Essa expansão, porém, cedo ou tarde encontrará uma barreira intransponível nos limites físicos do nosso Planeta. Seus primeiros sinais apareceram no horizonte nos últimos cinquenta anos. Vejamos brevemente o que eles indicam.

Em diversos campos de atividade – ciências, comunicação, política, filosofia e até teologia – cresce o número de pessoas alarmadas pelo desgaste físico do nosso Planeta. O foco da atenção pode ser a produção de lixo, a destruição da biodiversidade, a degradação dos solos e das águas, a desertificação dos mares, o aquecimento global, o esgotamento das fontes de energia fóssil, os danos à saúde humana e animal, a exclusão social, a revolta dos excluídos, e vários outros sinais de desequilíbrio do sistema de vida da Terra. Os estudos e pesquisas deixam cada vez mais evidente que o principal causador desse desequilíbrio é o produtivismo consumista da economia de mercado. Ele utiliza enormes quantidades de energia e de matérias-primas, e gera mais poluentes (lixos e venenos) e mais gás carbônico do que a Terra consegue absorver.

É aí que é preciso pensar e questionar: como pode a economia crescer sempre, se a Terra continua do mesmo tamanho? A tecnologia avançou tanto que hoje já se exploram os recursos da Terra em locais antes inimagináveis como o petróleo na camada do pre-sal, a 5.000 metros abaixo do nível do mar. Mas não há tecnologia capaz de fazer a Terra crescer. Quando transformarmos todos os recursos da Terra em matéria-prima para a indústria, eles se esgotarão. E aí será o apagão da economia, porque o sistema produtivista-consumista está programado para funcionar até o esgotamento de suas últimas fontes de matéria-prima e energia.

O problema é que o tempo da Terra não é o tempo da espécie humana: um século, que para nós é muito, para a Terra é quase nada. Há três séculos a crescente produção industrial vem exaurindo reservas de água, terra agriculturável, matérias fósseis e minerais e despejando poluição nos mares, solos e ar; mas só recentemente a Terra começa a apresentar claros sinais de perda de vitalidade. Ainda que a produção regredisse aos índices pré-industriais – coisa impossível, devido ao crescimento populacional – os danos já causados levariam muito tempo (para o padrão humano) a serem reparados. Ou seja, paira sobre a espécie humana a ameaça de uma grande catástrofe. Aí reside a fonte subterrânea do mal-estaratual.

3. O Bem-viver:proposta de mudança radical

O Bem-viver propõe outra forma de relação com a Terra: uma relação regida pelo respeito aos seus Direitos. Em vez de extrair / transformar / consumir / descartar, a economia pode e deve ser regida pelo princípio do respeito à Terra. Ela é mãe generosa, mas não é rica. Somos nós –filhos e filhas insensatas – que exploramos a generosidade da mãe, tudo exigindo e nunca retribuindo. Mesmo adoecida e desgastada como está hoje, a Terra continua a oferecer tudo aquilo que durante milênios produziu e conservou em seu seio. Por conseguinte, é preciso proibir toda obra que lhe cause danos graves, como os projetoshidrelétricos em Belo Monte e do Tapajós, a energia nuclear, os venenos agrícolas, os alimentos geneticamente modificados e tantos outros males que sustentam a produção capitalista.

Mais cedo ou mais tarde o apagão dos recursos naturais obrigará nossa espécie a viver pobremente. Podemos então nos antecipar a ele e aprender a diminuir voluntária e planejadamente nosso consumo, e assim realizar o que o economista Serge Latouche chama de decrescimento econômico. Não se trata de voltar a modos de vida de séculos passados, mas sim de iniciar desde agora o processo de redução geral de riquezas, de modo a nos prepararmos para um modo de vida muito mais simples. É claro que este não é o projeto dos bilionários e das dezenas de milhares de milionários que aplicam sua fortuna no sistema financeiro e que se apossam dos bens comuns; tampouco é o projeto das antigas esquerdasque promovem o crescimento econômico para diminuir a pobreza e reduzir os danos do sistema de mercado, como tem feito o governo federal desde 2003.

