Perseverar na Fé e na coragem contra a destruição do Brasil

por Terezinha Cravo.

Frente a este momento de crise e desmonte da soberania do Brasil como nação, iniciado com o golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff em 2016 e que vem se efetivando com muita rapidez pelas medidas praticadas pelo atual presidente, é imprescindível reencontrar em cada um de nós o que pode nos manter na caminhada.

O momento conjuntural é difícil e perverso, porque estamos vendo as políticas sociais que levaram décadas para serem conquistadas pelas classes populares e garantidas na constituição de 1988, sendo agora descartadas. Por isso, ouso afirmar que esse momento é para homens e mulheres de Fé, de Coragem e de Perseverança que alimentam o sonho de uma outra ordem social baseada no amor e na justiça.

Assim destacou Pe. Kelder Brandão, da Arquidiocese de Vitória/ES, em homilia referente ao sexto do domingo da páscoa. ”Foi em meio aos pagãos que o Evangelho encontrou terreno fértil e fincou raízes, alastrando-se pelo mundo e pela história, até os dias atuais, transpondo as barreiras geográficas, culturais e temporais, conduzido pelo Espírito Santo que age no mundo através de pessoas que se deixam iluminar pela luz divina”.

Na mesma homilia fala da necessidade de entendermos os apelos da verdadeira Fé Cristâ ao dizer que “precisamos ter consciência que a fé cristã não é confortável ou alienante. Ela exige de nós compromissos incondicionais e condicionantes diante do mal presente no mundo”. Por isso, São Paulo afirma: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”.

Da mesma forma, os Bispos do Brasil no encerramento de sua Assembleia Geral reafirmam, em mensagem dirigida ao povo brasileiro, que a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte deve despertar nossa consciência crítica e abrir nossos olhos para enxergarmos o mal presente no mundo:

“Longe de nos alienar, a alegria e a esperança pascal abrem nossos olhos para enxergarmos, com o olhar do Ressuscitado, os sinais de morte que ameaçam os filhos e filhas de Deus, especialmente, os mais vulneráveis. Estas situações são um apelo a que não nos conformemos com este mundo, mas o transformemos (cf. Rm 12,2), empenhando nossas forças na superação do que opõe ao Reino de justiça e de paz inaugurado por Jesus”.

O povo de Deus passou por todo tipo de provação e seguiu em frente, assim também foi a história da constituição do povo brasileiro, permeada por injustiças cruéis – basta rememorar a matança dos povos originários no século XVI, a escravidão dos negros, a apropriação das riquezas naturais para sustentar a metrópole Portuguesa – e mesmo assim esse povo resistiu e continua resistindo. Os índios na luta pela soberania e demarcação das suas terras e os negros na construção de sua identidade e na luta pelo fim do preconceito racial, ainda tão presente na sociedade.

Em momentos de turbulência, como o que vivemos atualmente, somos testados e podemos achar que tudo está perdido, sendo levados ao desânimo e à desesperança. Reconhecer subjetivamente esse estado é fundamental para buscar na fonte de nossa crença em Deus a força que nos manterá no caminho do bem comum de um projeto de justiça que fundamenta a nossa Fé. No evangelho sempre encontramos as respostas: “Estejam vigilantes, mantenham-se firmes na fé, sejam pessoas de coragem, sejam fortes” (1Cor 16,13) “no mundo terá aflições; contudo tenha animo, eu venci o mundo” (Jo 16,33).

O desmonte da soberania do país com as privatizações das nossas empresas, o congelamento dos gastos, o corte das verbas das universidades públicas, escola sem partido, reforma da previdência, a liberação de agrotóxicos, de armas e outras atrocidades, não pode ser visto como natural. Ser cristão nesta conjuntura exige a capacidade de orar e agir a favor dos que são vítimas desse sistema tão perverso para a maioria do povo. E ainda contribuir para frear a continuidade dessas atitudes de retrocesso que afetam toda a sociedade.

A pergunta que não cala em muitas mentes e corações é exatamente essa: Como frear as atitudes de retrocesso deste governo? E a resposta mais importante neste momento está em sair do umbigo de si e alcançar o encontro do outro. É preciso estar junto, porque aquilo que cada um deixa de fazer não será feito por nenhum outro e todos são importantes. É preciso estar junto e nas ruas como fizeram os professores, alunos e funcionários recentemente, dando um recado claro de que não aceitam o corte de verba na educação pública. Citando Eliane Brum “Posição e luta não se terceiriza. O que você deixa de fazer não será feito por nenhum outro”.

O papa Francisco ao afirmar “Ter fé não significa estar livre de momentos difíceis, mas manter a força para os enfrentar sabendo que não estamos sozinhos” nos encoraja para o exercício de uma fé militante que se faça presente na construção de um país e mundo mais justo. Por isso mesmo, como cristãos, independente da denominação religiosa, não pode ser admissível a passividade mediante a destruição de um país, em um curto espaço de tempo, como vem acontecendo com o Brasil nos últimos quatro meses. Sejamos homens e mulheres de fé, de coragem e de perseverança para irmos às ruas mudar esse jogo.

Terezinha Baldassini Cravo
Terezinha Cravo
Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé & Política.