Para entender sua novidade, convém distinguir desenvolvimento e crescimento. Quando a criança nasce, precisa crescer para desenvolver-se; mas ao chegar à idade adulta, para de crescer sem deixar de desenvolver-se. Pois agora isso se aplica à economia: chega de crescer! Podemos viver muito bem sem acumular riqueza, desde que aprendamos a desenvolver outras capacidades humanas e nos ocuparmos com as artes, a cultura, o campo espiritual, a sociabilidade, o esporte…

Buscar alternativas é missão de todo pensamento, e pensamento criativo é aquele que nasce da prática transformadora. Conhecer, debater e difundir ideias diferentes é o modo mais seguro de evitar a privatização dos bens comuns e sua concentração nas mãos das grandes corporações, e assim preservar para as futuras gerações os serviços que a Mãe Terra generosamente nos tem dado.

O ponto de partida é derrubar a falsa utopia do progresso sem fim e construir uma novaideia-força. Ideia que, ao mobilizar as vontades para realizar-se na história, desperta novas energias e alimenta a esperança de uma vida longa e feliz sobre a Terra.

Isso leva a reformular os padrões de sucesso. Ele não se mediria mais pelo PIB ou pela acumulação de riquezas[5], mas sim pelo grau de harmonia que se alcança nas relações com a grande comunidade de vidada Terra. Os parâmetros de sucesso medidos pelo PIB – tão estimados pelos possuidores de capital – são incapazes de medir a felicidade que vem da vida em harmonia. Aí, e não no consumo de bens e serviços, reside a felicidade humana. Esta é uma lição de sabedoria que os intelectuais e economistas a serviço do mercado tentam desqualificar como ingênua, primitiva, ridícula, mas quem já experimentou momentos de intensa harmonia sabe que eles valem muito mais do que qualquer coisa que se compre no mercado.

Se levada a sério como proposta para todos os âmbitos da economia – e não como solução para situações de precariedade do trabalho – a Economia solidária poderá abrir um novo horizonte para a resolução do velho problema econômico: satisfazer os ilimitados desejos humanos com recursos naturais limitados. Ela não quer ser uma política social – focada no atendimento às necessidades de pessoas excluídas do mercado – mas uma política econômica: um modo de produção, distribuição e consumo de bens e serviços. A economia solidária, bem como outras experiências de trabalho cooperativo, precisa fazer a difícil passagem do micro ao macro, porque uma coisa são os empreendimentos locais que agrupam no máximo algumas centenas de pessoas trabalhando; outra coisa é atender as necessidades de sete bilhões de pessoas, muitas delas com desejos atiçados pela propaganda consumista.

Ela descortina um cenário inteiramente diferente do que é oferecido pelos economistas do sistema, porque ao privilegiar a lógica do valor de uso sobre a lógica do valor de troca, o mercado se torna simples regulador entre a oferta e a procura, perdendo o poder de gerar lucro para quem transforma dinheiro em capital. Essa teoria de um modo de produção e consumo cooperativo parte da teoria criada por K. Marx, que decifrou a lógica de funcionamento e reprodução do sistema, mas vai além dela por incluir a crítica ao produtivismo-consumista.

Aqui a importância do modelo de organização em rede: inúmeras pequenas unidades autônomas quanto à sua gestão e articuladas entre si na consecução de projetos comuns. A gestão de redes requer relações democráticas de poder, para que as minorias sejam respeitadas dentro dos rumos traçados pela maioria e para que a centralidade das decisões não reverta em organizações de forma piramidal. Elas favorecem a implantação de uma economia solidária desde o nível micro, local, até o nível macro – global e planetário.

O Bem-viver representa hoje um enorme desafio ao pensamento e à prática, porque constitui uma sabedoria que bate de frente na utopia do progresso sem fim. O Bem-viver é ideia-força que ao mobilizar as vontades torna-se realidade na história. Ela desperta a esperança e abre o horizonte para projetos radicalmente diferentes.

Ela nos obriga a repensar toda a teoria econômica a partir da inclusão da ecologia. Não é coincidência que ambas tenham o mesmo prefixo – oikos – casa, território habitado. A primeira fala do seu estudo – logia – e a segunda das suas normas de funcionamento – nomia – mas ambas referem-se ao nosso mundo como habitação. Nesta perspectiva, os fatores naturais e ecológicos não podem mais ser considerados “externalidades” ao processo produtivo, mas bens cujo valor econômico precisa ser contabilizado.

Esta a “Boa Notícia” do Bem-viver: podemos continuar a viver e a nos reproduzir nesse planeta tão bonito, desde que aprendamos a partilhar, não acumular, viver de modo frugal, apreciar os bens imateriais (as artes, a filosofia, a contemplação, a espiritualidade), enfim, aprendamos a construir um novo modo de produção e consumo, não regido pela lógica da concorrência mas pela lógica da cooperação.

Conclusão

Quem pode nos ensinar a viver nesse outro modo e produção e consumo?

Aprender com as comunidades populares a viver com simplicidade. (Até fazer festa sem gastar dinheiro). Não é preciso ser rico para ser feliz. “Bem-aventurados os pobres! ”. Este saber ajudará a reconstruir a sociedade humana diante da grave crise ecológica que vai eclodir quando se esgotarem os recursos naturais do Planeta.

“Pensar globalmente e agir localmente” significa hoje, mais do que antes, ter um pé firme na base local, o outro caminhando para uma articulação regional, e os olhos na articulação nacional, continental e planetária. A gestão dessa rede só será efetiva se basear-se numa verdadeira democracia na qual o poder econômico não tenha peso algum e as minorias sejam respeitadas dentro dos rumos traçados pela maioria.

Como cantam as CEBs, no refrão mais político de todo seu hinário: “eu acredito que o mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor”. Acreditar na sabedoria que vem dos povos andinos, e romper com o pensamento arrogante dos doutores em economia. Esta é a Boa-Notícia: podemos ser felizes sem sermos ricos!

 


[1] O texto e sua discussão foram publicados, originalmente, como suplemento de Tempo e Presença, do Centro Ecumênico de Documentação e Informação. Em 1987, acrescido de novos textos, saiu como livro pela Editora Vozes, de Petrópolis, com o título Cristãos, como fazer política.

[2]Acoletânea dos principais artigos foi publicada em 2005 por Ideias e Letras, com o título Fé e Política: fundamentos.

[3]Muito importante foi a criação do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara, com a finalidade de incentivar a formação no campo da Fé e Política e articular, em plano nacional, as escolas locais. Desde sua criação, o MF&P tem sido parceiro do CEFEP, que muito tem ajudado na formação de novas lideranças políticas cristãs.

[4] Essas mudanças se deram sempre em meio a graves crises financeiras, sociais e políticas, e nenhuma delas ocorreu sem provocar guerras. É preciso ter presente essas lições da história para diminuir, o quanto possível, o inevitável sofrimento humano que as crises acarretam. As pesquisas sobre a história do sistema de mercado regido pelo capitalismo ganharam um enorme impulso a partir da obra de F. BRAUDEL: Civilisation matérielle, Economie et Capitalisme, XVe -XVIIIe siècle; Paris, Armand Colin, 3 vol, 1979 e de I. WALLERSTEIN: The Modern World System I: Capitalist Agriculture and the Origins of the European World-Economy in the Sixteenth Century; Nova York, Academic Press, 1974. As crises do capitalismo foram bem analisadas por G. ARRIGHI: O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo; Rio de Janeiro, Contraponto; São Paulo, Editora UNESP, 1996.

[5] Basta lembrar que a soma de todos os PIBs do mundo em 2014 é superior a US$72 trilhões. Isso dá uma renda mundialper capita de cerca de US$10.000 = R$38.000 (mais de R$3.000 por mês). Pequena para os ricos, mas para a grande maioria da população humana um verdadeiro paraíso terrestre.

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